<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503</id><updated>2012-02-16T17:43:25.520-08:00</updated><title type='text'>CONTOS GROTESCOS</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>226</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-2862466761085887841</id><published>2010-11-28T13:19:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T13:19:44.624-08:00</updated><title type='text'>A SÉTIMA PÉTALA</title><content type='html'>A SÉTIMA PÉTALA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: MÁRCIO BORDIN &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    3h50min. Da madrugada. Erik acordou com o irritante som do telefone tocando. Assustado com a hipótese de ter acontecido algo de grave com alguém de sua família, mais do que depressa ele atende o aparelho, porém, quando coloca o fone no ouvido, não ouve absolutamente nada, seu telefone está mudo. Estava muito tarde para conferir o que tinha acontecido com sua linha, deixou para cuidar disso pela manha bem cedo e, quanto ao fato de tê-lo ouvido tocando, talvez tivesse sido apenas um sonho. Então o jovem advogado decidiu voltar a dormir, pois teria que estar no tribunal às sete da manha, mas, quando repousa sua cabeça sobre o travesseiro, é a campainha que começa a tocar.Rapidamente ele veste um roupão e desce as escadas, correndo, para atender à porta, não sem antes pegar o revolver calibre 38 na gaveta de seu criado-mudo, nunca se sabe quem pode estar do outro lado da porta a essa hora da noite. Cuidadosamente, Erik esconde a mão que segura a arma atrás da porta. Abrindo-a poucos centímetros com a mão livre, apenas uma pequena fresta, o suficiente para ter uma boa visão da frente de sua casa. Mas não viu ninguém, absolutamente ninguém. Irritadíssimo com a brincadeira de mau gosto que algum moleque lhe pregou, o rapaz abre a porta por completo e corre até a rua na esperança de conseguir ver quem foi o garoto que tocou sua campainha e fugiu. A rua também estava vazia, não avistou nenhuma alma viva até onde seus olhos alcançaram, apenas um enorme cão negro estava parado na calçada do outro lado da rua, como se silenciosamente observasse os movimentos do jovem Erik. O rapaz nem dá atenção para o animal e volta para dentro de sua casa. Ele estava irritadíssimo, mesmo assim precisava dormir. Antes de fechar a porta por definitivo, Erik dá uma última olhada na rua e, dessa vez, nem mesmo o cão está mais lá. O jovem bate a porta com força, trancando-a; quando se vira, surpreende-se com um estranho homem sentado em sua poltrona favorita, posicionada de frente para a porta. Um homem de pele muito clara, trajando terno branco e chapéu da mesma cor que lhe cobria os olhos e parte do rosto. No bolso do elegante paletó, o homem trazia uma rosa vermelha. Apavorado, Erik empunha a sua arma, apontando-a para o peito do intruso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Quem é você e, como passou por mim sem que eu lhe visse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Nada, nenhuma resposta, o estranho permanece em total silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Saia de minha casa agora, se não, eu vou atirar, eu juro que atiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O silêncio é quebrado pela mais horripilante gargalhada que Erik já teria ouvido, o riso ensurdecedor parecia vir de todos os cômodos da casa direto ao cérebro do jovem. Ao término da mórbida alegria, o estranho volta a ficar silente, enfiando a mão no bolso interno de seu paletó. Tal atitude deixou Erick apavorado, disparando três tiros em direção ao peito do sujeito. Mas o intruso não esboçou nenhuma reação, nem de susto, nem de medo e muito menos de dor, era como se as balas tivessem desviado de seu corpo. Como se nada tivesse acontecido, o homem tira do bolso um maço de cigarros, põe um cigarro na boca, encosta a unha comprida e pontiaguda do dedo indicador na ponta do mesmo e acende-o. Após uma longa tragada, o estranho assopra a fumaça em direção ao Erik e, em seguida, novamente sua gargalhada toma conta de todo o ambiente. Enfim, o estranho homem começa a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Homens! Os mais estúpidos dos animais. A única criação a quem “ele” conferiu o dom do raciocínio, e toda a inteligência foi usada para a autodestruição: dos cigarros às armas, das bebidas à bomba-atômica, tudo o que vocês sabiamente conseguiram criar de algum modo os leva à morte. Tolos mortais usaram da sabedoria para se tornarem os mais estúpidos dentre os animais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Quem é você? Responde, maldito - Erik pergunta aos berros, tentando controlar a tremedeira de seu braço e continuar apontando a arma para o estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Quem sou eu - o sujeito se levanta; nesse momento Erik vê no encosto da poltrona na qual o homem estava sentado três buracos de balas. Percebendo que a arma não causaria nada no estranho invasor, o rapaz a deixa cair no chão. Então o estranho, ainda sem levantar a cabeça, continua a falar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Você sabe quem eu sou! Quando você era criança, todas as noites antes de dormir você olhava em baixo da cama para ver se eu estava lá... E eu estava; você não me enxergava, mas eu estava... Vocês, pobres idiotas, me deram muitos nomes e muitas faces, uma mais horrenda que a outra, ignorando até mesmo a maldita Bíblia que diz que “ele” me criou tão belo e poderoso quanto a si mesmo... Deram-me chifres e rabo, me chamam de capeta, de diabo, de demônio, de satanás, hades, belzebu... Outrora já fui chamado de o portador da luz, meu nome é Lúcifer... A mais poderosa criação divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Nesse momento, Erik sente todo seu corpo estremecer, suas pernas já não agüentam mais o próprio peso, ele cai sentado no sofá tentando inutilmente controlar seu temor. Gaguejando, ele pergunta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - E, o que você quer... quer de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O nefasto homem calmamente caminha em direção a Erik, seu chapéu continua escondendo seus olhos; pausadamente, ele volta a falar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - A sua alma, eu quero a sua alma e, nesse momento, ela me pertence, mas para a sua sorte, eu e “ele” resolvemos lhe dar uma chance de reparar sua vida e se livrar do peso de seu pecado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Pecado? Que pecado? Não tenho nenhum pecado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Tomado de uma fúria sem igual, Lúcifer agarra o jovem advogado pela garganta, cravando as unhas pontiagudas em seu pescoço, levantando-o do sofá com apenas uma das mãos, e finalmente mostrando seus olhos, que até então estavam escondidos sob a aba do chapéu. Lançando um olhar fixos nos olhos de Erik, um olhar todo negro, profundo, execrável, um olhar carregado de toda maldade que há no inferno, Lúcifer começa a gritar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Não minta para mim, idiota. Você pode mentir para a mulher que você deixou viúva, você pode mentir para o garoto que você deixou sem pai aos seis anos de idade, você pode mentir para a polícia, você pode mentir até para você mesmo, mas você não pode mentir para mim, nunca minta para mim, eu conheço seu pecado, eu conheço os pecados de todos os homens. Eu estava lá quando você atropelou aquele infeliz e fugiu, deixando-o para morrer... Eu conheço todos os pecados... Eu estou por trás de todos eles... Eu sou o pecado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Lúcifer solta o pescoço de Erik, deixando-o cair novamente sentado no sofá, voltando a falar calma e pausadamente, enquanto retorna para a poltrona que estava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Mas como eu já disse, hoje é seu dia de sorte. Entre milhões de prováveis candidatos, você foi escolhido e terá a chance de mostrar para “ele” que seu lugar não é no inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O sinistro sujeito coloca a mão com a palma para baixo sobre a mesa de centro localizada em sua frente e, lentamente, vai levantando a mão. Fazendo aparecer um copo cristalino sobre a palma, encosta sua unha comprida na boca desse copo, enchendo-o de água. Erick observa apavorado a cena. Lúcifer rindo da situação diz ao jovem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Não se assuste com isso, sempre faço água escorrer pelos olhos das imagens que vocês chamam de santas, só para ver até onde vai a estupidez humana. Como é divertido ver todos se ajoelhando e pedindo por um milagre a um pedaço de gesso! “Ele” já me pediu varias vezes para não fazer mais isso, mas eu não resisto, eu faço e vocês choram, se ajoelham e adoram, mesmo “ele” lhes pedindo para não adorarem imagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Lúcifer retira de seu bolso a bela rosa vermelha, depositando-a dentro da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Sete pétalas, é o tempo que você terá, nem mais, nem menos. Seu tempo é mínimo, mas suficiente. Espero que o aproveite. Se não conseguir, quando a sétima pétala dessa rosa cair... Eu voltarei para buscá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Erik abaixa a cabeça, apoiando-a nas mãos, não acreditando que aquilo estava lhe acontecendo. Mais uma vez a maldita gargalhada penetra em seu cérebro, o jovem volta o olhar para o seu indesejável visitante, ele não estava mais lá, foi embora deixando apenas a rosa sobre a mesa branca. Erik volta a seu quarto, cabisbaixo, ainda assombrado com o recente acontecimento. Ele queria acordar e ver que tudo não passou de um pesadelo, mas a dor que sentia no pescoço, causada pelas unhas do intruso, era bem real. Andava de um lado a outro do quarto, lembrando-se, como se tivesse sido ontem, aquela maldita tarde em que saiu com seu carro, às pressas, para um julgamento em que ele era o advogado de defesa. Era seu primeiro caso, por isso seu nervosismo estava à flor da pele e como que por um descaso do acaso, um homem completamente bêbado entrou na frente de seu carro. Erik não teve tempo para reação, ele mal viu de onde o homem surgiu e quando se deu conta o infeliz já estava sendo atirado por cima do carro. Assustado e confuso, Erik freou de repente e pela janela do veiculo olhou para aquele corpo estendido no asfalto, o sangue formando uma imensa poça vermelha em volta da cabeça. Nem mesmo ele entendeu o porquê, mas a única coisa que lhe veio à mente naquele momento foi deixar o local. Não conseguia acreditar que tal tragédia aconteceu com ele. O envolvimento de um advogado - principalmente sendo recém-formado - em um homicídio, fosse ele culposo ou doloso, seria uma mancha difícil de apagar. Não tinha mais ninguém nas ruas, somente Erik e aquele corpo deitado no asfalto, então o rapaz acelerou o carro e se evadiu do local, sem olhar para trás, deixando apenas o corpo sem movimento mergulhado naquela poça de sangue. Erik pediu para adiar o julgamento, alegando problemas de saúde e durante o resto do dia ele permaneceu trancado em seu escritório, tentando fingir que nada aconteceu. Mas a consciência é o pior dos torturadores para os homens de bom caráter. O jovem Erik não conseguia esquecer aquela cena, aquele corpo estendido no asfalto, tentou dormir, mas aquela mancha de sangue estava em seus sonhos, estava em sua mente. Depois de uma noite mal dormida, ele decidiu tentar descobrir quem era aquele homem, procurou a polícia com a desculpa de ter lido sobre o caso no jornal e queria oferecer os seus serviços de advogado à família da vitima, em caso de moverem um processo contra o condutor do veiculo. Na delegacia, Erik descobriu que o homem se chamava Felipe Latorre, era casado e pai de um garoto de seis anos. Felipe tinha perdido o emprego na manhã do acidente, a polícia acreditava que esse tenha sido o motivo de um provável suicídio, porém ainda procuravam pelo condutor do veiculo. Suicídio ou não, o condutor se evadiu do local sem prestar socorro à vitima. O jovem advogado deixou seu cartão com o sargento que o atendeu e deixou a delegacia. Tendo em mãos o nome do homem atropelado, foi fácil para Erik descobrir o seu endereço. Acabou conhecendo a viúva, Sara Latorre, e seu filho Luan. Também se aproximou de Sara com a desculpa de querer oferecer os seus serviços. Enquanto chorava a morte do marido, a mulher lhe confidenciou que era casado com um homem doente, um viciado em jogos. Felipe estava sufocado até o pescoço em dividas e por isso estava deixando-o, não agüentava mais ver o homem que amava perder tudo que ganhava em uma mesa de pôquer. Na manha do acidente, seu marido tinha perdido o emprego, ele pegou tudo que recebera por seu tempo de serviço na firma e, na tentativa de dobrar o valor para saldar as divida, ele acabou perdendo tudo no jogo. Em desespero, ele encheu a cara de bebida, mandou uma mensagem pelo celular à sua amada esposa Sara, com poucas palavras, que diziam: “Me desculpe por não ter sido o marido de teus sonhos, diga ao Luan que o amo muito, amo muito vocês dois e sempre os amarei... Adeus”, e, em seguida pulou na frente do primeiro carro que apareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Descobrir que realmente se tratava de um suicídio aliviou o torturante sentimento de culpa do rapaz, esquecendo-se do fato que, sendo suicídio ou não, ele deveria ter tentado salvar a vida do desiludido homem de todas as formas, mas não o fez. Erik decidiu seguir sua vida normalmente, como se nada tivesse acontecido... Até hoje, porém ele não esperava que o passado voltasse para lhe cobrar essa divida. Erik abre a gaveta do criado-mudo ao lado de sua cama. Após vasculhar a papelada lá esquecida, ele encontra uma agenda antiga; folheando-a rapidamente, ele pára letra “S”, e localiza um nome: Sara. Pega o telefone, mas ao colocá-lo no ouvido percebe que o mesmo ainda está mudo, então ele pega o celular, mas antes de ligar Erik olha as horas marcadas no visor do aparelho, são 4h20min. Da madrugada, ele resolve esperar que o dia amanheça, desce as escadas correndo, a fim de conferir como estava a maldita rosa. Sente um alivio ao vê-la ainda intacta, coloca o celular na mesma mesa em que se encontra a rosa e se senta na poltrona, apoiando a cabeça sobre as mãos, observando a singela e odiada flor. Inquieto, Erik se levanta e dá varias voltas ao redor da mesa, indo e vindo, sentando novamente e levantando, iniciando novas voltas, não tirando nem por um segundo o olho da rosa. Seus nervos estavam completamente fora de controle. Volta a conferir as horas, são 4h50min. Ainda é cedo, mas ele não consegue mais esperar, ele sabe que logo a primeira pétala cairia, pega a agenda do bolso e liga para o numero ao lado do nome de Sara. Um frio lhe percorre a espinha ao ouvir a voz sonolenta de uma mulher do outro lado da linha, ao mesmo tempo em que seus olhos vêem a primeira pétala da rosa delicadamente se desprender da bela flor e repousar sobre a mesa de mogno branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Alo! - Responde a voz feminina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Alo, Sara?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Sim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Sara, sou eu... Erik... Lembra-se de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Erik?!? Eu me lembro. O advogado que me procurou quando meu marido... Bem; eu me lembro de você sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Desculpe-me por ligar a essa hora, mas eu preciso falar com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Aconteceu alguma coisa? Você parece nervoso. - Pergunta Sara ao notar um tom de aflito na voz de Erik.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Sim, aconteceu, mas, se eu lhe contasse, com certeza você não acreditaria em mim, então não vou me arriscar a ser ridicularizado por você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Pela hora que você me ligou, só pode ser algo de muita urgência, então fale.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Deixa-me ir direto ao assunto... Lembra-se do acidente de seu marido?... É claro que se lembra, mais que pergunta idiota a minha... Bem; eu não fui sincero com você quando lhe procurei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Era eu que... Fui eu que atropelei... O seu marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Erik... Eu sei... Eu sempre soube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Erik se surpreende com a resposta da jovem viúva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Você sempre soube? Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Toda vez que você olhava para mim ou para meu filho eu enxergava um pedido de desculpas em seus olhos, eu sentia que você estava sendo torturado pelo que tinha lhe acontecido, por isso nunca toquei no assunto, mas isso já faz um ano. Por que resolveu me dizer agora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Você não acreditaria em meus motivos, só entenda que eu precisava me confessar com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    A segunda pétala cai sobre a mesa. Erik volta a falar com descontrole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Você está precisando de dinheiro? Eu lhe ajudo, eu lhe ajudo com o que você precisar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Erik, as coisas estão mesmo difíceis, mas não quero a sua ajuda. Eu sei que você não teve culpa na morte de meu marido. Se não fosse o seu carro, seria o de outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O suor frio escorre sem parar na testa do rapaz, suas mãos trêmulas mal conseguem segurar o celular ao ver a terceira pétala se desprender da rosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Mas eu tenho uma dose de culpa... Eu não o ajudei... Eu não sei por que eu fiz isso, talvez tivesse ficado com medo de prejudicar a minha carreira com o envolvimento em um acidente como aquele. Eu simplesmente fugi sem nem ao menos descer do carro para ver como seu marido estava. Eu poderia talvez ter-lhe salvo a vida, ou ao menos tentado... Mas não o fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Sara fica em silêncio, Erik consegue ouvi-la chorando ao fundo do fone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Sara? Sara?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Estou aqui! Erik, preste atenção, eu não sei o que aconteceu com você ou porque você resolveu me falar isso depois de tanto tempo, mas sei que, para julgá-lo, eu teria que estar no seu lugar e passar pelo que você passou. Não posso fazer isso e tenho certeza que você já se julgou e se sentenciou. Você é um bom homem Erik, também sei que faria tudo diferente se tivesse uma segunda chance, mas meu marido está morto e nada o trará de volta. Então, por favor, tente esquecer isso e me deixe tentar esquecer também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    A quarta pétala cai, Erik não sabe mais o que deve fazer para salvar a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - O garoto... Luan é esse o nome dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Meu filho?!? O que tem ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Deixe-me fazer algo por ele... Deixe-me pagar os estudos dele ou algo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Sara pensa por um instante e logo responde:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Olhe, meu orgulho não me deixa aceitar nenhum favor seu, mesmo passando pelas dificuldades que estou passando. Mas, meu filho não deve sofrer por causa de meu orgulho. Então vou aceitar que você pague os estudos dele se assim você quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Obrigado Sara, sei que não apagará o que aconteceu, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Por favor, amanhã falaremos sobre isso, agora tente dormir um pouco. Tchau, Erik.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Sara desliga o telefone. Erik fecha o celular e o recoloca sobre a mesa, olhando atentamente para a rosa. Achando que conseguiu se livrar de Lúcifer, o rapaz esboça um sorriso. Seu sorriso deixa o seu rosto ao ver a quinta pétala caindo, no mesmo instante em que o vulto de um homem de branco aparece em pé ao seu lado. O desespero de Erik retorna ao seu corpo com mais intensidade, então ele gira o rosto para fitar a pessoa em pé ao seu lado, mas não vê ninguém. O jovem, vendo que ainda não está a salvo, pega novamente o celular. Dessa vez ele digita apenas três números.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Departamento de polícia, boa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Boa noite. Eu gostaria de falar com o sargento De Lucca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - São 5h30min. Da manha meu senhor. O sargento De Lucca só chega às 8h.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Tem algum outro superior de plantão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Me desculpe senhor, mas estão todos em ronda. Está acontecendo alguma coisa com o senhor? Quer que eu encaminhe uma viatura até a sua casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    A sexta pétala também se solta. O jovem advogado sente alguém andando a sua costa, se vira assustado, novamente não tem ninguém. Todo seu corpo treme, o suor gélido escorre sem parar, Erik sente seu coração disparar desenfreada mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - O senhor está bem? Que eu encaminhe uma viatura senhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Não será necessário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Erik desliga o celular ao ver a sétima pétala caindo enquanto ouve novamente a maldita gargalhada penetrar em sua cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Seu tempo acabou, meu rapaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O jovem advogado se levanta lentamente da poltrona, encarando seu triste destino. Ele queria gritar, correr, se esconder, mas Erik sabe que nada disso adiantaria. Sua cabeça gira sem parar, indo e vindo, do inicio ao fim e voltando, tentando entender onde foi que errou, o que ele deixou de fazer. Seus pensamentos são interrompidos pela voz de seu carrasco invadindo sua mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Pare de se torturar meu rapaz. Você terá toda a eternidade para descobrir onde errou, isso é claro. Quando você não estiver sentindo o seu cérebro pegando fogo ou os chicotes estalando em suas costas, talvez você consiga encontrar algum tempo para pensar onde errou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Lúcifer pega a rosa do copo, todas as pétalas caídas retornam a seu lugar de origem, a flor está bela e formosa novamente. Erik percebe uma nuvem negra se formando ao seu redor, espectros do inferno se movendo a seus pés, envolvendo-o pouco a pouco. Ele chora, como um menino perdido; ele chora, suas pernas não agüentam o peso de seu sofrimento e se dobram, seus joelhos despencam em direção ao solo. De braços abertos, Erik joga seu corpo para trás, deitando-se sobre as pernas. Seus olhos estão fixos no teto da casa, olhando para o nada, olhando para algo que ele não conseguia enxergar, mas sabia que estava lá, observando a tudo em silêncio. Seus lábios sussurram entre as lágrimas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Perdoe-me, pai... Perdoe-me!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    De repente, as nuvens negras desaparecem, o indesejável visitante dá alguns passos, parando na frente do rapaz deitado de braços abertos para o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Conseguiu, meu rapaz. Demorou, mas você conseguiu. Você começou se confessando à viúva, depois você ofereceu ajuda em dinheiro a ela e depois ao filho dela, ligou para a polícia e, a única coisa que “ele” queria, era ouvir um pedido de perdão, um pedido vindo direto de seu coração. Demorou, mas você conseguiu. Tenho que ir agora. Minha casa vive cheia de novos visitantes, não posso ser um anfitrião ausente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Lúcifer, rindo do próprio comentário sarcástico, dá as costas a Erik, quando esse solta um grito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Espere!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - O que você quer? Ah, já sei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Novamente direcionando aqueles olhos completamente negros aos olhos do advogado, com uma voz de mil leões furiosos, o homem responde a pergunta que não queria calar na cabeça do jovem Erik:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    - Não se engane garoto. Eu não sou bom, não sou piedoso... Não sou misericordioso. Vocês malditos mortais conseguiram fazer com que “ele” perdesse a esperança em vocês a ponto de querer por um fim em toda a sua raça... Você, meu caro Erik, foi apenas o escolhido para que eu o convencesse a mudar de idéia, pelo menos por enquanto. O fim do homem sobre a terra convém muito mais a “ele” do que a mim. Sem vocês entre nós, nosso confronto direto seria inevitável e, ainda é cedo para confrontá-lo diretamente... Na hora certa, nós veremos quem é o verdadeiro rei dos reis e quanto a você... Como todo bom advogado, você vai pecar novamente e quando isso acontecer eu estarei esperando por você... Eu estarei esperando por você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-2862466761085887841?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/2862466761085887841/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=2862466761085887841' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2862466761085887841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2862466761085887841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/setima-petala.html' title='A SÉTIMA PÉTALA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-2146765292771419228</id><published>2010-11-28T13:17:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:18:58.474-08:00</updated><title type='text'>O VERME</title><content type='html'>O VERME &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: AUGUSTO GALERY &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AUTOR: AUGUSTO GALERY&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O verme virou-se para a mulher de dentro de seu aquário, como se pudesse encará-la de sua face sem olhos e sorrir um sorriso maligno, mesmo sem boca. Flutuou no ar do aquário contorcendo-se. E instantes depois penetrou na cabeça da mulher, perfurando sua testa com brocas invisíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher debateu-se enquanto o verme penetrava seu crânio e em seguida todos os objetos da casa tomaram vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último desejo consciente que a mulher teve foi que as vozes vindas da geladeira e do escorredor de pratos fosse uma alucinação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Completamente entregue aos objetos da casa, a mulher tentou desligar as trempes do fogão, que giravam e combustavam enquanto os fósforos, da caixa com centenas, ignizavam-se espontaneamente no gás que escapava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu a torneira, mas a água tentava-lhe escapar, assim como o pano de pratos enrolou-se em sua mão, sem deixá-la usá-lo para abafar as chamas. Com um grito “banzai”, o pano transformou a mão da mulher numa grande tocha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só então ela se deu conta do barulho: alto e arrastado, o som da geladeira indo em sua direção era preenchido de diversos outros sons: ovos quebrando; suco, água e leite derramando-se; tigelas e pratos de restos de comida escorrendo e estilhaçando-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher virou-se mas, antes que ela pudesse esboçar outra reação, a porta da geladeira abriu-se, todo o seu conteúdo escorrendo. A mulher ficou prensada entre o frio, sua face mergulhada no gás congelado do freezer, e o calor das chamas do fogão que, a essa altura, anelava seus cabelos e desencarnava seu pescoço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como foi que o verme chegou em Forestier é difícil definir. Foi durante um picnic com a família: esposa, filhos e cachorro observaram quando o homem perdeu a razão – em um instante ótimo, no seguinte parecendo estar no último grau de agonia – e jogou-se do desfiladeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pequena Maxime, de quatro anos, arregalou os olhos e um calafrio escorreu-lhe, molhando a terra a seus pés. O jovem Martin apenas gritou e depois fechou os olhos, repetindo para si mesmo que era brincadeira, era brincadeira, era brincaderia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era brincadeira. Forestier caiu por 30 metros, mergulhando no rio lá embaixo e quebrando o pescoço ao colidir com a água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o verme não o deixou ir tão fácil. E Forestier decidiu fazer o mesmo. Afundou dentro do rio e deixou-se levar até o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O galeão espanhol que se deitava ali deu uma idéia ao homem. Arrancando as tábuas velhas e, com ajuda de pedras e um ouriço-do-mar, construiu, ali mesmo, no fundo do mar, uma pequena cabana, que o protegesse da chuva e das correntes frias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O verme ainda resistiu por anos e anos, devorando o mundo que Forestier mantinha na cabeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, por fim, o verme desistiu, saiu da mente vazia do homem, durante a noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de doze anos desaparecido, Forestier bateu à porta de sua antiga casa. Seus olhos eram vazios e ele cheirava a maresia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três anos depois, Martin se habituara ao pai, mas Maxime ainda o entendia. Não que fosse fácil para Martin: tentar viver nos dois mundos o sufocava, mas ele amava o pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na joalheria onde Forestier comprava mais colar de pérolas para o túmulo da esposa, eles conversavam. A mãe de Martin e Maxime havia morrido anos antes do retorno do pai. O pai, ao saber, comprou-lhe uma pérola para que ela se alimentasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a pérola desapareceu, Forestier convenceu-se – a despeito da opinião dos filhos de que a pérola fora roubada – de que a esposa precisava de mais e mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maxime foi embora da joalheria, os olhos cheios de ódio, convencendo-se de que nunca mais amaria outro homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E sua pós-graduação? – O pai perguntou a Martin, de seu mundo. O corpo do jovem tremeu e seu peito encheu-se de angústia, derramando lágrimas em sua boca. O ar lhe faltou. Ainda tentou conversar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Do seu mundo ou do meu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Do meu, é claro! – Forestier encerrou qualquer possibilidade de conversa – Engenharia Elétrica! Está bom para você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Martin, afogado em lágrimas, aquiesceu com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-2146765292771419228?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/2146765292771419228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=2146765292771419228' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2146765292771419228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2146765292771419228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-verme.html' title='O VERME'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-8473602352315767305</id><published>2010-11-28T13:16:00.002-08:00</published><updated>2010-11-28T13:17:42.876-08:00</updated><title type='text'>AÇOUGUE HUMANO</title><content type='html'>AÇOUGUE HUMANO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: FÁBIO ALVES &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O AÇOUGUE HUMANO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Fábio Alves. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este conto mostra como a fome e a miséria faz com que pobres e humildes pessoas podem ser ludibriadas por qualquer estranho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou no povoado de Santa Maria, lugar extremamente miserável, e de gente humilde e vítimas do descaso dos políticos que elas mesmas inocentemente elegeram com tanta fidelidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O padre Firmino, respeitado por todos, mas odiado pelos “grandes” que se aproveitavam descaradamente e da pobreza daquele povo, batalhava com fervor para melhorar a vida do povoado, recolhia alimentos na cidade para os necessitados, cobrava corajosamente as promessas dos corruptos políticos e fazia tudo mais o que poderia fazer um homem de Deus pelos seus fiéis, a ponto de não investir mais um centavo na paróquia, ofertando tudo para aqueles derrotados pela miséria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O padre observara com o tempo a igreja esvaziando e a crença do povoado em Deus se extinguindo e, com a chegada de um estranho na cidade, as pessoas esqueceram- se do pároco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este estranho, homem de boa aparência e cheio de falsas promessas, conseguiu engabelar todo o povoado com uma história de emprego fácil. Dizia que as pessoas ganhariam muito dinheiro trabalhando com ele e sua equipe em um açougue, e que nunca lhes faltaria carne para comerem, garantindo-lhes uma vida de riqueza e fartura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco, padre Firmino viu o povo desprezá-lo. As pessoas o acusavam de nunca fazer nada para ajudá-las e, também, de se aproveitar da situação em que se encontravam para ganhar dinheiro para a paróquia. E voltaram-se contra o padre, que pressentia que havia algo de errado naquele sujeito diabólico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem carregou com ele metade do povoado para esse milagroso açougue, deixando Santa Maria quase deserta e irritada com Firmino. Mandou queimar a igreja do “mentiroso”, que era assim que ele chamava padre Firmino no povoado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semanas se passaram e nada de resposta daquelas pessoas que saíram de Santa Maria. Mães de família,crianças e velhos estavam aflitas, porque nem seus pais nem seus maridos escreviam cartas ou mandavam recado para elas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto - um dos filhos de um homem que fora com o estranho, amigo fiel do padre e muito corajoso - tivera a idéia de procurar seu pai e parentes. Augusto e o padre montaram em duas bestas, e seguiram na velha estrada que ligava o povoado à cidade mais próxima, ao encontro daqueles tolos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando a tal açougue, localizado em uma velha fazenda, descobriram que lá também funcionava um matadouro, mas os dois estranharam, porque observaram toda aquela propriedade e não acharam nenhum animal por lá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar no local, foram recepcionados por o homem estranho, que se apresentou com o nome de Marcos. Capangas armados aproximaram-se rapidamente dos três. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto perguntou onde estariam seu pai e os trabalhadores que partiram com ele. O homem os convidou para entrar em sua casa. Padre Firmino, muito curioso, fingiu ir ao banheiro, fugindo loucamente para o matadouro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando lá, ele viu uma cena terrível: corpos esquartejados de homens, mulheres, crianças e velhos sendo pesados para a venda de suas carnes .E quando foi, transtornado com o que tinha ocorrido, avisar para Augusto, já era tarde demais... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-8473602352315767305?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/8473602352315767305/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=8473602352315767305' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8473602352315767305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8473602352315767305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/acougue-humano.html' title='AÇOUGUE HUMANO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-5819594425277988882</id><published>2010-11-28T13:16:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T13:16:53.318-08:00</updated><title type='text'>A SOMBRA RASTEJANTE</title><content type='html'>A SOMBRA RASTEJANTE &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: ROGÉRIO SILVÉRIO DE FARIAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A SOMBRA RASTEJANTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ROGÉRIO SILVÉRIO DE FARIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Para P. Soriano, H. Evaristo e Linx, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;desbravadores temerários do grotesco e do inverossímil , os que rasgaram o véu dos sonhos negros e abissais) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu vi o horror, ele é negro e medonho, viscoso e imundo, rasteja ligeiro nas sombras da noite, é uma coisa ímpia e iníqua, uma blasfêmia viva e sórdida, aterrorizante, uma entidade demoníaca não deste mundo, mas das múltiplas cloacas purulentas das profundezas do Inferno, uma vida atemporal banida, exilada na Terra, coexistindo conosco, agora e para todo o sempre, aqui, nesta esfera insana onde nós, tolos mortais, padecemos na miséria do nada de nossa triste condição humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhores, sou um pobre miserável e desgraçado por ter o dom de ver coisas que perambulam na escuridão maldita da noite. Ter essa estranha faculdade, essa clarividência lancinante, me faz sofrer, destarte, desejo morrer o quanto antes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rezo a Deus toda noite para que me mate o quanto antes, me liberte dos grilhões obscenos da clarividência contumaz, deste fardo sinistro e pungente que se tornou minha vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se Deus não atender minhas preces, então que vá para o Inferno! A corda ao redor do meu pescoço aliviar-me-á deste destino maldito, deste suplício, deste anátema insuportável e indizível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo começou com meus estudos inauditos e probidos. Debruçado sobre tomos e brochuras antigas, onde o conhecimento oculto milenar era revelado em páginas profanas, mofadas e ímpias. Todo o conhecimento pagão condensado naqueles livros medonhos, abertos a minha mente excêntrica e inquieta! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou o último de uma família arruinada, amaldiçoada pela miséria e pelo infortúnio. Meu pendor para as Artes me levou para a pintura e a poesia. Fui um fracasso total em ambas. Meus quadros, num estilo bizarro e grotesco, jamais consegui vendê-los; minha poesia nunca foi aceita e publicada, meus versos falavam do medo, do terror que antecede a hora do sono, do outro lado da meia-noite, dos demônios que rastejam na penumbra das madrugadas, nas catacumbas da loucura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No amor também tive decepções. Casei-me tarde, eu tinha 38 anos quando conheci Nalva. Uma musa que durante dois belos anos me fizera conhecer os sóis balsâmicos do carinho, da amizade, da ternura. Juntos passeávamos de mãos dadas pelo bosque atrás do velho sobrado que eu herdara de meu pai, Edgar Howard Bierce, que suicidara-se ainda quando eu era pequeno ao saber que minha mãe o traía. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os raros e poucos anos de felicidade que tive foram ao lado de Nalva. Seu sorriso era algo mágico, encantador. Seus cabelos lembravam a cor do ouro. Seus olhos também sorriam e me transmitiam um amor cândido, puro, sacrossanto. E seus lábios eram os frutos rubros do paraíso dos prazeres eróticos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos troncos dos salgueiros a beira do lago plácido atrás de nossa casa eu escrevera, na primavera do meu amor, com a ponta de um canivete, juras de amor eterno a bela Nalva. Passávamos os dias ali, entregues a um namoro que prometia ser eterno, mesmo no casamento. Foram os dias mais felizes de minha vida. A beleza física de Nalva era tão divina quanto a beleza de seu caráter e de sua alma juvenil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi no fim do Outono de 1975 que Nalva adoeceu. Um mal terrível. Incurável. Todos os tratamentos foram feitos, até que o médico a desenganou. Mandara Nalva morrer em casa, ao meu lado, como ela queria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesta época a aparência de Nalva tinha sofrido uma grotesca metamorfose. Outrora bela e viçosa, agora ela estava magra, lívida, os olhos tristes, seus cabelos, devido à doença e os tratamentos, haviam caído, deixando-a com cabelos muito curtos e ralos. Seu modo de vestir-se também mudara; outrora, ela vestia-se com roupas alegres e coloridas, mas agora ela passara a trajar-se com vestidos negros que contrastavam com sua pele muito branca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo a morte levou para sempre o meu amor; Nalva morreu no crepúsculo de um dia frio, em meados de Junho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revoltado contra todos os deuses que regem o destino dos homens, passei a praticar a magia negra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas noites, no cemitério ou em ravinas sombrias ou em pântanos grotescos, tentei evocar a alma de Nalva, mas do reino dos mortos só surgiam efígies falsas, sombras ou simulacros do espírito de minha amada. Logo percebi ser impossível chamar alguém que, por certo, alcançara o nirvana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda mais rebelde e desgostoso com meu destino, passei a invocar entidades tenebrosas, com o escopo esdrúxulo de zombar dos deuses das Leis Cósmicas que impuseram-me tanto infortúnio, na vida e no amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite, num bosque escuro, invoquei, através do Opúsculo de Zerbetreon, um formulário de teurgia negra, aquele horror blasfemo e atemorizante, uma sombra, uma sombra negra, fria como uma lesma de um pântano do Inferno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, hoje, passado duas horas desta invocação maldita, eis-me aqui, na choupana abandonada, rabiscando neste diário tudo o que fiz e tudo o que acontecera comigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri para cá, porque a sombra rastejante me persegue, a sombra maldita que eu invoquei dos mundos além da tumba! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta!...A porta...vejo pelas frestas...uma sombra...é ela! Ela veio! A sombra sinistra do Além, a entidade tenebrosa das dimensões infernais...ela rasteja, posso ouvir...posso sentir o frio emanado de sua carne astral-etérica de trevas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus me perdoe! Deus me ajude!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh, meu Deus! A sombra! A sombra veio para me matar, pois eu a tirei de seu mundo, nas vastidões escuras do reino assombroso de Hades!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-5819594425277988882?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/5819594425277988882/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=5819594425277988882' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5819594425277988882'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5819594425277988882'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/sombra-rastejante.html' title='A SOMBRA RASTEJANTE'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-4039604771079180126</id><published>2010-11-28T13:15:00.002-08:00</published><updated>2010-11-28T13:16:22.073-08:00</updated><title type='text'>O ATAQUE DO MEGATRON</title><content type='html'>O ATAQUE DO MEGATRON &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: JURANDIR ARAGUAIA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Ataque do Megatron &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre me vejo nesses futuros-passados distantes vivendo outra vida que também é minha. Surto nesses incontáveis universos paralelos que se fundem em momentos específicos do contínuo-espaço-tempo. Encontro-me na idade de dez anos e adoro circular pelas vizinhanças de meu bairro em potentes e impensáveis bicicletas. Não possuem as correntes normais às quais estamos acostumados. Pedalamos com velocidade sobre feixes de raios que oferecem resistência suficiente a trabalhar os músculos e impulsionar o artefato. São feitas por fibras de metal cuja cor varia conforme nosso estado de ânimo e, sendo crianças, todos os matizes se misturam dando a cada veículo conotação especial e particularíssima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu grupo de amigos e eu nos deslocamos para um terreno baldio próximo no qual foram lançadas as bases de pomposa edificação. As construções eram efetuadas em indústrias específicas e os prédios transportados em bloco para o terreno no qual seriam instalados. Nossa civilização desenvolveu poderosa tecnologia, com respeito ao meio-ambiente, e graças a ela vivíamos em grandes e despoluídas cidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A montagem dos edifícios em local isolado oferecia inúmeras vantagens. Criávamos setores específicos nos quais os ruídos e trabalhos não incomodavam ninguém. Os trabalhadores eram transportados para um único ponto, o que reduzia os custos. Toda uma logística era criada e a vida nos bairros podia manter-se em relativa paz. O advento de acoplar um novo bloco atraía muitas atenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos na hora e pudemos ver os fabulosos guindastes deslocando-se com o prédio a grande altura. Graça à tecnologia anti-gravitacional (AG), as pesadas estruturas pareciam feitas de isopor. Eu ficava boquiaberto. A polícia garantia o isolamento e a fluidez do tráfego que, por ser horário comercial, não era muito intenso – as pessoas estavam nos seus locais de trabalho e não tínhamos multidões disponíveis nas ruas, somente nós, em férias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi criado um ponto no qual todos podiam assistir ao acoplamento, em um terreno mais alto e vizinho. Enfileiramos nossas bicicletas e conferíamos a maravilha que se passava acompanhados por alguns que se encontravam em licença do trabalho ou tinham vencido seu ciclo produtivo. Os monstruosos guindastes, orientados pelos sensores em terra, encaixariam a estrutura perfeitamente nas bases já instalada no subsolo. Era um templo religioso novo. As partes mais sensíveis como vitrais, louças, e alguns pisos eram afixadas depois, para não quebrar se o impacto fosse forte ou se algo saísse errado – o que era um excesso, devido ao histórico de obras bem sucedidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus olhos vibravam de emoção. Quatro poderosos robôs prateados, os Magtrons, responsáveis por conferir a instalação e a perfeição do trabalho, encontravam-se na terra e coordenavam com sinais digitais a perfeição da manobra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era um admirador daquela categoria de máquina. Possuíam duas poderosas pernas que possibilitavam deslocar-se com certa facilidade, quase humana. Os braços múltiplos articulados podiam executar serviços de solda, de corte de metal, dobrar o aço e levantar muitas toneladas. Deviam ter cerca de três corpos de altura (um corpo equivale à altura de um homem normal de duzentos centímetros). Alguns foram equipados com dispositivos AG e podiam auxiliar no patrulhamento noturno e combate aos Péricles – um grupo que condenava o excesso de tecnologia e a acomodação de todos a um sistema global de produção e consumo e costumavam agir com violência sabotando o nosso progresso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que o prédio aproximou-se, algo saiu do controle. Um dos Megatrons, de modo inesperado, lançou Pulsos de Energia contrária aos demais desequilibrando-os e abatendo-os ao solo. Tombaram com grande ruído e estardalhaço. Um deles destruiu dois veículos na rua. Um segundo rodopiou e arrebentou-se contra um prédio de vidro próximo, lançando cacos por todo lado. As pessoas, em pânico, dispararam a correr. Assistíamos, com certeza, a mais um atentado dos Péricles. Deviam ter sabotado o Megatron com algum dispositivo viral computadorizado. O terceiro Megatron caiu no terreno em que a estrutura se acoplava e foi esmagado. O ruído foi ensurdecedor e o prédio desalinhou, inclinando-se em nossa direção ameaçando esmagar-nos. Felizmente foi estabilizado pela força dos guindastes. O Megatron acionou seu AG e utilizando do dispositivo cortante rompeu um dos cabos de sustentação. O prédio girou alguns graus no ar e colidiu contra a torre de comunicação de uma edificação ao lado. Meus amigos já haviam se retirado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Extasiado pelo espetáculo, não conseguia mover-me. A torre inclinou e tombou em minha direção. Eu via a pesada estrutura aproximando-se a grande velocidade e já me dava como morto. Inesperadamente o Megatron rebelde saltou em minha direção e colocou seu poderoso corpo entre eu e a estrutura. O impacto estilhaçou a torre. Senti um pedaço de metal cortando minha perna. O Megatron lançou em mim seus olhos vermelhos e cintilantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um tipo de instabilidade surgia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Afaste-se! – gritou com sua voz articulada. Mesmo com a perna sangrando pedalei desesperadamente. Aquele Megatron, ainda que sob efeito do vírus digital, não pôde vencer a primeira diretriz universal dos cibertônicos: “um ciborg não pode fazer mal a um ser humano e nem, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça.” Mesmo os Péricles não queriam que os humanos se ferissem. Suas ações articuladas atraíam ódio e não simpatia. O Megatron entrou em surto biocinético e seus dispositivos desligaram-se. Seguiu-se uma grande ação para restabelecer o controle e resgatar os Megatrons danificados. Depois daquela tarde muitos Péricles se renderam. A notícia de que um menino se ferira na ação desprestigiou de vez o grupo e nossa sociedade pôde caminhar em paz rumo ao infinito progresso técnico-científico-social... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-4039604771079180126?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/4039604771079180126/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=4039604771079180126' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4039604771079180126'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4039604771079180126'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-ataque-do-megatron.html' title='O ATAQUE DO MEGATRON'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-899373535579509162</id><published>2010-11-28T13:15:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T13:15:44.771-08:00</updated><title type='text'>O ENCONTRO</title><content type='html'>O ENCONTRO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: CELLY BORGES &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Encontro &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dedicado ao meu Irmãzinho das Sombras: Paulo Soriano &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que eu poderia fazer além de clamar aos céus para que eu estivesse sonhando? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi um pedido errado, eu deveria ter implorado para me livrar daquele pesadelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ainda assim teria sido tarde demais... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiramente eu estava dormindo, porém de alguma maneira minha alma pressentiu e meus olhos se abriram, deparei-me com aquele ser fantástico ali, sentado na poltrona próxima à lareira, de pernas cruzadas, lendo um livro. Minha mente, tão insana, ainda teve tempo para ler o nome do autor: Paulo Soriano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até eu, que na minha insignificância literária, já ouvira falar daquele escritor, sabia que era um dos maiores autores de terror que o mundo já conhecera. Mas agora eu vivia uma história deste gênero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Adoro este Paulo Soriano, disse a terrível criatura, um demônio, e deixou o volume na poltrona e se dirigiu a mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como era medonho! O rosto, uma massa disforme, apresentava alguns buracos que faziam às vezes de olhos, nariz e boca. A pele – ou o que restara dela – era marrom avermelhada, em algumas partes da cabeça saiam tufos de cabelo claro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas vezes eu implorara àquele ser para que me ajudasse a possuir tudo de que eu precisava, para ser mais que todo o mundo. Nessas ocasiões, ele aparecera de outra forma, era belo, forte e cheio de vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora você me vê como eu realmente sou - disse-me o demônio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pude ver suas mãos, e, pelo jeito, todo o seu corpo era deformado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E sabe por que não sou tão belo? - continuou ele, e sorriu de um jeito estranho, naquele buraco não havia um só dente. - Porque você me via como você queria ser perante os outros, mas isto foi o que você se tornou através de mim, eu guardei o seu verdadeiro ‘eu’. Sua realidade é outra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ainda permanecia deitado, e, como um criancinha medrosa, tentava me proteger com as cobertas até a altura do nariz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a criatura sorria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vim te buscar - disse-me cantando e esticou a mão esquerda. - Vamos!- ordenou com uma voz potente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu só o olhava, sem reação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O demônio sorria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu pisquei. De repente ele voltou a ter aquela aparência perfeita que eu tanto desejava. Estiquei a mão e ele a segurou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durou apenas alguns minutos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, agora, jazia no inferno, com aquela mesma aparência horrível de quando o demônio aparecera naquela noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu pude ver que ele aproveitava tudo o que eu havia conseguido. O demônio tomara o meu lugar na Terra. Vivia a minha tão sonhada vida perfeita, com a aparência perfeita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu definhava no inferno, junto com outros seres insignificantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-899373535579509162?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/899373535579509162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=899373535579509162' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/899373535579509162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/899373535579509162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-encontro.html' title='O ENCONTRO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-3102809274144644169</id><published>2010-11-28T13:14:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:15:00.988-08:00</updated><title type='text'>O SER GOTEJANTE</title><content type='html'>O SER GOTEJANTE &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: PAULO SORIANO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SER GOTEJANTE&lt;br /&gt;Para Lady Vickie, que me  inspirou nesta história divertida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivi a maior parte de minha vida no Jardim da Esperança.  Mas, apesar da  poesia e da  pieguice que tal nome sói evocar, não cuidamos de um sítio tranqüilo e bucólico. Jardim da Esperança é a alcunha  que algum político piedoso – e sobretudo  irônico -  forjou,  há mais de setenta anos, para eufemizar  um lugar de horror e sofrimento.  O Jardim da Esperança é um manicômio público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me deram alta,  fizeram-no contra a minha vontade. É bem verdade que eu, sob o jugo de drogas poderosas, curvara-me docilmente à  candura da lucidez.  Mas eu temia que esta submissão fosse temporária.  Receava que os delírios tenebrosos retornassem. Foi por isso que implorei ao Dr. Khan para ficar.  Mas o médico apenas abanou a cabeça e sorriu.  Ele já  me dissera, várias vezes,  que há muitos anos  eu não decaía aos horrores da loucura.  E era verdade.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os primeiros anos longe do Jardim da Esperança foram felizes.  Parecia-me que  as vozes que se me irrompiam os ouvidos, ordenando atrocidades, haviam-se diluído em  débeis ecos nas paredes da Ala Amarela, onde eram confinados os psicopatas mais arrebatados. E que os seres noturnos, que se esgueiravam e se  prolongavam a partir da superfície das paredes sombrias, teriam finalmente encontrado a imobilidade rígida, eis que  para sempre contidos e sufocados  pela espessura do reboco e pela frieza da cal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem distante  dos muros do Jardim da Esperança, eu vivia, satisfeito, com a minha mulher e um filho solteiro. Retomei o trabalho com grande alegria.  Vivia uma vida tranqüila e produtiva.&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Mas, certa noite, após despertar de um sono atribulado,  tive a infelicidade de ouvir o gotejamento. O som vinha do lado de fora. Pude sentir que a coisa  estava junto à janela, olhando-me  e chocalhando avidamente os maxilares protuberantes. De todos os entes que habitavam o espectro de  minha insanidade, aquele era o mais repugnante e  cruel.  Em meus delírios, aquela entidade medonha, de fuças e presas porcinas,  suava e gotejava uma substância purulenta. E era capaz de cometer os crimes mais atrozes com suas garras vultrinas.  Não foram poucas as mortes – aquelas mais hediondas e cruciantes - , ocorridas no hospício, que eu, em minha sandice, atribuí a ele. Para a minha mente doentia, a sua presença na  Ala Amarela era um aviso de morte certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O susto que tomei, ao ouvir o peculiar gotejamento – um som gosmento,  que eu tão bem conhecia -,   foi como uma descarga elétrica, que me fez entrar, imediatamente, em convulsão. O desfalecimento veio como ato de providência divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, a minha mulher, percebendo o meu espírito perturbado, perguntou, com um olhar preocupado, o que se passava comigo.  Naquela época de tanto contentamento e de tanta  felicidade, eu não mais queria retornar ao hospício. Por isso hesitei, e acabei por nada responder. Mas ela insistiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi o Ser Gotejante?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi – respondi, pondo-me a arrumar as malas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vá.  Tente mais um pouco. Apenas uma semana. Se ele retornar, você volta para o Jardim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devo dizer que o Ser Gotejante somente me afluía à imaginação em estados de profunda atribulação. Um pesadelo foi suficiente para que ele assomasse. Ordinariamente, o Pequeno Duende e o Homem-Treva-que-Saía-da-Parede eram as entidades mais assíduas. A Voz Autoritária, nem tanto assim, malgrado  muito mais  perigosa.  Havia outras entidades secundárias, menos ou quase nada ofensivas. Por isso, pouco me assustavam. Mas o Ser Gotejante... Este... Este me deixava em pânico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Prefiro voltar. É necessário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi somente ele? Os outros retornaram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Não retornaram. Foi somente ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Mauren desarrumou as minhas malas. E me disse que se eu fosse, seria para nunca mais voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois meses após esse incidente, quando eu me preparava para uma viagem a serviço, percebi que algo deixava-se cair, no banheiro, gota a gota. Não era o burburinho alegre da água que se acumula nos canos e desliza em gotas para o chão. Era um som pesado, abundante,  de coisa pútrida. Um som grave e pestilencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ouvi um grito. Era o grito dela. Corri ao banheiro. Mas era tarde demais. O Ser Gotejante mastigava um dos olhos de  Mauren.  O outro era uma gosma,   a escorrer das fuças que  coisa arreganhava. Com suas garras medonhas, produziu uma profunda incisão no ventre de minha querida, enquanto sorria para mim. Quando ele levou aos dentes escarpados um bocado das entranhas  da doce Mauren, intuí que ia desmaiar.  Mas fui colhido no braço do filho que me restara, e  que acorrera em nosso socorro. Pobre Henry! O seu depoimento, articulado  em meu favor, por evidenciar  uma proteção grotesca e inverossímil, selou-lhe uma amarga sorte. Hoje ele está encarcerado, acusado de falso testemunho. E eu retornei, completamente lúcido, à Ala Verde do manicômio. Decerto levarei ao túmulo a fama de louco homicida. Mas não quero estar atado por uma camisa-de-força quando, no corredor,  o som gotejante se tornar cada vez mais audível, manifestando a crescente aproximação da coisa abominável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-3102809274144644169?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/3102809274144644169/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=3102809274144644169' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/3102809274144644169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/3102809274144644169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-ser-gotejante.html' title='O SER GOTEJANTE'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-3935181749139764594</id><published>2010-11-28T13:13:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:14:00.192-08:00</updated><title type='text'>O CHINÊS</title><content type='html'>O CHINÊS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor(a): Jeanine Geraldo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O CHINÊS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jeanine Geraldo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento formava e desmanchava as formas das nuvens no céu azul, produzindo um farfalhar musical nas folhas das árvores. A luz dourada do sol se refletia no pequeno lago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitado na grama, Ling observava calmamente uma abelha que voava de um lado para o outro procurando uma flor de néctar saboroso. O pequeno chinês se entretinha ao seguir a trajetória do inseto ao seu redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flores pendiam abundantemente das árvores perto do lago de superfície espelhada cujas águas eram prateadas como mercúrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A grama começava a espetar incomodamente as costas do menino, cobertas apenas por um quimono branco de algodão com um ideograma bordado graciosamente com linha vermelha na parte de trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ling tirou as costas do chão, curvando-se sobre a barriga, flexionou os joelhos e apoiando as mãozinhas no chão, levantou-se. Sobre os tamanquinhos de madeira, começou a andar em volta do lago. Seus olhar brilhante e perspicaz observando atentamente a superfície espelhada e misteriosa da água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As mãos escondidas nas mangas do quimono contorcendo-se, apertando-se de curiosidade. Queria tocar no lago, desvendar seus segredos. Depois de uma volta inteira, parou na frente do pequeno tanque e fitou-o longamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu estava mais escuro agora, manchado de vermelho, laranja e rósea numa composição típica do crepúsculo. O zumbido da abelha havia sumido. Ling, sobressaltado por uma idéia, andou rapidamente à árvore mais próxima, de flores roxas que pareciam sinos, pendendo dos galhos cujas folhas eram pequenas e largas, e arrancou-lhe um graveto. Voltou novamente para perto do lago, agachou-se na margem e colocou a ponta do pequeno galho na água, perturbando a calmaria metálica desta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, continuou curioso, insatisfeito. Aproximou-se cuidadosamente para não escorregar. O vento soprava com um pouco mais de força e a luz do sol sumia no horizonte no qual só havia uma estreita faixa avermelhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao deixar o galho de lado, espetou o pequeno e delgado dedo indicador direito em cuja ponta logo apareceu uma gota de sangue vivamente vermelho a qual Ling lambeu, ficando com o gosto férreo na boca por algum tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o mesmo dedo, ele remexeu a água do lago, que agora parecia um olho negro, tão negro quanto os cabelos curtos do garoto. Contudo, ao tocar a água, sentiu algo percorrendo seu corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jardim era agora iluminado apenas pela palidez da lua cheia e pelos pontos luminosos, que no céu negro pareciam fagulhas mágicas dispersas na atmosfera noturna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem conseguir tirar o dedo da água, Ling perdeu os sentidos. Sua consciência foi parar em algum lugar do infinito de sua mente. Seus olhos reviraram nas órbitas e suas pupilas tingiram-se de vermelho. Seu rosto pueril tornou-se disforme, raivoso. Sua boca rosada se contorceu num esgar de ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jardim estava envolto em sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como num despertar, Ling retirou o dedo da água de poderes misteriosos e olhou-o. A pele que o envolvia, outrora alva, estava cálida, enegrecida, cheirando a carne em putrefação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As sobrancelhas levantadas, a boca aberta, os olhos arregalados num sinal de susto e medo, Ling fitava o dedo enquanto em sua cabeça um zunido estático lhe perturbava. O pequeno chinês escondeu as mãos nas mangas do quimono branco, dando as costas ao lago, andando sobre seus tamanquinhos de madeira pelo caminho de pedras que atravessava o jardim, conduzindo até a entrada da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-3935181749139764594?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/3935181749139764594/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=3935181749139764594' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/3935181749139764594'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/3935181749139764594'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-chines.html' title='O CHINÊS'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-6110096817209300747</id><published>2010-11-28T13:12:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:13:18.874-08:00</updated><title type='text'>EU TENHO MEDO</title><content type='html'>EU TENHO MEDO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Robert Filipe &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EU TENHO MEDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Robert Filipe &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chovia, chovia aquela noite como há muito tempo não chovia naquela pacata cidade do interior, a tempestade havia chegado há pouco tempo, mas já havia afugentado os pouco aventureiros da noite nas estranhas ruas de Fordenville; podia-se ouvir as descargas elétricas estraçalharem arvores e o que mais encontrassem para descontar sua fúria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sr Bill acendia um de seus charutos fedorentos, para espantar o mau cheiro, mau cheiro que talvez nem existisse senão em sua mente, mas seu trabalho não era dos mais agradáveis, por assim dizer; era coveiro e zelador do cemitério de Fordenville, ele podia sentir o cheiro fétido da morte desde o primeiro dia desses 30 anos que trabalhava ali, mas teve de aprender a conviver com ele, e a fumar charutos fedorentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava amparado na pequena janela de seu aposento de duas peças, dentro do que ele chamava de quarto, apreciando a tempestade que caía sobre Fonderville; se ele não estivesse tão acostumado com aquele lugar, ele diria que hoje estava um tanto tenebroso o cemitério, aquela tempestade deixava um clichê de filme de terror pairando no ar, porém Bill já havia passado várias noites de tempestade ali, e há muito já se acostumara. Porém hoje, algo lhe dizia, que algo estava para acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deitou, e tentou dormir, mesmo sabendo que não iria conseguir; há muito tempo, algo perturbava o seu sono, algo que o fazia ter pesadelos, pesadelos que o faziam passar noites em claro, de medo, puro medo, de ver aquilo que ele via nos seus sonhos. Porém, aquela noite, ele estava muito cansado, algo pesava em sua alma e o levava a fechar suas pálpebras como se por ordem de alguma força sobrenatural; ele continuava observando a tempestade lá fora, porém já não sabia se estava acordado ou dormindo, ficava imaginando os epitáfios do cemitério lá fora, sendo iluminados a cada raio, e da capela, aquela que ele não ousava chegar perto, ele ouvia o chamado, ouvia a batida, como se fosse de um coração, o chamando, chamando sua alma; ele tinha de lutar contra seu corpo para resistir a tentação de não se aproximar, mas era inevitável. Ele podia ouvir vozes sussurrando em seu ouvido, “venha, venha,venha para a cova”...ele sentia o cheiro da morte, mais forte do que nunca; ele não podia resistir ao chamado, e a cada vez mais se aproximava da capela, a portão da capela batia com o vento e os trovões iluminavam a entrada, que ficava em contraste com a escuridão que havia lá dentro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...O portão batia, soando aquele estranho barulho de ferro enferrujado e que junto com as vozes sussurrantes pareciam deixá-lo hipnotizado; ele entra na capela, há uma escada em forma de caracol, não se enxerga o que o espera lá embaixo, mas a escuridão começa a tomar conta, às vezes os raios iluminam seu caminho, mas cada vez menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As vozes ficam mais fortes, não são mais sussurros, agora falam quase a um tom de voz normal, “venha, venha, venha para a cova”. Ele veio, finalmente foi vencido, pela força sobrenatural que o estava enlouquecendo nestes últimos meses; uma trovoada forte lá fora ilumina, e ele enxerga algo que parece se mover lá dentro. “Alguém está aí?” Pergunta o velho zelador-coveiro, sua mão treme, mas ele continua firme, “quem está aí? O cemitério só abre de manhã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continua andando vagarosamente e tentando enxergar algum ponto naquela escuridão, porém não encontra nada, segue em frente e o cheiro de morte aumenta cada vez mais, ele pode sentir até uma respiração agora, uma melancólica e triste respiração, seu coração dispara, mas ele continua em silêncio, vai seguindo em frente até que sua mão encontra algo em que possa segurar. Tudo acontece muito rápido, assim que Bill encosta no braço gelado um rosto desfigurado que parece ser de uma criança grita com uma voz estridente que faz com que ele fique surdo por alguns segundos, ele também grita, e acorda, do sonho terrível, acorda suado e com o coração quase saltando para fora, porém a tempestade continua e seu ouvido ainda está dormente, como se realmente tivesse ouvido aquele grito da menina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fica sentado na cama tentando se acalmar, foi tudo um sonho, foi tudo um sonho, porém ele ainda pode ouvir, ele pode ouvir, o ranger do portão da capela, e ele pode ouvir, o chamado, “venha, venha, venha para a cova”...porém agora ele tem certeza, que está acordado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-6110096817209300747?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/6110096817209300747/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=6110096817209300747' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/6110096817209300747'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/6110096817209300747'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/eu-tenho-medo.html' title='EU TENHO MEDO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-1047454960632180391</id><published>2010-11-28T13:11:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:12:22.149-08:00</updated><title type='text'>TEMPESTADE DE FEITICEIRA</title><content type='html'>TEMPESTADE DE FEITICEIRA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: ANDREIA SANTOS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempestade de Feiticeira &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia ver o caminho. Por mais que tentasse não conseguia distinguir nada à sua volta! Maldita hora em que decidiu deixar a lanterna em casa.. alias, maldita hora em que tinha concordado com aquela ideia estapafúrdia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo tinha começado ao jantar. Depois de uns copos a mais o Dinis tinha-se lembrado de jogarem ao jogo “verdade e consequência”, que tinha levado a partidas hilariantes, ate que alguém se tinha lembrado de lhe perguntar se ainda gostava da Laura. Recusava-se a falar sobre isso, tentava nem se lembrar que ela existia... o que era difícil quando chegava a casa todas as noites e cheirava o perfume dela na almofada. Escolheu a consequência e o Tiago lembrou-se de o mandar ao cemitério que ficava ao lado da casa do Dinis, tinha de trazer uma flor de uma campa. Ao tropeçar pela milionésima vez pensou que talvez deve-se ter escolhido a verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando conseguiu sair do denso arvoredo que separava a casa do pequeno cemitério a luz da lua deixou-lhe ver finalmente o caminho. Pareceu-lhe anormalmente brilhante, como se alguém tivesse perdido largas horas do seu tempo a limpar cuidadosamente cada pedra de mármore do largo carreiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já não precisava de olhar atentamente para onde punha os pés, caminhava mais desconfiadamente. Vieram-lhe à memória as histórias que a avó lhe contava quando era criança, foi como se ouvisse a voz sussurrante da avó a dizer-lhe ao ouvido: numa noite de lua cheia, se roubares uma flor de um defunto a guardiã das portas do inferno virá. Ri-se baixinho, esperava que a tal guardiã fosse jeitosa pelo menos! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a ver os contornos escuros das grandes pedras tumulares, e mais uma vez parecia que alguém as tinha esfregado até brilharem na escuridão com um tom fantasmagórico. Não pela primeira vez perguntou-se quem se daria ao trabalho. Tanto quanto sabia aquele era um cemitério que já não era utilizado há muito tempo; ali só estavam os pobres homens do mar que tinham parecido nas ondas ate 1870, depois disso todas as famílias tinham de ir para o cemitério municipal. Ao lembrar-se disso reparou noutra coisa: todas as campas tinham flores, flores frescas por sinal. Era de esperar que devido à falta de uso não existissem quaisquer oferendas aos defuntos, aliás devia ser por isso mesmo que o Tiago lhe tinha proposto a mórbida tarefa. Mas era possível ver em cada uma das campas ramos de flores silvestres frescas, cujas pétalas e folhas se agitavam levemente ao sabor da brisa nocturna como se o saudassem ou como se o instigassem a dar meia volta e voltar para trás. Esperava que fosse a primeira opção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de algum tempo a serpentear por entre as antigas pedras tumulares quebradas pelo tempo, deparou-se com uma que lhe chamou à atenção: não podia dizer que era uma pedra tumular, era antes uma estátua, em tamanho real de uma mulher de tal forma detalhada que por momentos julgou a veria suspirar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava de pé, usava um longo vestido, onde o artista teve o cuidado de talhar todas as pregas e rugas que um vestido feminino tinha na realidade, o que conferia a ilusão de o vestido estar a ser agitado pela brisa de meia-noite como as flores que repousavam a seus pés; os longos cabelos caiam-lhe pelas costas e o rosto estava voltado para as estrelas, os olhos fitavam o infinito e os lábios retraíam-se ao formar um pequeno sorriso de cumplicidade, como se a dama estivesse a partilhar um segredo com as estrelas do céu; as mãos estavam afastadas no corpo viradas para cima como se estivesse eternamente à espera do abraço de um amante que nunca chegou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda coisa que lhe chamou a atenção foram as flores aos pés da estátua: não eram flores de campo como as restantes, eram orquídeas. Um enorme ramo de orquídeas negras raiadas de vermelho escuro. Nunca tinha visto flores daquelas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que raio! Quem havia de gastar um dinheirão com orquídeas negras para pôr numa campa que pelo que podia ver era de 1658? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já tinha ouvido falar de apego pelos defuntos mas isto parecia-lhe um cadinho demais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, ao menos já tinha uma flor para levar, uma florzita do campo podiam dizer que tinha apanhado pelo caminho, agora uma orquídea devia comprovar que tinha conseguido cumprir a tarefa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baixou-se e tirou um grande cale em cuja extremidade pendia uma enorme flor, que por momentos pareceu reflectir aquele brilho fantasmagórico da luz da lua. Quando puxou a flor a fita carmim que compunha o ramo desatou-se e as restantes flores caíram espalhadas aos pés da estatua. Ao levantar-se teve a sensação que o vestido da dama tinha dançado com o vento. Uma tontura, a pedra não mexe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao fitar de novo a dama pediu-lhe desculpas e já estava a rodar sobre si mesmo para voltar pelo mesmo caminho quando estranhou qualquer coisa, os braços da estatua já não estavam afastados no corpo mas sim caídos junto ao corpo. O pensamento fê-lo sorrir, devia estar a fazer confusão com outra escultura parecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estava a voltar para trás quando um barulho o fez parar, parecia o som de uma porta velha a fechar. Olhou para trás, mas não conseguiu entender de onde tinha vindo o som. Encolheu os ombros com uma sensação de que algo estava mal mas resolvido a voltar para casa. O som fez-se ouvir, desta vez mais alto ou então mais perto. Voltou-se de repente na esperança de surpreender o que quer que estivesse a fazer o tal barulho mas quem ia caindo para trás com a surpresa foi ele: desta vez não tinha desculpas, tanto que viu a estatua a mexer que ela já não estava lá. Durante segundos intermináveis (ou assim pareceu) não conseguiu pensar em nada, não se conseguiu mexer, logo a sua mente começou a trabalhar a 100km/h para arranjar uma justificação para o que tinha acabado de ver. Era uma partida! Sim! Era isso! Aqueles estúpidos tinham pago a uma daquelas saltimbancos que ficam na baixa a fingir que são estatuas em troca de dinheiro. Era isso mesmo!! Como é não viu logo?? O realismo da roupa, da expressão de felicidade maquiavélica! Claro que lhe parecia que ela ia suspirar a qualquer momento! Tornou a encaminhar-se para a saída, de maxilares cerrados, treinando tudo o que ia dizer aqueles parvos que diziam ser seus amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia tão embrenhado na sua raiva que só reparou que não estava lá nenhum portão quando alcançou o sitio onde este devia estar. Olhou em redor pensando que se tinha enganado mas a lua parecia que se tinha escondido e a única coisa que ele conseguia ver eram os contornos e as sombras das pedras tumulares e dos altos ciprestes que rompiam a terra de tempo a tempo. Olhou para baixo e viu que o carreiro continua ali, a brilhar àluz de uma lua que agora, tapada pelas nuvens escuras não existia. Pela segunda vez naquela noite a voz da avo sou-lhe aos ouvidos: o primeiro sinal de que ela chegou é a tempestade de feiticeira... Tornou a levantar os olhos para as nuvens de uma tonalidade preta-azulada que tapavam a lua. Tempestade de Feiticeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo o som, desta vez de algo a arranhar uma porta, e desta vez não teve qualquer duvida, o som estava mais perto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou freneticamente para todos os lados sem conseguir distinguir nada na escuridão. Começou a andar mais depressa para o centro do pequeno cemitério, onde o terreno sofria uma pequena elevação, com o propósito de conseguir ver do cimo o maldito portão enferrujado da saída. Começou a ouvir passos mas quando olhava para trás o caminho de mármore estava deserto. Recomeçou a andar tão depressa que por fim já estava a correr em direcção à estranha campa das orquídeas negras. Quando lá chegou notou que transpirava e que a sua respiração estava descontrolada. Controla-te homem! Disse de si para si. Controla-te, não te deixes levar pela imaginação, é isso que aqueles paspalhos querem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar à pequena elevação as flores continuavam espalhadas pela base de pedra mas da maldita saltimbancos nem sinal. Olhou em volta, demasiado ansioso para alguém que dizia estar perfeitamente calmo. Até onde a sua visão conseguia alcançar só via o muro à volta do cemitério, não conseguia ver qualquer abertura. O coração começou a bater mais rapidamente, respirou fundo. Concentrou-se no caminho de pedras brancas; parecia serpentear por entre os túmulos degradados até que finalmente viu um troço que se afastava das campas. Era por ali que tinha se seguir. Encaminhou-se naquele sentido, muito mais calmo agora, quando a voz da infância à muito esquecida lhe voltou a sussurrar: quando a tempestade desaparecer é hora de morrer... As nuvens destaparam a enorme lua prateada e ele viu- a...se mais tarde lhe perguntassem ele não saberia dizer se a viu ou se a ouviu primeiro... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinha na sua direcção a subir o carreiro de pedras brancas que agora parecia brilhar mais no meio da escuridão que bruxuleava à volta dela. Era branca como o mármore mais puro, o vestido longo era da cor da meia-noite e deixava-lhe os ombros marmóreos de fora. O cabelo liso e da cor da asa de um corvo caia-lhe pelas costas até alcançar a cintura. Os lábios carnudos de um vermelho profundo. Trazia uma orquídea negra na mão, e cantava. Cantava uma melodia de tempos imemoriais, o som da criação do mundo, um som que o deixou com os cabelos da nuca arrepiados de terror. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia continuar a pensar que era uma mulher, uma partida dos amigos até a fitar nos olhos. Não eram negros, simplesmente não tinham cor, eram o nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incapaz de se mexer viu-a avançar na sua direcção até parar a escassos metros. Parou de cantar, e olhou-o nos olhos. O mesmo sorriso cúmplice apareceu-lhe nos lábios pouco a pouco à medida que o fitava, os olhos vazios pareciam brilhar de antecipação e por momentos ele era capaz de jurar que viu relâmpagos vermelhos no meio das trevas daquele olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando falou foi como se o vento do norte tivesse chegado mais cedo, gelando-o ate aos ossos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que queres mortal? Porque me chamas e depois foges?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não chamei ninguém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que chamaste! Chamaste quando rompeste o ramo de flores na minha campa....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ultimas palavras confundiram-se com a brisa nocturna da noite&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu devolvo a flor! Não a quero! Era só uma brincadeira estúpida- disse ele recuando, fazendo intenções de se afastar dela o mais possível. A feiticeira moveu-se tão depressa que ele não a viu. De repente não se conseguia mover de novo e ela estava ali, parada tão perto que conseguia ver os seus cabelos a agitarem-se com a sua respiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A eternidade é tão solitária - as palavras foram-lhe sussurradas ao ouvido, sentiu a pele arrepiar-se devido ao hálito gelado como a morte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há tanto tempo que esperava por alguém..... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentiu-a a afastar-se de si e por breves instantes pensou que estava a salvo, mas então ela surgiu à sua frente. A ultima coisa que viu foram as profundas trevas de um olhar que se tornou cada vez mais vermelho..... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algures no meio do denso arvoredo, na escuridão que a luz da grande lua não conseguia penetrar, cinco homens gritavam por um sexto de nome Miguel. Gritavam há horas mas a única resposta era o som do vento a passar por entre trocos retorcidos e o resfolgar das folhas.... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não muito longe dali as pétalas de um perfeito ramo de orquídeas preso por uma larga fita vermelha agitavam-se á brisa nocturna, aos pés de uma singular estatua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O artista conseguira captar ate ao mínimo detalhe o abraço de um casal apaixonado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-1047454960632180391?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/1047454960632180391/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=1047454960632180391' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1047454960632180391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1047454960632180391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/tempestade-de-feiticeira.html' title='TEMPESTADE DE FEITICEIRA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-1895551361019230501</id><published>2010-11-28T13:10:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:11:34.037-08:00</updated><title type='text'>A ESCOLHA DE AQUILES</title><content type='html'>A ESCOLHA DE AQUILES &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: MAUREN GUEDES MÜLLER &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ESCOLHA DE AQUILES&lt;br /&gt;Daniel era um jovem policial militar, esforçado, diligente, conhecido por sua coragem e dedicação. Também possuía um caráter excepcional, e era do tipo que não só recusa um suborno como dá voz de prisão ao corruptor. Os criminosos daquela cidade de porte médio já o viam como um inimigo bastante importuno.&lt;br /&gt;Naquela tarde, Daniel acabara de cumprir seu turno e voltava para casa modesta, para junto de sua esposa grávida e do filhinho de um ano. Quando estava chegando, ouviu uma tosse e olhou para a calçada em frente à sua casa. Havia um homem sentado junto ao muro. Era um mendigo. Cobria a calva com um gorro e tinha uma longa barba, suja e desgrenhada. Vestia-se com trapos e cheirava mal.&lt;br /&gt;– Dá um dinheiro aí – pediu ele.&lt;br /&gt;Daniel teve pena do homem. Sabia que, se lhe desse algum dinheiro, provavelmente ele seria transformado em cachaça ou coisa pior, mas a fisionomia magra e sofrida do sujeito o comoveu. Enfiou a mão no bolso e tirou uma nota de dez reais. Era uma esmola grande demais para que pudesse dá-la, mas, como não tinha menos, entregou-a ao mendigo.&lt;br /&gt;– Mas é para comprar comida, está bem?&lt;br /&gt;Para seu espanto, o homem levantou-se e o encarou. Cravou-lhe os olhos negros e penetrantes. Avançou para Daniel e colocou a mão em seu ombro.&lt;br /&gt;– Você vai ter de fazer a escolha de Aquiles – disse-lhe, com voz grave.&lt;br /&gt;Daniel franziu a testa.&lt;br /&gt;– O quê? perguntou.&lt;br /&gt;– Preste atenção. Você vai ter de fazer a escolha de Aquiles. Uma vida longa e tranqüila ou uma vida breve, mas intensa. Tudo depende de você.&lt;br /&gt;O mendigo deu-lhe as costas e se foi, deixando-o perplexo. Daniel ainda ficou alguns instantes parado, olhando-o, até que resolveu entrar em seu prédio. Só então se deu conta de que a nota de dez reais permanecia em sua mão.&lt;br /&gt;Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Quem era aquele homem? O que cargas d’água havia acabado de lhe acontecer?...&lt;br /&gt;Não disse nada à esposa, embora ela tivesse perguntado o porquê de sua expressão inquietante. No dia seguinte, perguntou a um sargento, seu amigo, conhecido por sua cultura e por sua avidez em devorar livros e mais livros, quem era Aquiles. O sargento lhe explicou que Aquiles era um personagem da mitologia grega que havia lutado na famosa Guerra de Tróia, e começou a lhe contar tudo o que sabia a respeito. Daniel sentia-se cada vez mais impressionado. Como raios um mendigo de rua podia saber sobre um personagem mitológico? No momento em que o sargento lhe relatou que um oráculo dissera a Aquiles que ele deveria fazer uma escolha entre morrer na guerra de Tróia, coberto de fama, ou ter uma vida longa e tranqüila, mas sem honrarias, se não lutasse aquela guerra, Daniel sentiu seu coração disparar. A escolha de Aquiles. Caramba, mas o que aquele infeliz daquele mendigo estivera tentando lhe dizer, e por quê?...&lt;br /&gt; Alguns dias se passaram, e Daniel acabou por se esquecer da história do mendigo. Porém, numa certa noite, estava cumprindo seu turno quando recebeu uma chamada anônima. Ele pegou a viatura, sozinho, e se deslocou até o lugar de onde viera a denúncia. Tratava-se de uma casa de tolerância pertencente ao homem mais rico da cidade, o que todo mundo sabia, embora a polícia fingisse não saber. Quando Daniel quis entrar no local, os seguranças tentaram barrá-lo. Mas o jovem se impôs e entrou, corajosamente.&lt;br /&gt;Chegou num dos quartos, que estava com a porta aberta, e espantou-se com a cena que viu. Caído ao chão, enrolado em lençóis banhados de sangue, jazia o corpo de uma moça. Num canto, uma das outras meretrizes chorava. Sentado numa cadeira, com os olhos esbugalhados, havia um homem. Daniel sentiu o sangue gelar ao reconhecê-lo.&lt;br /&gt;– Comandante!... murmurou, num fio de voz.&lt;br /&gt;O comandante se levantou. Súbito, ao reconhecer o subordinado, parecia ter readquirido o auto-controle. De repente, voltou-se para a outra meretriz e esbofeteou-a com selvageria. Então, encarou o jovem soldado.&lt;br /&gt;– Você não viu nada disso aqui – disse, com voz firme.&lt;br /&gt;Daniel estava profundamente pálido e mal conseguia respirar.&lt;br /&gt;– Senhor... – gemeu.&lt;br /&gt;– Dê o fora daqui, soldado, senão vou mandar prendê-lo por desobediência!...&lt;br /&gt;Daniel ainda hesitou alguns instantes, e então saiu, em silêncio. Parecia-lhe que sua mente estava distante, que aquilo tudo não passava de um pesadelo...&lt;br /&gt;No dia seguinte, o corpo da jovem foi encontrado no outro lado da cidade. A moça era nada menos do que a filha do prefeito, que aparentemente fora estuprada e assassinada. Logo, a polícia prendeu alguém como sendo o suposto autor do crime. O prefeito era muito popular, e havia grande possibilidade de que acontecesse o linchamento do suspeito... Durante todo o dia, Daniel sentiu a angústia crescer dentro de si.&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, quando se olhou no espelho, Daniel pensou no infeliz preso injustamente. Mas pensou em sua juventude, em sua esposa, no filho que tinha e no filho que estava por nascer. Pensou no poder econômico do dono do bordel. Pensou na fúria de seu comandante, que já havia matado pelo menos duas pessoas, que se soubesse. Pensou que, naquela cidade não tão grande assim, poderia trabalhar tranqüilamente até se aposentar, viver até ver seus netos. Pensou que seria a sua palavra contra a do comandante e contra a do rico dono do lupanar. Pensou que o prefeito provavelmente iria persegui-lo se revelasse a história da vida dupla de sua filha morta. Pensou na escolha de Aquiles...&lt;br /&gt;Durante os dias que se sucederam, trabalhou como se nada houvesse acontecido. Seus colegas suspeitaram de umas saídas que ele deu durante o expediente, mas o jovem parecia tão tranqüilo e alegre que imaginaram que não fosse nada de importante.&lt;br /&gt;Algumas noites depois, o comandante voltou discretamente à casa de prostituição. Encantou-se com uma mulher e levou-a para o melhor quarto do lugar. Quando entrou, porém, teve um sobressalto. Daniel estava sentado na cama redonda, vestido à paisana, segurando na mão um copo de uísque.&lt;br /&gt;– O que é isso? perguntou. – Como deixaram você entrar aqui?&lt;br /&gt;– Ora, o lugar é público, não é, comandante? Eu paguei e entrei.&lt;br /&gt;– Mas e nesse quarto?&lt;br /&gt;Daniel sorriu.&lt;br /&gt;– Tenho um acordo com o dono do lugar – disse. – Pensei que ele havia lhe contado. Eu continuo fingindo que não sei o que aconteceu aqui há algumas noites, e recebo um tratamento VIP sempre que estiver a fim de me divertir um pouco. – Levantou-se e olhou para o chefe. – Aliás, quero lhe fazer uma proposta, comandante. Nós dois e mais algumas garotas poderíamos fazer uma festinha nesta noite.&lt;br /&gt;– Você está louco? perguntou o homem. – Eu, misturar-me com um reles soldado?&lt;br /&gt;– Ora, comandante, relaxe e goze!&lt;br /&gt;O comandante cerrou os maxilares, com raiva.&lt;br /&gt;– Você está pedindo para morrer, rapaz. Não sabe com quem está se metendo.&lt;br /&gt;– Eu sei muito bem com quem estou me metendo, comandante. Não se esqueça de que eu vi o que aconteceu neste bordel há alguns dias. Aliás, por que o senhor fez aquilo?&lt;br /&gt;– Não é de sua conta.&lt;br /&gt;– Ah, mas eu estou curioso, comandante. O senhor tinha nos braços uma linda jovem, fina, requintada, culta, e poderia ter feito tanta coisa interessante com ela... Por que resolveu matá-la?&lt;br /&gt;– Porque ela me desobedeceu, e eu não tolero ser desobedecido! Aliás, se você não sair deste quarto agora mesmo, vai ter o mesmo fim que ela!&lt;br /&gt;– Como assim desobedeceu, comandante? Deixe-me adivinhar. O senhor quis transar com duas mulheres ao mesmo tempo, e ela não topou. Daí, o senhor, que já estava bêbado e provavelmente drogado, acabou por matá-la. Não foi?&lt;br /&gt;Súbito, o comandante puxou o revólver e apontou-o para o rosto de Daniel.&lt;br /&gt;– Dê o fora daqui agora mesmo, soldado!&lt;br /&gt;Daniel respirou fundo.&lt;br /&gt;– Pois para mim chega, comandante. Já o tenho visto cometer os maiores desmandos nesta cidade. Já o vi prender pessoas inocentes e aceitar todo tipo de suborno. Já o vi assassinar a filha do prefeito só porque ela era prostituta, mas não a ponto de se submeter a todos os seus caprichos. E agora, o senhor está me ameaçando. É porque eu estou sabendo demais?&lt;br /&gt;O comandante o encarou com ódio e puxou o cão do revólver.&lt;br /&gt;– Sim, garoto. Mas tudo o que você sabe vai morrer com você.&lt;br /&gt;– Ah, mas não vai mesmo – interrompeu uma voz masculina.&lt;br /&gt;O comandante voltou-se. Havia meia dúzia de policiais militares saindo de dentro do banheiro e apontando-lhe suas armas. O corregedor-geral da polícia entrou pela porta do quarto. Atrás dele, o dono do bordel, já algemado, vinha arrastado por mais alguns guardas.&lt;br /&gt;Desesperado, o comandante atirou.&lt;br /&gt;Daniel desviou-se da primeira bala. A segunda o atingiu num braço, de raspão. Imaginava que não conseguiria evitar que a terceira o atingisse mortalmente, mas nesse instante ouviu vários tiros e o comandante tombou, morto. Daniel se levantou devagar, absolutamente surpreso por ainda estar vivo. Fizera a escolha de Aquiles. Não deveria ter morrido em combate?...&lt;br /&gt;O corregedor aproximou-se dele.&lt;br /&gt;– Você será promovido, meu jovem – disse ele. – Mas eu gostaria de levá-lo para trabalhar na capital. Aqui, nesta cidadezinha, você não tem futuro.&lt;br /&gt;Daniel levou uma das mãos à cabeça. Subitamente, compreendera.&lt;br /&gt;– Não, senhor corregedor – respondeu. – A capital está além da minha capacidade. Se eu me meter por lá, não vou durar muito. Acho que prefiro ficar por aqui mesmo, cuidando de minha família. Tenho um filhinho de um ano e minha mulher está grávida. A guerra da capital não é para mim, senhor...&lt;br /&gt;– Está bem, você é quem sabe. É uma pena desperdiçá-lo neste fim de mundo, mas eu também tenho família, e compreendo as suas razões.&lt;br /&gt;Daniel fechou os olhos e agradeceu mentalmente a Deus, por ter escapado com vida e pelo conselho do mendigo, profeta, anjo ou fosse lá o que fosse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JUNHO DE 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota: esta é uma obra de ficção, que não retrata necessariamente minhas crenças, idéias e opiniões. Qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência.&lt;br /&gt;Mauren Guedes Müller&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-1895551361019230501?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/1895551361019230501/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=1895551361019230501' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1895551361019230501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1895551361019230501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/escolha-de-aquiles.html' title='A ESCOLHA DE AQUILES'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-1508520880645263316</id><published>2010-11-28T13:09:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:10:16.095-08:00</updated><title type='text'>TOQUE MÁGICO</title><content type='html'>TOQUE MÁGICO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: JURANDIR ARAGUAIA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toque Mágico &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jurandir Araguaia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas malas estavam prontas. O dono do Circo não queria que partíssemos, apesar de se encontrar irritado conosco. Estava difícil arranjar um mágico. Meu pai errara muito nas últimas apresentações. Era a última chance. Dessa feita faria números de telecinésia. Os truques eram sempre executados às escuras, com flashes e luzes intermitentes, dificultando a visão dos fios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não me queria como assistente naquela noite. Fiquei ao lado da platéia, assistindo ao espetáculo como um garoto qualquer. Começou bem, retirando o coelho da cartola. As arquibancadas estavam lotadas, mas a magia não era mais a mesma desde o Mister M; todos se divertiam a tentar adivinhar os truques.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Essa é velha! – alguém logo gritou. Risos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai transpirava. Sempre ficava assim quando estava nervoso. A filha do dono, uma loira falsificada, auxiliava-o nas apresentações. O proprietário estava a um canto, com seu paletó de lantejoulas e esfregando as mãos. Podia adivinhar o que dizia: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se ele fracassar de novo é rua. Prefiro ficar sem mágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou a girar pratos sobre gravetos. De um só golpe derrubaria todos os gravetos e os pratos continuariam girando no ar. Nervoso, acertou os gravetos. Foi um desastre. As pessoas perceberam os fios e um dos pratos deslocou-se no ar, como um disco voador, revelando a grosseria da manobra. O público caiu na risada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Esse cara é muito ruim! – ouvi alguém dizer a poucos metros. Recostado no túnel de saída, testemunhava sua humilhação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentaria agora um número fantástico. Moveria um bastão com a força da mente. O público, impaciente, apupava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chega desse sem graça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Som de tambores. O bastão elevou-se da mesa. Logo faria com que esse pegasse fogo e rodasse em velocidade. Deu tudo errado. Novamente as pessoas viram as linhas saindo de suas mãos. A assistente foi acender o fogo, mas tropeçou inexplicavelmente no ar com a tocha na mão. A mesa incendiou-se. Muita gente entrou no picadeiro para eliminar as chamas. O dono mandou tocarem uma marchinha engraçada para salvar o número. E anunciou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E foi mais um número cômico do nosso Mágico Palhaço, o Grande Vandini!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os aplausos foram poucos. Vaias e um ar de tédio vieram da platéia. Saí em direção ao carro. Quando estava fora, meu pai aproximou-se constrangido. O dono do circo, com um enorme bigode falso, cartola vermelha, chicote e botas lustradas. Esbravejava:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mágico de araque. Foi o último prejuízo. Estou rasgando o seu contrato. E rasgou mesmo. Vá embora. Não precisa me pagar nenhuma multa rescisória e eu garanto: vou acabar com sua raça! Não permitirei que trabalhe em nenhum outro circo. Jamais! Suma, suma!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como estava tudo pronto, partimos. Eu gostava do circo, mas nosso tempo findava. Fui no banco de trás do carro. Brincava com uma caneta. Ele parecia calmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ficamos livres, não filho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pai, dizia eu. Eu não entendo por que o senhor faz isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Temos que nos mudar quando ameaçam nos descobrir. Já te falei sobre isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi culpa minha? – ele se virou e deu um largo sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por enquanto não, você não tem controle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me da manhã anterior. Tirei um cochilo no picadeiro enquanto ele ensaiava seu número. Quando abri os olhos encontrava-me levitando a mais de três metros de altura. Caí de repente e ia me estatelando ao chão. Meu pai apontou a mão direita espalmada e fez com que meu corpo planasse e pousasse lentamente no solo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha do dono, cuja presença não havíamos notado, viu tudo. Meu pai lhe disse que ensaiávamos um novo número. Nosso segredo ameaçava ser revelado. Eu fazia com que a tampa da caneta flutuasse no ar, usando minha força mental, e deixava-a cair encaixando-a sobre a ponta. Ele se virou e me cravou os olhos que se tornaram amarelados, como se fossem dois pequenos faróis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabe o que os humanos fariam se soubessem que estamos entre eles?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balancei a cabeça afirmativamente. Fazia parte de nossa missão passar um tempo conhecendo os hábitos e culturas dos planetas que invadiríamos, mas era cedo para os terrestres descobrirem, muito cedo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-1508520880645263316?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/1508520880645263316/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=1508520880645263316' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1508520880645263316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1508520880645263316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/toque-magico.html' title='TOQUE MÁGICO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-8410616038282661147</id><published>2010-11-28T13:08:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:09:23.710-08:00</updated><title type='text'>AQUELES QUE VIERAM COM AS NÉVOAS</title><content type='html'>AQUELES QUE VIERAM COM AS NÉVOAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: ROGÉRIO SILVÉRIO DE FARIAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AQUELES QUE VIERAM COM AS NÉVOAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por Rogério Silvério de Farias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prelúdio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi naquela estranha e quase desconhecida cidadezinha que tudo aconteceu, se é que realmente aconteceu, pois tudo, às vezes, ainda parece um tanto estranho e nebuloso como um sonho infernal ou um misto de alucinação e delírio a quem, sem perder a sanidade mental, ouviu tudo dos lábios do próprio protagonista da história, um certo jovem do tipo esquisitão, chamado Pandolfo Bombarda. Por isso é que sei de tudo o que aconteceu. Eu o encontrei, certa vez, perambulando nas fantásticas ruínas de Machu Picchu, no Peru, e dele ouvi tudo. Ele estava lá, o tal Pandolfo Bombarda, sozinho, “em pesquisa esotérica’’, segundo me segredou. Falei-lhe então que era escritor e estava ansioso para elaborar uma obra diferente, algo original e que despertasse interesse das editoras, dos leitores e da crítica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Simpatizando comigo, ele logo se pôs a contar-me tudo, num relato fantástico e assombroso, e, no final, como que por encanto, num momento de distração minha, simplesmente sumiu de minha vista, e nunca mais o vi, desde então. Cheguei a pensar que tinha conversado com um espectro ou algo parecido, mas duvido disso, pois ele estava vivo, muito vivo diante de meus olhos. Se foi uma alucinação ou sonho, devo estar enlouquecendo, e tenho, com certeza, de criar um pingo de juízo nesta minha cabeça sonhadora e parar de contar essas minhas histórias estranhas e apavorantes e arranjar um emprego normal. Sabem, minha família não me agüenta mais, na verdade; digo para ela que um escritor precisa viajar, conhecer pessoas, de preferência bem estranhas, antes de escrever um livro de sucesso , alcançar a fama e ganhar muito dinheiro. Minha família continua achando que sou apenas um inútil que gosta de escrevinhar coisas fantásticas, um mentiroso exagerado que escreve razoavelmente bem. Não ligo para minha família; um dia ela me compreenderá, um belo dia, quando eu fizer sucesso como autor, ela simplesmente cairá aos meus pés, rendendo suas homenagens e salamaleques... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se, sem dúvida, de uma história inacreditável, fantástica e horripilante, a que vou contar, e se aconteceu de fato, não ficou registrado nos anais do país e nem nas páginas dos periódicos, talvez por ser inverossímil demais, insano demais, herético demais. É provável que o misterioso Pandolfo Bombarda a tenha contado somente a mim, portanto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela cidadezinha provavelmente tinha sido até então um povoado pacato e ordeiro. Mas de repente tudo mudara, e a cidade transformara-se num pandemônio diabólico de horror e morte brutal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidadezinha em questão chamava-se Brumália, e situava-se num profundo e verdejante vale, oculto entre morros, e era cortada por um rio de águas escuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que este lugar de natureza edênica se transformasse num inferno de violência e matança tão subitamente, era coisa para poucos compreenderem. Há mistérios no universo que, por mais curiosidade que despertem em nós, tolos mortais, causa-nos um assombro nascido da consciência da ignorância humana; talvez precisem ser deixados mofando nas covas do esquecimento, para que não tragam ao mundo, já tão combalido pelos horrores criados pelo próprio ser humano, a luz terrível da verdade espiritual, uma verdade que, sob certos aspectos, talvez seja algo muito pior que a nossa atual estupidez no que concerne às coisas do espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem diga que Brumália nunca existiu. Há quem diga que seja uma cidade onírica, de sonho...ou pesadelo, ou reino negro criado pela alucinação de um escritor delirante como eu. Há quem diga que seja uma cidade tão estranha e antiga, que talvez só possa ser encontrada nos mapas da geografia da loucura profunda e irreversível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brumália talvez fosse tão pequena, tão pequena que não passasse de um minúsculo ponto perdido nos mapas. Um pontinho que bem podia ser confundido com o excremento de uma mosca inoportuna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez poucos ou quase ninguém que tenha o seu juízo perfeito saiba de sua localização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho uma mente aberta e estou livre para aceitar qualquer hipótese. Não, não sou louco e nem tampouco idiota. E sei que uma mente que não esteja preparada para aventar qualquer conjectura extraordinária é uma mente tacanha e ortodoxa demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que os que para Brumália se dirigiram nunca mais foram os mesmos. Ou morreram ou fugiram completamente enlouquecidos ou espavoridos. Outros ainda se tornaram místicos, eremitas ou ascetas. Assim contou-me Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai ser difícil contar esta história sem correr o risco de enlouquecer de vez o leitor. Mas eu preciso contar, senão eu é quem irei enlouquecer. Ouvi meus parentes murmurando, planejando internar-me num manicômio, caso eu não cesse com esses meus sonhos de tornar-me um escritor de histórias de horror. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história propriamente dita começa aqui. Portanto, respirem fundo e estejam preparados para as coisas extraordinariamente assustadoras que eu vou contar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo Silva e Amanda Zim, dois da tríade de jovens protagonistas desta aventura horripilante, eram jovens acadêmicos da Universidade Estadual de Sargácia. Sargácia, não sei se já ouviram falar, é uma cidade costeira, próspera, ordeira e sobretudo estranha. Fica perto da não menos estranha Maremontes, onde coisas fantásticas também andam acontecendo. Logo, numa outra oportunidade, escreverei sobre os horrores que tem acontecido na estranha Maremontes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele final de semana chegara, e com ele a incoercível vontade de cair na estrada em busca de liberdade e divertimento, de fuga da realidade prosaica das grandes cidades amortalhadas por um modo de viver esdrúxulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mirífico crepúsculo avermelhava o horizonte, manchando de sombras a região praticamente deserta ao sul de Sargácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrada seguia para aquele horizonte de cores alucinantes, que mais parecia um grande portal separando mundos, uma entrada para uma outra dimensão ou universo paralelo fantástico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco uma estranha névoa começava a envolver tudo. Era uma névoa assustadora que parecia ter emigrado dos jardins outoniços dos confins lá das terras negras da demência. Sim, há molduras que estragam uma pintura, e aquelas névoas eram como molduras infernais que tornavam a paisagem ainda mais estranha e sinistra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que chegassem onde a estrada formava uma bifurcação, eles – Amanda e Erasmo - continuariam rindo, animados. Ririam quase o tempo todo como hienas bêbadas, achando graça de tudo, até mesmo do absurdo da condição humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, vez por outra ficavam sérios, entregues a um mutismo deprimente. Os jovens são assim mesmo. De repente uma onda de tédio varre suas almas, deixando-os náufragos em suas solidões, à mercê de uma maré de melancolia. E vem-lhes então a certeza de que logo também serão adultos, novas peças das grandes e diabólicas engrenagens da sociedade. Sabem que mais cedo ou mais tarde serão avidamente mastigados e engolidos vivos pela bocarra de um monstro asqueroso e demoníaco chamado Estado, monstro que serve a um único deus: Mammom!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim Amanda e Erasmo chegaram a bifurcação. De um lado, uma placa com os seguintes dizeres: “Praias”; do outro lado, uma velha e carcomida tabuleta dizendo: “Bem-vindos a Brumália, a Cidade dos seus Sonhos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A névoa agora se fazia mais intensa e fria, circundando a cidade como uma muralha infernal de lácteo e sinistro aspecto. Amanda comentou que a tabuleta devia ser mudada para: Brumália, a Cidade das Névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jipe em que os dois estavam varou a cerração rumo a cidadezinha. Alguns instantes se passaram, até que um grande, negro e agourento corvo pousou sobre a tabuleta, crocitando com enorme estardalhaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sons ásperos e graves foram emitidos pelo pássaro, imitando incrivelmente a voz humana, e formando frases estranhas e ameaçadoras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos irão morrer, um por um!...Todos queimarão nas chamas do inferno!...Brumália é um matadouro, agora!...Cuidado com aqueles que vieram com as névoas! O terror impera nesta cidade de condenados!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ninguém estava mais ali para ouvir o sinistro pássaro. Logo o pássaro negro e nefasto alçou vôo, executando acrobacias nervosas, seguindo do alto o jipe que já entrara em Brumália, a cidade das névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem casal entrara em Brumália porque precisava comprar bebidas, além de reabastecer o tanque de combustível do carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na margem esquerda da estrada corria um riacho de águas escuras, enquanto que na margem direita havia várias casas abandonadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas seria uma cidade abandonada, aquela? Seria uma cidade-fantasma imersa em sombras de pesadelos e névoas eternas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que quase tudo ali estava em ruínas, tudo tomado pela vegetação, imerso em abandono e esquecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que mistérios insondáveis encerrava aquele lugar medonho, afinal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco o lugarejo ia cedendo lugar a uma região de mata ainda mais fechada. A estranha névoa continuava dando um aspecto fantasmagórico ao lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o canto dos olhos, Amanda pareceu ver três vultos em meio às névoas. Eles eram calvos, macilentos e de estatura elevada. Tinham os olhos azuis e flamejantes. Frontes amplas que denotavam alta intelectualidade. Trajavam estranhas roupas que mais pareciam túnicas brancas. Enfim, tinham uma aparência, além de religiosa, bizarra e draconiana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você viu aquilo, Erasmo? – Amanda indagou ao namorado, que ia dirigindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vi o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aqueles três sujeitos esquisitos na beira da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vi nada. Está vendo coisas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que deve ter sido um reflexo ou algo parecido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ou talvez mendigos e andarilhos zanzando por aí. Nesta droga de país, o que não falta é miserável, Amanda. Compreenda isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo Erasmo e Amanda, aqueles dois jovens de dezenove anos, já estavam acampados, ali, bem atrás do vasto, alto e sombrio milharal, rente a uma cerca de arame farpado enferrujado que guardava a plantação, e ao lado de uma pequena, porém não menos sombria mata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pio de uma coruja anunciou o fim do crepúsculo e o reinado da noite naquela região enevoada e lúgubre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora um vento fraco e frio, pouco mais que uma brisa, soprava fazendo rodopiar as névoas, balançando as folhas do milharal com seu ruído que mais parecia uma bulha de pequenas e estranhas criaturas invisíveis que vagam e dançam na solidão cruel da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro da barraca que armaram, Erasmo e Amanda namoravam indiferentes a tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ruído das folhas do milharal açoitadas pelo vento da noite. Outros ruídos. Seriam animais ou aves noctívagas? Ou seriam os espíritos e os demônios folgazões que erram pela sombria noite?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia haver alguma coisa no milharal, algo ou alguém oculto, observando aqueles dois jovens, esperando, esperando com uma paciência terrivelmente diabólica. Alguém que ouvira os arrulhos incontidos do casal de derriços. Alguém que fora averiguar quem estava ali, profanando aquele verdadeiro santuário do medo. Quem era aquele que, como um fantasma, vagava no milharal, entre as névoas rodopiantes?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fogueira ao lado da barraca projetava bruxuleante luz na lona, desenhando a silhueta dos corpos entrelaçados do casal de jovens namorados na lenta e lasciva coreografia da paixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem quer que fosse que estivesse ali, do outro lado da cerca, no milharal sinistro, de repente sentiu que havia um outro alguém, bem perto de si. Logo uma miadura terrível estraçalhou o silêncio da noite. Seguiu-se outro miado. E depois um grito de ódio, de raiva, o grito daquele que vagava nas sombras do milharal, entre as névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo e Amanda, seminus, sobressaltaram-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então os dois foram averiguar. Erasmo com uma lanterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que grito insano fora aquele que viera depois dos miados assustadores? Que grito de ódio fora aquele que retumbou nas trevas, cortando, lacerando cruelmente a quietude sepulcral da noite como uma foice sonora dos infernos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo e Amanda pularam a cerca de arame farpado enferrujado, a curiosidade sobrepujando o medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cena aterrorizante descortinou-se ante os dois jovens ao afastarem as folhas dos pés de milho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa pequena clareira do vasto e alto milharal um homem estranho matava furiosamente, com um machado, um gato preto que certamente passara por ali, atrapalhando seu caminho na noite agourenta, iluminada agora por uma lua cheia exangue que lutava no céu com nuvens pardacentas e na terra com as névoas infernais para derramar seu luar maldito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A machadada no felino decepou-lhe impiedosamente a cabeça. Dos olhos daquele estranho e horrendo homem pareciam emanar áscuas infernais de loucura ou algo mais terrível. E ele segurou o rabo do felino decapitado, erguendo-o como se fosse um troféu de morte e insanidade, e depois bebeu o sangue do animal que escorria e pingava diretamente no interior de sua horrenda boca de lábios leporinos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele homem era um tipo que ultrapassava o bizarro. Era feio como o pecado; os lábios leporinos eram exageradamente horríveis. Sua barba estava por fazer. Tinha óculos de lentes grossas, do tipo fundo de garrafa, como dizem os mais cruéis e sardônicos. Trajava uma calça jeans desbotada, suja, rasgada. Um chapéu de palha amarelo e de abas largas coroava-lhe a cabeça grande e raspada como se fosse uma coroa de feiúra. Seus dentes eram amarelos, tortos, horrivelmente cariados. Seu hálito era pior que o fedor de uma tumba antiga aberta. Uma nuvem de algo pior que a insanidade parecia nublar seu semblante, sem dúvida. Seu ódio acentuava nos olhos algo como o reflexo da invisível lua malsã da demência; eles brilhavam, brilhavam estranhamente, queimando, queimando em misteriosos e infernais fogos, brilhavam meio que esgazeados, como os de alguém que estivesse possuído por um demônio!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em murmúrios de louco, para a noite ouvir, dizia-se chamar Sideraldo, e seus pensamentos pareciam ser compartilhados com alguém ou alguma coisa que vivia numa espécie de simbiose com sua pobre e condenada alma, como se fosse um alter-ego ou encosto dentro de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda e Erasmo não perderam tempo. Fugiram. Nem sequer desarmaram a barraca, tão amedrontados estavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se danasse aquela cidadezinha fantasmagórica, aquele lugar de pesadelo, de medo fantástico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcançaram o jipe e, com muita dificuldade devido ao cansaço, conseguiram o caminho de volta para casa, como que por milagre ou sorte, talvez, já que a cerração estava mais densa, mais infernal, mar branco de mistérios e assombros negros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o intervalo na aula da faculdade, agora. Ali, no campus da Universidade Estadual de Sargácia, num banquinho à sombra de uma centenária figueira, Erasmo e Amanda conversavam com Pandolfo Bombarda, um de seus melhores colegas. Na verdade, era o melhor amigo do jovem casal de namorados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois contavam ao amigo que tinha sido um golpe de sorte acharem o caminho de volta, fugindo daquela estranha cidadezinha chamada Brumália, que Amanda batizara de A Cidade das Névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas como era mesmo esse tal Pandolfo Bombarda? Era alto e esguio. Tinha os cabelos bem longos, lisos e negros, amarrados numa única trança que descia quase a altura da cintura. A face era meio lúrida, quase tanto quanto a de um cadáver recente. O cara era uma mistura de punk e gótico. A tez branca, lívida, contrastava com o negro dos cabelos e com as vestes (calça e jaqueta de couro) que costumeiramente usava. Tinha as sobrancelhas grossas, lembrando as do escritor brasileiro Monteiro Lobato. Quanto a sua personalidade, na maior parte do tempo era um tipo meio introvertido, arredio e soturno. Às vezes, mudava repentinamente e tornava-se loquaz, tornando-se o que poderia ser chamado de um sujeito esquizotímico. Talvez vivesse uma guerra interior tentando vencer a timidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda – ou simplesmente Pan ou então Bomba como chamavam-no Erasmo e Amanda – também trabalhava na agência de detetives particulares especializada em casos insólitos, a qual pertencia a seu tio, um certo celibatário chamado Lupércio Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo e Amanda contaram o ocorrido com eles, a pequena, porém assustadora aventura naquele final de semana, naquela estranha cidadezinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda disse-lhes que incrivelmente havia sonhado com eles, com algo parecido com o que ocorrera com eles, mas não conseguia lembrar direito. Seus estranhos sonhos eram normalmente muito nebulosos, difíceis de lembrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Bem, e onde fica essa tal cidadezinha, a tal Brumália? – Bombarda perguntou-lhes, coçando distraidamente o ralo cavanhaque que nascia no queixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Realmente é incrível, amigo, mas a mim parece que Brumália simplesmente fica em lugar nenhum, tamanha a estranheza do lugar. Trata-se de um lugar bastante afastado da estrada principal. E creio que muito pouca gente tem visitado aquela região... – falou Erasmo, meio confuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Explique melhor a coisa, Erasmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já disse: foi bem assim: estávamos eu e Amanda indo pra praia, numa boa. Nossa intenção era aproveitar o final de semana, eu, ela e o nosso amor, entendeu?... Avistamos a estrada que se bifurcava, aí lemos a velha tabuleta fincada, dizendo: Bem-vindos a Brumália. Como precisávamos comprar algumas coisas pra gente comer, além de colocarmos mais combustível, entramos na tal cidadezinha bizarra. Havia uma névoa dos diabos, na tal cidade. Depois vimos o louco no milharal matando o gato...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Compreendo – fez Bombarda, pensativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha, Bomba, depois da estranha aventura que passamos, concluí que foi pura sorte a nossa termos saído de lá, sem que o maníaco nos pegasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi bem sinistro , Pan – comentou Amanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E não comunicaram nada a Polícia? – quis saber Pandolfo Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não. Na hora, achamos que não era preciso. Era só um cara esquisitão matando um gato e bebendo o sangue do pobre animal – respondeu Erasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois fizeram bem – comentou Bombarda. Ele fez uma breve pausa, durante a qual seu semblante estampou uma rápida reflexão, depois perguntou: - O que acham de voltar até a tal Brumália, a cidade das névoas?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Só se você tivesse coragem de vir conosco... – falou Erasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas é claro. Foi por isso que perguntei. Tenho tido estranhos sonhos ultimamente, e com eles um desejo de aventuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E foi por isso que contamos pra você. Como bom detetive, você descobriria o mistério do louco do milharal, pensamos – disse Erasmo. – Vai ver o tal louco pertence a algum tipo de culto satânico que sacrifica os pobres animais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabem, o grande objetivo na vida de uma pessoa deve ser experimentar as mais vastas emoções e sensações, senão a vida não tem graça. Vocês sabem que sou um pouco tímido, mas eu procuro assassinar a timidez enfrentando perigos e mistérios – falou Pandolfo Bombarda meio filosoficamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então fica combinado: iremos nós três, no próximo fim de semana. Mandamos-te um e-mail pra confirmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É isso aí, então. Aventura, amigos! Aventura! – falou Pandolfo Bombarda, rindo e gesticulando a sua maneira meio doida e esquisita. – Além disso, precisamos de material para nossas trabalhos na faculdade. Já posso até ver o título do meu: As Bizarras Realidades do País: Pequenos e Estranhos Povoados Fantasmagóricos Perdidos nos Mapas do Esquecimento e da Loucura!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você não acha que o título está muito grande, Pan? – falou Amanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele cofiou o queixo e começou a rir. E Amanda e Erasmo também fizeram brotar de seus lábios um ramalhete de risos álacres e juvenis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no final de semana, lá estavam eles, indo de jipe, um jipe grande, com capota, que alugaram para dois dias. O dinheiro veio de uma vaquinha que fizeram os três. Alugaram um carro bom, forte, com tração nas quatro rodas. É que o velho jipe de Erasmo pifara no estacionamento da faculdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora já iam pela estrada que logo se bifurcava em dois caminhos distintos. A estrada era tão ruim que parecia a estrada para o inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estes desgraçados do Governo enfiam o maldito dinheiro arrecadado com os impostos escorchantes?, indagava-se Pandolfo Bombarda, em pensamento. E respondia em seguida: Numa conta bancária de um paraíso fiscal, por certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A nossa aventura promete ser bastante arriscada, não acham? – observou Amanda, interrompendo os pensamentos de Pandolfo Bombarda. Estavam todos olhando atentamente a névoa espectral que surgia paulatinamente à frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No volante, Erasmo fez que sim com a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo continuou, com ares de filósofo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O medo acaba nos fascinando. Temos medo de determinada coisa, no entanto resolvemos arriscar assim mesmo. Eu penso que foi graças ao medo que o homem saiu da caverna, evoluindo, através deste poderoso fortificante, a coragem. Aliás, medo e coragem se complementam, são faces da mesma moeda, ingredientes do mesmo tônico da alma. O medo é como uma vitamina para o espírito humano, um aguilhão que o faz avançar; evoluir é a mola propulsora do espírito humano. O medo é como uma droga poderosa. Quanto mais sentimos seus efeitos, no fundo mais queremos senti-lo. Sim, o que estou dizendo pode parecer vários disparates de uma filosofice, mas não é. Gostamos de ter medo, no fundo. Pode acreditar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Assim falou o grande filósofo da meia-noite, Pandolfo Bombarda – riu Erasmo, tamborilando no volante com os dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos riram. Depois Erasmo falou assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De certa forma você não deixa de ter razão, meu bom amigo. O mistério de um lunático que mata gatos num milharal de uma cidade esquisita e coberta de névoas talvez seja o prelúdio de uma grande aventura...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olhem! Eis a tabuleta de que me falaram! – disse Bombarda, apontando com o queixo a placa fincada na beira da estrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos em frente, depois pegamos os caiaques presos no bagageiro. Iremos remando pelo riacho que costeia a estrada de Brumália, assim não seremos percebidos por ninguém. Se estiver muito escuro à nossa frente, iluminaremos com a lanterna, embora eu ache que não vai precisar, pois hoje é noite de lua cheia, e, além disso, apesar da névoa, o lusco-fusco ainda mostra-se bem claro, como podem observar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles iam numa certa velocidade. As névoas já começavam a se adensar rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda recordou dos três estranhos que ela vira na noite em que estivera acampando com Erasmo. Teria sido imaginação? Será que os três estranhos, o lunático no milharal matando o gato, a cidade misteriosa envolta em névoas, tudo, enfim, não teria sido fruto de algumas doses de LSD, por exemplo? Talvez eles tivessem tomado a droga sintética e nem se lembrassem disso. Ou talvez fosse um efeito flash back, de uma dose que tomaram no passado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente um vulto ligeiro e assustador atravessou na frente do carro, iluminado rapidamente pelo farol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo não teve tempo de frear, de modo que atropelou violentamente a pessoa, que foi projetada mais ou menos a três metros de distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas que droga! – vociferou Erasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh, meu Deus! – gritou Amanda, assustada. – Atropelamos alguém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo preparava-se para sair do jipe quando o vulto que fora atropelado surgiu repentinamente rente ao pára-brisa do carro como um fantasma estropiado. O homem encostou o rosto no vidro, apertando-o sobre o mesmo, distorcendo horrivelmente seu rosto. Ele era um sujeito todo esfarrapado, molambento. Claudicava. Estava cheio de hematomas no rosto. E gemia de dor. Sua barba por fazer, seus cabelos despenteados, os olhos exprimindo uma espécie de paranóia irreprimível acentuavam-lhe o aspecto de farrapo humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ofegante, o estranho sujeito falou assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fujam! Fujam de Brumália, a cidade que Deus esqueceu! Fujam o quanto antes, pois o inferno se instalou aqui de vez! Talvez não haja mais salvação para o gênero humano, talvez não haja mais escapatória pra ninguém! Fujam, pelo amor de Deus! É a loucura e a devastação do horror em Brumália! É a morte alastrando-se horrendamente por todos os cantos da cidade!...Salvem suas almas enquanto há tempo, irmãos!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pobre homem começou a se afastar, manquitolando ainda mais. Seus passos trôpegos assemelhavam-se aos de um zumbi, um morto-vivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Do que está falando, homem? – indagou Erasmo. – Você está bem? Não se machucou gravemente?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Oh! Eu estou bem, pelo menos enquanto eles não me pegarem. Não ligo pros ferimentos do meu corpo. Minha alma é mais importante. E eu quero salvá-la do inferno em vida. Minha mente está meio confusa, eu sei. Eu estava procurando o meu pássaro de estimação, um corvo bem falante ao qual pus o nome de Cega-rega. Talvez ele me ajudasse a encontrar a sacristia, voando até lá. Escutem-me: já que estão aqui, procurem a sacristia da igreja de Brumália – falou o homem, parando um pouco de andar. – Procurem um livro antigo, o lendário e chocante Chartapaciu Infernale!... O padre de Brumália pediu-me que eu o encontrasse, porém eu não pude achá-lo, pois aqueles que vieram com as névoas me torturaram muito e então minha mente ficou confusa e meu corpo cansado. Tive de fugir para não ter um destino pior que a morte, compreendam-me. Além disso, além de me pedir para encontrar o livro, o padre pediu que eu o matasse, mas não tive coragem para isso, pois sou um homem temente a Deus...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem é você, afinal? E que história mais doida é essa? – quis saber Erasmo, já um tanto irritado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu nome é Eliphas Zandograt. Eu era o sacristão da paróquia, antes do inferno se estabelecer aqui em Brumália. Não há muito que dizer, na verdade. Vou embora, preciso fugir, salvar minha pele e minha alma!...Compreendam-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas que idiotice é essa, afinal? – perguntou Pandolfo Bombarda – Do que diabos está falando?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não posso explicar mais nada, pois não há tempo pra isso. Eles estão em meu encalço, eu sei. Se me pegarem, provavelmente vão cortar a minha cabeça e servi-la numa bandeja numa ágape macabra. Consegui fugir daquele porão onde eles haviam me encerrado com o padre, que só não fugiu comigo porque, além de sua idade avançada, estava com as pernas e os braços quebrados. Durante minha fuga, eles me alcançaram e me pegaram. Depois, me bateram muito. Zombeteiros , disseram que era pra amaciar a minha carne, deixá-la mais tenra. Até os malditos porcos do chiqueiro, mentalmente controlados por eles, me morderam. Por isso tenho que fugir deles. Aqueles malditos não vão devorar meu corpo e empurrar minha alma para os abismos do inferno! Contudo, irmãos na fé, o Todo-Poderoso não permitirá isso!...Deus é pai!Deus seja louvado!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliphas já ia adiante, porém Bombarda ainda gritou-lhe, tentando saber mais. Mas o mesmo não lhe respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor me desculpe, mas tudo isso me parece fantástico demais. Não seria algum pesadelo que o senhor teve? – quis saber Amanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, nada disso! É que a realidade, aqui, em Brumália, é mais espantosa do que um pesadelo. Aconteceram e ainda acontecem coisas estranhas e terríveis nesta cidade excomungada. Mas minha cabeça agora dói muito, minha mente está um pouco perturbada pelas horríveis torturas que sofri nas mãos dos malditos, de modo que não consigo mais lembrar onde fica a igreja e a sacristia. Então acho que vocês a encontrarão, antes que eles acabem com todos nós. Lembrem-se: encontrem o terrível Chartapaciu Infernale! Nas páginas deste livro terrível vocês encontrarão um jeito de acabar com eles, os que vieram com as névoas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então disparou em desabalada carreira, claudicando, trôpego, perdendo-se nas sombras que o crepúsculo pintava com sinistra arte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do jipe, os três se entreolharam, atônitos e boquiabertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Louco! Só poder ser – conjecturou Erasmo, olhando para Amanda e Bombarda. – Deve ter lido muito Lovecraft ou Stephen King pra ficar assim deste jeito...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ainda não sabemos se de fato ele é louco, Erasmo. Pode ser que ele seja algum bêbado alucinado, mas não podemos ser tão precipitados assim... – falou Bombarda, ponderado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Rapazes, agora estou começando a ficar com medo – disse Amanda, engolindo em seco, os olhos arregalados. – Acho que devemos voltar pra Sargácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pois eu digo que não – falou Bombarda, decidido. – Devemos continuar e decifrar o enigma desta estranha cidade que o mundo esqueceu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Aquele tal de Eliphas não deve ter se machucado muito com o atropelamento, pois saiu em disparada como se estivesse fugindo do próprio Diabo! – disse Erasmo. – Querem saber de uma coisa? É bem provável que aquele doido varrido estava com pressa era de achar um bar aberto pra tomar umas doses de caninha. Toda a assombrosa história que ele nos contou talvez não passe de um delirium tremens que ele teve!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles não puderam deixar de rir divertidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez você tenha razão, Erasmo – disse Bombarda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pan, você não acha que o tal Eliphas tem alguma ligação com o tal louco do milharal que nós vimos na noite em que eu e Erasmo estivemos por aqui?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez sim, talvez não – disse Pandolfo Bombarda. – É muito difícil de afirmar. Com certeza, trata-se de um mistério realmente irritante, não acham?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Querem saber? Acho que só tem loucos nesta cidade esquisita – disse Erasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Todas as cidades abrigam loucos, meu bom amigo Erasmo! E todas são esquisitas! – disse Bombarda. – Nas cidades esquisitas há loucos de todo tipo. Loucos como nós, que resolvemos investigar os mistérios deste lugar... E digo mais: o mundo todo é um grande hospício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Depois que a gente se formar, provavelmente teremos uma vasta clientela como psicólogos, não acham? – disse Amanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todos riram outra vez. E era um riso que procurava abafar um certo receio de estarem num lugar bizarro como aquele, imerso em névoas que ocultavam mistérios e horrores além da compreensão e da sanidade humanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio então a noite. Lua cheia cintilando no alto do céu. Claridade precária. Névoas frias rodopiando no ar como fantasmas de bailarinas loucas. Silêncio tumular no milharal, quebrado vez por outra por um pio aziago de uma coruja encarapitada no alto do mourão meio apodrecido da cerca de arame farpado enferrujado. Pirilampos acendendo e apagando nas trevas como pequenos sinais de anjos liliputianos das sombras resplandecentes. Mistérios pairando no ar. Mistérios, mistérios irritantes. Promessas, promessas de violência, dor e morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jipe estacionou, e os três jovens aventureiros da noite desceram e pegaram os caiaques que trouxeram presos sobre o jipe. Dois caiaques. Um tinha dois lugares: era o de Amanda e Erasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo eles já estavam remando pelas águas do riacho, águas escuras e oleosas e que cintilavam ao luar de um modo estranho, nas sombras que emolduravam o sinistro quadro da noite. Além de ser mais divertido e emocionante ir pelo riacho com os caiaques, não chamariam muita atenção com o ruído do motor do jipe, chegando sorrateiramente naquele lugar de mistérios noturnos. Por isso foram de caiaque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pararam num ancoradouro natural composto de pequenas pedras semicobertas de um estranho musgo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trio de jovens aventureiros da noite desembarcou em terra firme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cuidado pra não escorregar, Amanda – disse Erasmo, ao ver sua namorada quase tropeçando num restolho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite já ia alta. Com a lanterna ligada que Erasmo apanhara do porta-luvas do jipe, logo arrastaram os caiaques, colocando-os por ali, entre arbustos e juncos da margem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo iluminou um pequeno caminho à frente, em meio ao mato alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Logo ali adiante fica a cerca de arame farpado. Passaremos pelo lugar onde nós acampamos no último fim-de-semana, atravessando a tal cerca e o milharal alto depois dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será que tem cachorro na propriedade? – quis saber Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que não, Bomba – disse Erasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se houvesse, acho que já teríamos ouvido latidos – comentou Amanda. – E, além disso, Pan, não ouvimos nada, quando eu e Erasmo estivemos aqui, na outra noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- De qualquer forma, se houver, tratem de correr de volta pra margem do rio. Se der qualquer coisa errada, pegamos os caiaques e damos o fora desta cidade que mais parece um cemitério nebuloso do inferno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo raramente tirava o seu velho chapéu de palha de abas largas. Usava-o como quem usa uma coroa, e seu reinado era o das sombras da noite. O velho machado de lâmina afiada ele não o largava também, de jeito nenhum; era como o seu cetro, o cetro de seu império de carnificina. Magro, bem alto e feio, Sideraldo mais parecia um avejão dos infernos. Com sua voz roufenha, falava sozinho, assim como sua mãe e sua irmã. Diálogos terríveis, esses. Eram como conversas com demônios interiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ele estava caminhando escondido no mato que ladeava a picada que passava entre o riacho e o terreno onde ficava a propriedade de sua família, a casa antiga e quase caindo aos pedaços, em cujos fundos havia o milharal e a cerca de arame farpado que separava tudo da mata sinistra e espessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, sua mãe Ambrósia e sua irmã Florbela estavam na velha casa. Estavam conversando naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mãe?... – perguntou a moça que se dizia chamar Florbela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que é, Florbela? – falou a mulher gorda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cadê ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele quem, guria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Sideraldo. Quem mais poderia ser, mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, sim! O Sid... Ele foi buscar a nossa janta, filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por que o idiota demora tanto, mãe?... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três, Amanda Zim, Pandolfo Bombarda e Erasmo Silva atravessavam o milharal, meio agachados, silenciosos, em meio às sombras da noite lúgubre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ilumine ali adiante – Bombarda instruiu em voz baixa, estreitando os olhos, procurando divisar melhor as coisas nas trevas da noite. – Que fedor miserável é esse? Vocês não estão sentindo?...Ah!...Olhe só! É um barraco tosco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece uma pocilga. Um chiqueiro, sem dúvida; agora posso ver. Mas não vejo sinal de porcos – murmurou Erasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, realmente é uma pocilga. E aparentemente está vazia, abandonada. E o cheiro é horrível, quase insuportável. Não sabia que chiqueiros fedessem tanto assim – frisou Amanda, também num tom baixo de voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Apague a lanterna um instante, Erasmo – solicitou Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que houve, Bomba? – perguntou Erasmo num murmúrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma casa, logo adiante. Uma velha casa num terreno que lembra uma chácara ou sítio. Mas não está abandonada, pois vejo luzes acesas em seu interior – respondeu Bombarda. – Tem gente morando lá dentro, com certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda, Erasmo Silva e Amanda Zim subitamente começaram a ouvir grunhidos terríveis que vinham da escuridão ao redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouviram? – murmurou Amanda, amedrontada e engolindo em seco. Seus olhos verdes arregalados, cintilando como duas pequenas estrelas de esmeralda na penumbra sinistra da noite enluarada de Brumália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim – Bombarda falou em tom baixo. – Parecem realmente grunhidos, grunhidos de porcos, pra ser mais exato...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, grunhindo bestialmente, como se fossem demônios, eles avançaram sobre os três jovens. De fato, eram grandes e ameaçadores porcos, porém mais pareciam cães de guarda da morada, tamanha a fúria com que atacavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assombrado, terrivelmente assustado, Erasmo correu, tropeçou e caiu. Mesmo caído, conseguiu atirar a lanterna no focinho de um dos horríveis animais que espumavam pela boca como cães raivosos. Com horror, Erasmo pode vê-los melhor: vinham como que possuídos ou insuflados por uma força maligna desconhecida que os tornavam animais furibundos, e os olhos deles estavam amarelos, anormais, ligeira e estranhamente fosforescentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um dos furiosos cachaços negros mordeu o tornozelo de Erasmo, da boca do jovem saltou um grito de dor e desespero que esfaqueou a corpo frio e silencioso da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda, por sua vez, gritava de pavor, desesperada, correndo e fugindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já Pandolfo Bombarda, por seu turno, surpreendentemente sacou um revólver calibre trinta e oito de dentro de sua jaqueta e atirou diversas vezes naqueles horrores suínos, matando alguns deles, ferindo outros, os quais fugiram. E enquanto atirava loucamente, desesperadamente, Bombarda gritava ao mesmo tempo com fúria e medo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Larguem dele, animais do inferno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu tornozelo, Bombarda! Está ardendo... ai!...Puta que pariu, dói muito! – Erasmo gemia, o rosto na crispação de uma careta de dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Droga! Pra onde foi Amanda? – falou Bombarda, trêmulo, ora olhando ao redor de si, à procura de sua amiga, ora olhando o tornozelo inchado e sangrando do amigo. – Amanda, cadê você?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda não respondeu, pois corria desesperadamente, tomada pelo pânico irracional, embrenhando-se milharal adentro como uma desvairada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase sem fôlego e em prantos, estacou subitamente ao deparar-se com um horrível espantalho em meio as névoas. A cabeça do espantalho era simplesmente uma caveira humana, e por sobre esta, pousado solene e sinistramente sobre o velho chapéu de palha, estava Cega-rega, aquele corvo negro como a noite do inferno, proferindo sons agourentos, imitando a palavra humana em profecias de morte na noite de horror. Eis como crocitava a ave negra e sinistra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morrer! Todos irão morrer! E o inferno acolherá a todos os desgraçados em mil suplícios!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanda gritou de medo, no auge de seu desespero atroz, voltando a correr milharal adentro, fugindo dos horrores de uma noite hedionda e sinistra. Ela sabia que a aventura tinha ido longe demais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, perto dali, seguia-se um diálogo familiar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouviu isso, mãe? – indagou Florbela, na cozinha da casa, enquanto cortava as batatas sobre a mesa com uma grande e afiada faca, seus olhos tinham aquela leve e estranha fosforescência, como a dos porcos e do restante de sua família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouvi tiros. Devem ser o Sideraldo caçando. Logo ele chegará com as iguarias para o nosso jantar...- respondeu a velha Ambrósia, debruçada no fogão à lenha da casa. Ela era uma velha feia, volumosa, de uma obesidade mórbida, parecendo ter elefantíase ou algo parecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez não seja o Sid, mas sim a gente da cidade vizinha, bisbilhotando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se forem, vão completar o nosso cardápio – falou a velha, sardônica. - Os porcos receberam ordens telepáticas para trazer qualquer intruso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, o sinistro Sideraldo vinha nas sombras da noite de Brumália, sombras que tinham como moldura as névoas sinistras que flutuavam como brancos espectros emigrados do mundo dos mortos. Sideraldo vinha pensativo, sua silhueta negra e terrível destacando-se vez por outra sob as réstias de um luar mortiço, exangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de repente Sideraldo esbarrou em Amanda, derrubando-a ao chão úmido e frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando aquela estranha e horrível figura, Amanda empalideceu e soltou um grito de horror tão eloqüente que ensurdeceria até mesmo um cadáver na tumba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo fitou-a com água na boca. Pegou seu machado do cinto, erguendo-o, prestes a desferir um golpe fatal sobre a desafortunada e sonhadora cabeça de Amanda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sombra da lâmina do machado manchou seu semblante transfigurado pelo medo, e então Amanda Zim viu quando a lâmina cintilou à luz débil do luar, como uma mensageira da morte. A jovem percebeu que tinha chegado a sua hora, a hora de se despedir da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabeça sonhadora da infeliz jovem foi impiedosamente rachada ao meio, abrindo-se em dois macabros hemisférios, abrindo-se como uma fruta macabra de indescritível horror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um raio negro e fatídico do inferno, a morte chegara para a pobre Amanda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrementes, Pandolfo Bombarda improvisava com sua jaqueta um grande curativo no tornozelo ferido de seu amigo Erasmo, que trincava os dentes, tentando suportar a dor lancinante daquela terrível mordedura suína.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o rosto pálido, porejado de suor, Erasmo indagou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Cadê a Amanda, Pan?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que a coitada ficou muita assustada com aqueles horríveis porcos ensandecidos, fugindo em pânico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E agora?...Que faremos, Pan? – continuou Erasmo, trêmulo, entre gemidos contidos de dor. – E se aqueles porcos malditos voltarem a nos atacar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda pensou por um momento, antes de dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou enchê-los de chumbo, evidentemente, meu amigo – e Bombarda mostrou o revólver enfiado na cintura. - Não se preocupe! Vou mandar todos eles pro inferno! Vou acabar com a raça daqueles demônios!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nem eu nem Amanda sabíamos que você tinha trazido uma arma, até vê-lo atirando como um louco naqueles porcos endemoniados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Realmente, eu tinha escondido a arma de vocês. É um revólver e tanto. Trata-se de um dos favoritos de meu tio, Lupércio Bombarda. Eu o peguei de sua coleção particular, sem ele suspeitar, é claro. Sabe como o meu tio chama essa pequena máquina de matar?...Ele o chama de Cospe-morte. Eu havia escondido o Cospe-morte da curiosidade de vocês porque, no fundo, desconfiava que algo pudesse dar errado em nossa pequena aventura nesta cidade da loucura, de modo que foi uma boa precaução, você não concorda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sem dúvida, o Cospe-morte foi a nossa salvação. Você fez muito bem metendo bala naqueles bichos brabos dos infernos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora eu...espere!...Quieto! – fez Bombarda, sacando inopinadamente a arma da cintura e engatilhando - Vem alguém aí...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deve ser a coitada da Amanda – disse Erasmo rindo nervosamente, e em seguida gritou: - Amanda, estamos aqui! Pode voltar, querida! Os porcos se foram!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não seja louco! Fique quieto, pois talvez não seja Amanda! Podem ser os donos da propriedade ou alguém pior!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, o aviso soara tarde demais. Feito um anjo horrendo da morte, Sideraldo chegava, arrastando o cadáver de Amanda, segurando-o pelo tornozelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao verem o cadáver da amiga com o cérebro praticamente escorrendo pela rachadura da cabeça, Erasmo e Bombarda suprimiram o medo, dando lugar a uma ira ostensiva. De suas gargantas saíram gritos de furor que sobrepujaram todo o medo, como flechas de cólera varando a carne escura da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É ele! O louco do milharal, Bomba! É ele o desgraçado que eu e Amanda vimos matando um gato com um machado aquela noite! – berrou Erasmo, o rosto crispado não mais pela dor do ferimento na perna, mas pelo ódio e desejo iracundo de vingança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu safado do inferno! – urrou Pandolfo Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai, Pan! Mete bala no filho da puta! Mata esse pau-no-cu! Mata! – berrou Erasmo, trincando os dentes numa clara expressão de ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda fez mira e apertou o gatilho várias vezes, porém ficou estupefato ao constatar que a arma não disparara; as balas todas haviam sido gastas para espantar aqueles cachaços furiosos minutos atrás!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que houve, cara? – gaguejou Erasmo, também assustado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com voz trêmula, Pandolfo Bombarda também gaguejou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Caralho! Não dá mais, Erasmo! Não tem mais balas no tambor!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo sorriu ironicamente ao ouvir aquelas palavaras, largando o cadáver de Amanda ao chão. Sacou o machado preso ao cinto e avançou como um arauto da morte em direção aos dois jovens que, agora, não sabiam o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, num gesto de desespero, Pandolfo Bombarda usou o revólver como se fosse uma pedra, arremessando-o contra o rosto hediondo de Sideraldo, que se esquivou para o lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda avançou e esmurrou Sideraldo. Por um instante o punho e a mão de Pan ficaram doloridos; o rapaz gemeu e fez uma careta de dor, sacudindo a mão como que para aliviar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o golpe, Sideraldo nem mesmo cambaleara; o murro fora muito fraco para um homem de seu porte físico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erguendo seu machado como uma ferramenta de morte, Sideraldo preparou-se para desferir um golpe fulminante em seu débil oponente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com agilidade nascida do desespero, Pandolfo Bombarda conseguiu se esquivar a tempo, porém não sem se desequilibrar e cair ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas era Erasmo quem estava bem mais próximo de Sideraldo; uma vítima mais indefesa do que Bombarda, sem dúvida. Então Sideraldo ergueu o machado e preparou-se para proclamar a morte de Erasmo dentro da noite aziaga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erasmo, no chão, segurando a perna ferida e dolorida, ainda tentou se arrastar para longe, arregalando os olhos quando a sombra da lâmina da morte descia sobre si inexoravelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sangue salpicou o quadro dantesco da noite com seu vermelho vivo, como se fosse uma velatura macabra escondendo a verdadeira cor do horror que ainda estava por vir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda ainda atirou-se ao pescoço de Sideraldo, tentando impedir a morte do amigo, mas foi afastado com um safanão e depois lançado longe com um pontapé violentíssimo desferido pelo louco assassino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caído ao chão, meio zonzo, Bombarda ainda viu o lunático furioso massacrar o amigo. E, sombrio, concluiu que não havia mais nada a fazer por Erasmo; a solução era fugir dali, pegar um dos caiaques e escapar pelo rio, salvando a própria pele. Não era covardia, ele pensava; era a coisa mais sensata a fazer naquele momento. Depois, evidentemente, comunicaria o fato a Polícia, na cidade mais próxima, Sargácia ou até mesmo Maremontes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Pandolfo Bombarda correu noite adentro, embrenhando-se pelas sombras do grande e sinistro milharal que agora balançava ao vento da noite, parecendo um mar de medo e mistério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o jovem corria, uma pergunta batia insistentemente em sua mente como um martelo atormentador: ele conseguiria escapar daquela noite de terrível loucura, horror e matança?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os corpos de Amanda e Erasmo foram decapitados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo os dois cadáveres sem cabeça estavam ali, na cozinha da casa, pendurados em grandes ganchos como viandas humanas. Seriam desossados e destrinchados, depois assados em guisados suculentos que seriam servidos para horríveis comilanças em refeições macabras e canibalescas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambrósia pusera-se à feitura do jantar. Facas afiadas cortaram as tenras carnes humanas. Membros foram cuidadosamente separados por cutelos, e logo tudo foi posto num grande tacho negro, o qual seria levado ao fogão à lenha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo e Florbela ficaram com água na boca, pois o macabro acepipe saciaria a fome inumana, uma fome nascida de sórdidos e insanos desejos antropofágicos, desejos insuflados por algum tipo de força espiritual desconhecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Sideraldo colocava mais lenha no fogo, comentou com sua mãe Ambrósia, que com uma grande colher de pau agitava no tacho o molho sanguinolento com grandes pedaços de carne humana boiando; entre tais pedaços, a cabeça de Erasmo boiava pateticamente no molho sangrento, rodopiando ao mexer e remexer da colher. Um ricto de horror ainda curvava seus lábios, juntamente com o brilho vazio e vítreo nos olhos já quase soltos das órbitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Um dos malditos desgraçados conseguiu fugir, mãe! – disse Sideraldo, fanhoso como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O miserável não irá muito longe, com certeza, filho. Um de nossos maiores cachaços o pegará, mais cedo ou mais tarde, ele o trará até aqui, para servir de sobremesa. Já tomei providências quanto a isso, ordenando ao suíno uma ordem em forma de fluxos de ondas telepáticas! – Ambrósia respondeu, experimentando um pouco do molho sangrento com a grande colher de pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos logo, estúpido animal involutivo! Traga-o até mim com vida!, era a tal ordem mental formulada por Ambrósia, enviada telepaticamente ao suíno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltando a fuga de Pandolfo Bombarda ... Ele escorara-se a uma velha árvore de galhos secos e retorcidos que surgira ali, em meio às névoas, como uma tábua de salvação. Atravessara o milharal, pulando a cerca de arame farpado, lanhando as pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava descansando um pouco, antes de continuar fugindo, rumo ao ancoradouro natural onde estavam os caiaques. Deixaria o quanto antes aquela cidade que era um antro de horror e loucura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estirou as pernas sobre a relva, respirando fundo. Improvisou um curativo com uma tira rasgada de sua própria roupa. Pensou consigo mesmo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus!... Tudo isto parece tão incrível e aterrador quanto um pesadelo de uma alma encarcerada nas catacumbas do inferno!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando fez menção de levantar-se, ouviu um cuinchar sinistro na noite agourenta da cidade das névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eis que, inopinadamente, das trevas enevoadas, surgiu um imenso cachaço negro, um daqueles que atacara Bombarda e seus amigos. O terrível suíno era o maior da vara, sem dúvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda havia dado apenas três passos em sua fuga alucinada quando foi apanhado pelo animal hediondo, que abocanhou furiosamente o tornozelo esquerdo do jovem, mordendo-o como se fosse um cão hidrófobo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto gritava desesperadamente de dor, Pan foi arrastado mata adentro, seu tornozelo preso entre os dentes do animal em fúria sobrenatural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O medo e a dor lancinante martirizavam Pandolfo Bombarda dentro da noite dos horrores fantásticos e fatídicos. O sangue que escorria de seu tornozelo deixava uma trilha vermelha no solo, colorindo sinistramente a tela macabra da noite de trevas e névoas. Inutilmente ele tentava se agarrar a touceiras, mas ele ia sendo arrastado com muita força e rapidez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda acabou desmaiando, e quando recuperou a consciência, a primeira coisa que percebeu foi que estava manietado, e com o tornozelo todo inchado e dolorido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrava-se estirado no velho assoalho da casa daquela família insana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acorde, humano miserável! – era a voz da velha Ambrósia soando numa vociferação feroz. Estavam com ela os seus dois filhos, Sideraldo e Florbela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vamos matá-lo agora. Você ainda terá mais alguns dias de vida. Vamos engordá-lo um pouco, antes do abate. Por ora, vamos colocá-lo na despensa da casa, para uma futura refeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mãe, prometa-me que, quando a gente for comê-lo, eu terei a primazia de ficar com a coxa do infeliz! – falou Florbela, passando a língua sobre os lábios, salivando em abundância, os olhos aumentando subitamente a fosforescência numa demonstração de gula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu prometo, querida. Mas antes cortaremos o pescoço do infeliz, e faremos um bom e capitoso vinho com o sangue esguichante da jugular do desgraçado! – falou a velha, rindo em tom de deboche, e, em seguida, olhando para Sideraldo, disse-lhe: - Agora, filho, abra o alçapão e coloque o tolo humano lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixe comigo, mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo então se dirigiu até o local, ergueu o alçapão, depois arrastou Bombarda pela trança, chutando-o com desprezo para o interior do porão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ato contínuo, o gigante de lábios leporinos fechou o alçapão com força, trancando o mesmo com uma grande corrente com um cadeado em forma de caveira humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda despencou por cerca de três ou quatro metros, indo cair sobre uma verdadeira cordilheira de ossos humanos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele lugar tétrico, além de servir de despensa e calabouço, servia também como um grande ossuário. Ali, havia até mesmo alguns restos mortais recentes, caveiras com resquícios de cabelos e até mesmo de carnes roídas. O miasma que impregnava o lugar era qualquer coisa de insuportável, de modo que Bombarda teve que tentar a todo custo impedir os engulhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esforço hercúleo, Bombarda conseguiu cortar as cordas que prendiam suas mãos com a ponta de um osso, um fêmur humano lascado em forma de farpa grande. Tal fêmur lembrava vagamente um punhal tosco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tênue claridade das luzes da casa, que atravessava uma fresta no alto da parede de grossas tábuas, penetrava como um fantasma luminoso naquela verdadeira câmara da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, no meio da penumbra, Bombarda percebeu sombriamente que fora atirado num grande e espaçoso porão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parara de se mexer, porém o que ainda estaria provocando aquele ruído nas montanhas de ossos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, com um medo cada vez mais crescente, Pandolfo Bombarda começou a pensar que talvez houvesse alguma coisa viva ali, além dele. Talvez fossem ratos, ele pensou, mas não eram ratos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com horror e assombro que ele ouviu o estranho gorgolejar de alguém, seguido de um gemido profundo de sofrimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentando superar a dor de seu tornozelo, Pandolfo Bombarda procurou no bolso o isqueiro que sempre trazia consigo (ele havia decidido parar de fumar naquela semana, mas, por sorte, trouxera o isqueiro consigo). Acendeu-o. A pequena chama iluminou precariamente a horrenda figura de um ancião esquálido, esquelético, sentado de um modo lúgubre sobre uma pilha de ossos e vestido com uma sotaina suja e em farrapos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele velho em estado lastimável estava ali, encostado a parede, um olho arregalado, o outro horrivelmente vazado, como se tivesse sido perfurado por algum tipo de ferro em brasa. Dito ancião lembrava uma daquelas vítimas do nazismo, presas em campos de concentração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num sussurro sofrido, ele disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu nome é Capobianco. Lucas Capobianco...o padre desta cidade de condenados... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se fosse um fantasma ensandecido e foragido das sombras do grande Além, o sacristão Eliphas percorria as ruas nevoentas e frias de Brumália, a cidade dos horrores e dos mistérios infernais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claudicando, ele resolveu esconder-se no velho cemitério nos arredores da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso descansar e dormir...Estou cansado demais...Meu corpo está todo dolorido, fatigado... Ó senhor Deus, dai-me forças!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora a necrópole estava a sua frente. Ele então forçou o alto e enferrujado portão, empurrando-o entre um e outro gemido. A dobradiça gemeu mais alto que ele, gemeu mais alto que uma alma queimando no eterno fogo do inferno. E logo ele entrava no cemitério, atravessando a alameda nevoenta, sinistra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um jazigo ali perto. Era como uma estranha capelinha de mármore que descia chão abaixo como uma cripta. Ele entrou na pequena edificação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria o esconderijo perfeito onde pernoitaria com segurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No interior do recinto, muitos túmulos; provavelmente o jazigo formava uma grande cripta de uma rica e excêntrica família de Brumália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso que aqui seria o último lugar que aqueles malditos devoradores de carne e alma humanas me procurariam, pois acredito que eles não sejam necrófagos!, pensava Eliphas, enquanto descia a estranha construção, rumo ao subsolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliphas abriu a laje de um dos túmulos com o auxílio de uma pá coberta de pó e teia de aranha que encontrara nas imediações, provavelmente deixada ali pelo esquecimento e pressa de um coveiro, que muito provavelmente acabara morrendo nas mãos daqueles malditos que vieram com as névoas!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia restos mortais de um homem, um velho esqueleto quase que totalmente esboroado e carcomido pelo passar dos anos, no interior do ataúde. No entanto, Eliphas não o temera mais que os devoradores de carne humana de Brumália. Os mortos, acreditava Eliphas, eram mais inofensivos do que aqueles que vieram com as névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliphas procurou acomodar-se ali mesmo, dentro do grande caixão, entre os ossos do defunto, pois o caixão era realmente muito grande, e a julgar pelo tamanho dos ossos, o morto tinha sido muito gordo e alto em vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliphas puxou a lousa com a mão, encerrando-se ali, naquela cripta horrenda, dentro do estranho ataúde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele cochilou por breves instantes, e esperou que com o sono viesse o bálsamo dos sonhos, e com eles, quem sabe, com um pouco de sorte, a benção de Deus, ou seja, uma morte tranqüila, sem muito estardalhaço. Quem sabe um aneurisma, por exemplo... Porém ele logo despertou subitamente. Algo dentro de si dizia que alguém se aproximava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sacristão Eliphas esbugalhou os olhos, ali, no interior abafadiço e terrivelmente mal-cheiroso da cripta ou jazigo. E o seu coração começou a bater mais forte, cada vez mais forte, mais rápido, acompanhando o ritmo alucinante do medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus são eles, os que vieram com as névoas, os malditos devoradores de carne e alma humanas! Só podem ser eles!, Eliphas especulou, engolindo em seco, o coração batendo tão forte, agora, que poderia acordar até mesmo o carcomido (e quase reduzido a pó) esqueleto ao seu lado, dentro do caixão. Eliphas chegou até a cogitar se o bater alucinado de seu coração não seria ouvido também pelos que se aproximavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eles postaram-se ao lado do caixão em cujo interior escondia-se Eliphas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então o sacristão sentiu que não eram aqueles que ele pensara que fossem. De algum modo ele sentia isso agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, meu Deus...Quem seriam?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Altivo, um deles ergueu o estranho báculo ou bastão que segurava. Era parecido com um cajado, mas na verdade era um magnífico caduceu. Mais precisamente, o magnífico Caduceu de Mercúrio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão que o empunhava fez o que pareceu ser um gesto ou passe de magia com o Caduceu de Mercúrio. E então os olhos brilhantes e escuros do estranho dirigiram-se para a laje do túmulo naquelas catacumbas tétricas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A laje começou a mexer-se como que movida por alguma força invisível e sobrenatural. Depois ela deslizou para o lado, abrindo lentamente o túmulo. E depois aconteceu a mesma coisa com a tampa do ataúde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eliphas empalideceu e arregalou os olhos a ponto deles quererem saltar das órbitas como dois pequenos frutos horrendos de sua cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhando aqueles estranhos com inimaginável assombro, Eliphas gaguejou, a língua enrolada pelo medo, num murmúrio quase inaudível:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Acho que vocês não são exatamente aqueles que vieram com as névoas!...Quem são vocês, afinal?...E o que querem de mim?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta veio através de uma emissão de pensamentos, uma espécie de defluxão psíquica de palavras em uma linguagem colorida e muito mais eloqüente que a limitada palavra humana. Tal resposta viera de um daqueles estranhos humanóides de semblante sempre austero e de tez tão lívida quanto a de um cadáver. De seus terríveis e altivos olhos, negros como os precipícios asquerosos do inferno, pareciam chispar poderes ocultos além de qualquer sonho ou fantasia elaborados pela pueril mente humana. Poderes indescritíveis, nascidos de mistérios milenares cultivados por uma outra evolução de seres:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu nome é Gamangelaf, membro da Sagrada Ordem dos Nirmanakayas. Os outros dois a meu lado são meus irmãos Ganganvi e Ganvi, também pertencentes à irmandade espiritual. Nós viemos de uma outra realidade, uma realidade muito superior a tua, humano. Zelamos pelo bem e pela ordem no primitivo e baixo mundo onde os homens se consomem e se arrastam nos lamaçais das mais vis paixões, até a transição chamada morte. Nossa sublime missão é policiar espiritualmente este orbe insano povoado por infelizes e desgraçados, para que não sucumbam ante as forcas do mal, e não mergulhem o planeta inteiro definitivamente nas trevas geradas pelas egrégoras do inferno e do caos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um calafrio de medo atravessou o corpo de Eliphas como um punhal invisível de medo. Era um medo gerado pela certeza de que forças desconhecidas estavam agindo, ultrapassando os limites da sua sanidade mental, apavorando-o terrivelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estranho humanóide continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viemos buscar de tua mente algumas informações acerca do que anda acontecendo de ruim nesta cidade de desgraçados. Enfim, estamos convictos de que forças deletérias foram inadvertidamente liberadas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não! Vocês estão dominando minha mente! Vocês são da mesma laia daqueles que vieram com as névoas, os malditos devoradores de carne humana, parasitas que se apossam das mentes, dos corpos e dos espíritos das pessoas! Deixem-me em paz, seus malditos anjos do inferno! Deixem-me em paz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sacristão Eliphas fez uma pausa para pensar no que diria e no que faria, então saltou para fora do túmulo, meio azougado, pegando a pá que encostara por ali, e segurando-a como quem segura uma espada, avançou alguns passos, sempre com o instrumento em riste, gritando veementemente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sabem de uma coisa? Vou mandar todos vocês de volta para as covas mofadas do inferno de onde saíram, e acabar com essa loucura toda! A santa cólera divina vai agir através de mim, agora!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o semblante ainda mais draconiano que de costume, Gamangelaf avançou também:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu não irás fazer absolutamente nada além do que te solicitamos que seja feito, humano simplório e ensandecido, verme infeliz das baixas plagas dos mundos materiais. Rogamos-te para que deixes a voz da razão suprema de teu Real Ser falar em ti, mesmo que por breves instantes, para que não te deixes levar pelas forças negras geradas pelo teu próprio ego inferior!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar do estranho ser agora emitia uma espécie de brilho hipnótico, uma chispa mística fantástica, extraordinária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um leve toque na região de teu chacra frontal será o suficiente para que seja ativada a tua glândula pineal semiatrofiada, mesmo que por alguns míseros segundos, de modo que possas então elevar momentaneamente a tua consciência e possas compreender toda a nossa sagrada missão aqui neste desprezível mundo inferior, bem como nosso desejo de informações que somente tu podes fornecer neste presente átimo!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gamangelaf tocou-lhe a fronte com a extremidade em forma de pinha de cristal do báculo mágico que segurava, o formidável Caduceu de Mercúrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estranho raio de luz azul desprendeu-se como um pequeno relâmpago da pinha de cristal na ponta do Caduceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, de repente, a testa de Eliphas pareceu queimar numa chama invisível, atravessada por uma espécie de eletricidade espiritual magnífica. E então Eliphas sentiu, por míseros instantes (instantes esses que lhe pareceram eternidades) sua mente libertar-se de todas as amarras aviltantes dos mais imundos e pérfidos desejos mundanos socados em seu ego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, com uma suavidade e mansidão, e com os olhos fixos e arregalados estranhamente, como que num transe ou êxtase estupendo, Eliphas falou aos três humanóides idênticos como trigêmeos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, agora eu compreendo, queridos irmãos na luz, agora eu dissipei minhas trevas interiores e compreendo tudo...E responderei a tudo que vocês quiserem saber, com toda a candura de minha alma liberta, nestes instantes inolvidáveis de suprema liberdade espiritual!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por Cristo e seus discípulos!...Você...Você é o verdadeiro e sublime enviado, o magnífico campeão da renúncia!...Sim!... O portentoso recipiendário da luz que libertará Brumália das névoas frias e venenosas do Mal!... Eu posso sentir isso por intuição! – era o velho padre Capobianco que falava, a voz muito fraca, trêmula, quase sumindo no silêncio daquele porão aterrador imerso em sombras sinistras. - Eu sabia que você viria um dia, cedo ou tarde. Está escrito, nas páginas mofadas porém reveladoras do terrível livro chamado Chartapaciu Infernale, que quando os horrores sobrenaturais forem liberados, infestando a esfera física, somente um jovem de coração puro poderá derrotá-los!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda olhou-o com um misto de piedade e curiosidade. O velho estava quase morrendo, parecia recolher todas as suas últimas energias vitais para entabular aquela conversa, revelar seus segredos espantosos, todos os prodígios ocorridos naquela cidade esquecida e misteriosa chamada Brumália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não estou entendendo muito bem, velho. Mas devo dizer que já ouvi falar deste tal Chartapaciu Infernale, embora saiba pouca coisa deste terrível e antigo livro. É um livro de magia e conhecimento oculto. Li alguma coisa na biblioteca da Universidade de Sargácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele é muito mais que um mero livro antigo, filho. São páginas negras escritas por uma mente que ousou ver coisas que nenhum mortal viu sem deixar de enlouquecer. É uma filosofia oculta e uma ciência mágica, uma extraordinária coletânea de pensamentos de uma sabedoria secreta perdida nas trevas imemoriais do tempo. No lendário Chartapaciu Infernale se encontram fórmulas mágicas, mistérios esotéricos impronunciáveis que levariam a loucura uma mente frágil, conjurações infernais, verdades acerca de deuses e demônios inomináveis que um dia, na aurora dos tempos, vagaram na Terra. Esse livro foi escrito por um mestre das ciências ocultas de uma civilização praticamente ainda desconhecida pelos historiadores, um mago e eremita chamado Oyregor Oyrevlis, e traduzido para o nosso tempo por um nefelibata e aventureiro que usava o bizarro pseudônimo Kryal Aurosang Lobsobindo. Enfim, tal livro é muito mais que um mero grimório...É um compêndio que encerra segredos místicos milenares de alta magia!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Confesso que ainda estou tendo dificuldade em compreender toda essa história fantástica, que julgo, no íntimo, tratar-se de pura histeria coletiva dos habitantes desta estranha cidade... Do que está falando, afinal, velho? – falou Bombarda, ajeitando-se melhor sobre a pilha de ossos humanos, esquecendo-se por instantes da dor que sentia no tornozelo que fora mordido pelo suíno terrível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Falo de uma grande missão, filho. Uma grande e sacrossanta missão que salvará Brumália e o mundo das névoas do inferno. Missão que somente você poderá cumprir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda o olhava com assombro e piedade. O velho padre parecia lutar contra a morte. Não morreria sem contar toda a sua fantástica história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provavelmente o velho deve ter enlouquecido por ter ficado preso aqui, neste maldito porão, em meio aos ossos de gente da cidade, gente que provavelmente ele conhecia muito bem. Este fedor insuportável e nauseante enlouqueceria até um abutre, pensou Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho prosseguiu seu discurso inacreditável, em tom ainda mais débil, quase num sussurro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora tente compreender: aquela família que nos aprisionou aqui, não é necessariamente uma família de psicopatas antropófagos, como você erroneamente deve ter presumido. É muito pior que isso, meu filho. Vai parecer fantástico e irreal demais, mas você tem que acreditar. Sei que para um cérebro são assimilar tudo aquilo que vou dizer pode parecer difícil, mas acredite em mim. Tudo que eu vou dizer é verdade, e só a verdade, meu filho, liberta. Eles, os que vieram com as névoas, não são humanos. Possuíram os corpos físico e astral de Sideraldo e sua família. Dominaram suas mentes simplórias. Explico melhor: aquela pobre e infeliz família está possuída por poderes malignos e sobrenaturais muito além da hodierna compreensão humana. Não reparou nos olhos deles?... São forças demoníacas, larvas obsessoras que evoluem, que se apropriam das mentes mais simplórias ou predispostas a certas neuroses, advindo como corolário uma vivência mútua numa espécie de megasimbiose mística com os corpos hospedeiros, tornando-os seres ab-reptícios, possessos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas que loucura é essa? – fez Bombarda, os olhos arregalados demonstrando um espanto e um assombro tremendos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este porão, além de prisão, como pode ver, é um depósito de restos mortais de pessoas que moravam na cidade e que foram devoradas ou semidevoradas. A carne humana, para essas criaturas, é como se fosse uma ambrosia diabólica dos deuses das trevas do inferno, e o sangue humano é como um vinho capitoso e inebriante das vinhas que para eles são os corpos humanos. Este porão é uma espécie de despensa-cripta daqueles endemoninhados lá de cima, mais precisamente dos seres que os possuíram, e que se alimentam da energia psíquica e vibracional desprendida da carne e do sangue humano. Praticamente toda a população da cidade está aqui. Alguns poucos, como o sacristão Eliphas, conseguiram fugir, vivendo escondidos ou fugindo por aí, como ratos assustados e enlouquecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombrio, Pandolfo Bombarda falou, cofiando o ralo cavanhaque e apertando os lábios, pensativa e apreensivamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Continue, padre. Sua história é realmente fascinante. Conte-me mais. Conte-me como tudo começou, isto é, como esses “demônios” vieram parar em nosso mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho respirou fundo, continuando a reunir suas derradeiras forças, depois continuou num sussurro sinistro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ouça-me, rapaz...Tudo começou exatamente há cerca de um ano e meio. O Natal se aproximava, eu me lembro. Era uma noite de tempestade violenta em que o mundo parecia desabar. Então um raio fortíssimo caiu na encosta de uma das muitas colinas arborizadas que circundam Brumália, abrindo com violência estrondosa a entrada oculta de uma caverna de tempos imemoriais. O estrondo foi tão forte que acredito ter sido ouvido por toda a cidade, chegando mesmo a quase arrebentar meus tímpanos e estilhaçar algumas vidraças, como pude constatar logo depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pela manhã, quando a tempestade cessou e o sol magnífico brilhava intensamente como o olho de Deus no céu azul, o jovem chamado Sideraldo , aquele mesmo dos lábios leporinos, que então havia ido pescar, encontrou casualmente a entrada da caverna, aberta pelo desmoronamento causado pelo raio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Curioso, Sideraldo resolveu entrar. As pedras que lacravam a caverna, despedaçadas pelo raio, ainda fumegavam, chamuscadas. Você deve estar se perguntando como sei disso. Digo-lhe que pude vê-lo porque, coincidentemente, eu e meu sacristão, o bom amigo Eliphas, coincidentemente também tínhamos ido pescar naquela oportunidade. Um de nossos passatempos era a pesca. Além disso, eu estava animado, pois Eliphas me dissera que os peixes abundariam ali, após a noite de chuva intensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ocultos atrás de arbustos, eu e o sacristão Eliphas esperamos Sideraldo entrar na caverna, para depois segui-lo sem que ele percebesse. Lá dentro, nos escondemos atrás de algumas folhas e estalagmites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu e Eliphas não pudemos deixar de ficar assombrados com o que víamos. Deus do céu, tudo aquilo era fantástico e assustador demais. Ali, no interior daquela caverna perdida, havia uma espécie de cripta fantástica, algo como uma imensa tumba coberta por sombras milenares. Sim, acredito que éramos os primeiros a entrar ali, após milênios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A escassa luz que penetrava caverna adentro pela entrada arrombada pelo raio da noite anterior tornava aquele lugar ainda mais mágico e tétrico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por um instante, eu e Eliphas rendemo-nos, extasiados ante a beleza arcaica daquele abscôndito recinto. Principalmente quando vimos aquela pequena piscina ou lagoazinha de águas de uma cor azul-turquesa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sideraldo, por sua vez, também parecia estar num estado de deslumbramento ante a maravilha misteriosa e antiga daquele mausoléu insólito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então, como se entregando a sedução e encanto que o lugar lhe inspirava, Sideraldo largou os apetrechos de pescaria, despiu-se e, sorridente, resolveu banhar-se nas águas convidativas da pequena lagoa encantada, entregando-se com prazer à sua limpidez e mornidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sideraldo nadou e brincou nas águas tépidas da pequena lagoa fantástica, chapinhando-as com uma alacridade pueril típica de indivíduos oligofrênicos. A certa altura, talvez vencido pela curiosidade e resolvendo investigar um pouco mais, ele mergulhou fundo, explorando as profundezas cristalinas da piscina natural ou pequeno lago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu e Eliphas chegamos a ficar apreensivos, porque Sideraldo estava demorando a vir à tona; temíamos que ele estivesse se afogando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando, por fim, ele subiu à superfície, vimos que Sideraldo trazia consigo algo entre as mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sideraldo encontrara, provavelmente sob alguma pequena rocha subaquática ou mesmo semi-enterrada na areia, uma espécie de estranha caixinha ou estojo, um objeto meio carcomido e sujo pela ação da água e do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tratava-se, como viríamos, a saber, posteriormente, através da leitura das páginas negras do terrível livro chamado Chartapaciu Infernale, do lendário Cornimboque Místico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O rapaz de nome Sideraldo sentou-se na beira da pequena lagoa azul, examinando com muita perquirição o estranho estojo. Curioso, Sideraldo começou a sacudi-lo vigorosamente, junto ao ouvido, tentando, através de ruídos, averiguar se havia ou não algo em seu interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mesmo não ouvindo nada, Sideraldo resolveu abri-lo assim mesmo, a força, batendo-o contra a ponta de uma estalagmite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que Sideraldo desconhecia era que o Cornimboque Místico fora colocado lá, eras atrás, por seres superiores chamados Nirmanakayas, numa época assaz distante, que precedeu esta nossa decadente e sórdida civilização. Eu e Eliphas ficamos sabendo disso através de leituras que fizemos no extraordinário e assustador Chartapaciu Infernale.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No interior do tal Cornimboque havia um pequeno frasco de cristal, com uma espécie de rolha de chumbo em forma de caveira humana. Dentro do dito frasco flutuava algo como uma estranha névoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A tal névoa tinha sido colocada lá pelos sublimes Nirmanakayas, os seres de que falei, criaturas não-humanas mais elevadas moral e espiritualmente que nós, tolos e míseros mortais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fale mais sobre esses seres...- pediu Pandolfo Bombarda, a curiosidade parecia uma comichão em seu cérebro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oh, sim! Os fabulosos Nirmanakayas!... Eles são espíritos gloriosos, de um alto sistema de evolução. Eles são como vigilantes ou auxiliares da evolução humana, uma espécie de milícia celeste na guerra contra o Mal, nas Rondas Evolucionárias dos humanos. Os Nirmanakayas são como arcanjos oriundos de um outro plano de existência, um mundo extrafísico, uma dimensão invisível fantástica que coexiste com a nossa. É raro que seres tão elevados se manifestem fisicamente em esferas tão inferiores quanto a nossa, mas quando o fazem é por piedade de nós, tolos e insanos animais humanos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na caverna, ao abrir o frasco, parte da névoa e alguma coisa nela, saiu de repente, infiltrando-se pelas narinas do jovem Sideraldo, que tossindo desesperadamente, parecia estar sendo asfixiado. O restante das frias névoas que não penetraram nas narinas de Sideraldo começou a se espalhar, expandindo-se, e logo viria a cobrir, como um gigantesco manto, a cidade inteira também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Logo depois, como num transe diabólico, o rosto de Sideraldo crispou-se todo, num esgar de fúria dantesca, seus olhos tornando-se estranhamente fosforescentes. Caiu no chão e, por minutos, foi acometido por uma espécie de ataque epilético. Depois levantou-se e, completamente possesso, foi para casa, onde soltou com uma baforada um pouco das névoas do frasco do Cornimboque Místico, as quais haviam penetrado em seu organismo; soltou bem na altura do rosto de sua mãe e de sua irmã, fazendo com que ambas também ficassem possuídas por aquelas coisas horrendas e nefastas que vieram com as névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Deus, que história! É simplesmente inacreditável, padre – falou Pandolfo Bombarda, fascinado e ao mesmo tempo temeroso com o relato assombroso. Bombarda, com os olhos arregalados, ainda quis saber: - E quanto a essas entidades demoníacas do frasco do Cornimboque Místico, ainda não entendi de onde exatamente vieram, afinal de contas, padre?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tente compreender uma coisa, meu jovem: em verdade, trata-se de criaturas elementais artificiais, e não demônios propriamente ditos. São criaturas de extremo poder e virulência, seres gerados pelas formas-pensamentos de magos negros terríveis e maléficos. Criações nefandas geradas pela essência elemental que rodeia todos os seres humanos, e que é suscetível à influência do pensamento humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando se é iniciado em ciências ocultas, é possível apoderar-se da matéria plástica elemental e moldá-la em formas-pensamentos-de-desejo num ser de forma apropriada”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Meu Deus! Toda essa terrível história, tudo isso que me relatou, enfim, simplesmente é inacreditável demais! É fantástico demais! – falou Bombarda, incrédulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fantástico?...Tudo neste mundo é fantástico, meu jovem. A vida e a morte não são fantásticas? A realidade, a imaginação, os devaneios, a fantasia, o pensamento humano e a própria matéria não lhe parecem mágicos? Tudo é magia, filho. Tudo é mágico, até mesmo a matéria. No fim das contas, somos todos magos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O senhor não deixa de ter razão. Às vezes, penso: o que é real, de fato? Os sonhos são mais reais que a realidade? Qual a diferença entre os dois?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Talvez não haja nem sonho e nem realidade, filho. Talvez haja só mudanças de percepção. A alma é quem governa tudo, o espírito é quem cria os corpos e os mundos. A carne é só um instrumento da alma. E a vontade, como uma coroa soberana, reina sobre tudo e todos!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora, me explique uma coisa, velho...como o tal Cornimboque veio parar na caverna?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A caverna nada mais é do que uma imensa cripta e calabouço, um ossuário e uma prisão. Entenda. Segundo o que está escrito nas páginas do abominável Chartapaciu Infernale, outrora, em tempos antiqüíssimos, os Nirmanakayas aprisionaram as entidades sinistras, selando-as nas profundezas da caverna. Esses elementais artificiais foram criados por magos negros poderosíssimos de um passado remoto e que um dia perderam o controle sobre os mesmos, os quais, então passaram a ter uma existência espiritual nômade, de corpos em corpos, de hospedeiros em hospedeiros. Até que, por acaso, o raio estilhaçou a porta oculta da caverna. As entidades aprisionadas no Cornimboque necessitam de sacrifícios humanos para se fortalecerem, sendo a antropofagia provocada nas mentes possuídas da família de Sideraldo e dele próprio, um modo das terríveis criaturas atraírem novas vítimas de holocausto. Além disso, os possuídos servem também de abrigo e veículo físicos seguros para seus propósitos nefandos e rituais de pura maldade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como disse, os Nirmanakayas conseguiram aprisioná-los durante eras, mas agora, com o raio abrindo a cripta, eles estão mais uma vez libertos, e de posse das mentes e dos corpos da família que aqui nos aprisionou, preparam uma nova Idade de Trevas para a Terra. A cidade de Brumália foi posta numa espécie de limbo entre as muitas dimensões, mais precisamente num mundo onde a matéria toma uma outra configuração atômica e molecular, transmutando-se extraordinariamente, através de uma outra freqüência consciencial, em matéria semi-etérica ou semi-física, numa outra graduação incompreensível demais para nós humanos, e este esconderijo, este outro mundo, é como um abrigo seguro para os entes malignos, também servindo para atrair novas almas, vítimas no plano físico. De tempos em tempos, então, o portal maldito das névoas infernais abre-se, permitindo a entrada e saída dos elementais artificiais hospedados nos corpos daqueles infelizes. Sei de tudo isso, como já disse, porque li no extraordinário e assustador compêndio chamado Chartapaciu Infernale, que pode ser encontrado na biblioteca da sacristia. Neste mesmo livro fiquei sabendo do único jeito de um ser humano destruí-los. Isso só é possível seguindo-se determinado ritual de magia. Além disso, é preciso contar com a ajuda dos magnânimos Nirmanakayas!...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Então há um modo de aprisionar outra vez essas criaturas macabras? – inquiriu Pandolfo Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Com certeza. Uma vez recitada as palavras mágicas e completado o ritual esotérico, aprisiona-se novamente as entidades artificiais no Cornimboque Místico, e então as névoas se dissipam, ou melhor, voltam ao frasco. Brumália ficaria livre, então, e voltaria a ser o que era antes, uma pacata cidadezinha do interior, situada totalmente no plano físico. Dito isto, é preciso que você, e somente você, fuja daqui, agora, e vá até a biblioteca da sacristia. Lá você irá encontrar o lendário Chartapaciu Infernale. O Cornimboque vazio eu o apanhei do chão da caverna, e também está lá, junto do livro proibido, no nicho que serve de cofre, que fica atrás de uma reprodução de um quadro de Bosch. Eliphas tentou pegar o livro, mas foi detido antes; torturaram-no para que confessasse o que pretendia fazer e onde estava o livro, e resistindo extraordinariamente, conseguiu fugir dos elementais artificiais no dia seguinte. Provavelmente Eliphas deve ter enlouquecido com isso tudo...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas...como fugirei daqui, velho? Estou com a perna ferida...- disse Bombarda, ainda sentindo dores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tente suportar a dor da perna, filho. O mundo corre perigo. Agora, vá! Há uma saída embaixo daquela pilha de ossos – e o velho apontou o lugar com o queixo -...Foi cavado com pontas de ossos por Eliphas às escondidas, antes de fugir daqui. Não fui com ele porque, como vê, estou fraco e velho demais. Vá, pois o tempo urge!... Mas, antes de cumprir sua missão e assumir o seu destino, peço-lhe que me conceda um último desejo: MATE-ME, filho!... Sim, isso mesmo: Mate-me, eu lhe imploro!... Como vê, estou no fim... Não sei como consegui ter forças para revelar-lhe todo o mistério e horror de Brumália. O esforço foi quase sobrenatural. Eles me torturaram, rapaz, me trataram com sevícias inimagináveis. Meus braços e minhas pernas estão tortos assim porque foram quebrados, e gangrenas apodrecem quase meu corpo todo. Acho que as surras afetaram até algumas vértebras de minha coluna, pois não consigo me mexer muito. Talvez eu não ande nunca mais, a não ser, é claro, quando estiver com meu corpo glorioso no Reino de Deus. A dor que sinto é terrível, e só com muito controle mental e orações consigo resistir sem enlouquecer. Porém, acredito que minha mente sucumbirá dentro em breve, afundando nos mares negros e infinitos da loucura. Oh, não deixe que eu enlouqueça antes da morte!...Além disso, esqueci de dizer que não durmo faz dias, pois os pesadelos que tenho são tão infernais que não posso descrevê-los com palavras humanas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Fique tranqüilo, padre. Darei um jeito de tirar o senhor deste porão do inferno. Acharei um jeito de sairmos juntos daqui. E levarei o senhor a um bom médico...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, filho. Receio que seja demasiado tarde. Não alimente ilusões infantis de um final feliz para mim. Compreenda que eu seria um peso durante a fuga, e você precisa cumprir sua missão como recipiendário do conhecimento esotérico, guerreiro místico na luta contra aqueles que vieram com as névoas!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma pausa sepulcral. O velho fitou-o nos olhos com um fio de esperança, depois falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora ouça: faça o que deve ser feito. Pegue aquele fêmur lascado em forma de punhal - o padre apontou para o osso pontiagudo que estava ali por perto – e crave-o em meu peito!...Sim, filho...MATE-ME!...Agora!... É necessário! Não me deixe aqui, para servir de alimento para aqueles vermes espirituais desprezíveis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas...Padre, o senhor sabe, como bom sacerdote cristão, que não posso tirar a vida de ninguém, principalmente de um padre inocente, como o senhor. Não posso cometer um pecado destes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Compreenda-me! Estou velho demais e num estado semivegetativo, como pode ver. Vamos, liberte-me! Conceda-me a liberdade da alma, eu lhe imploro! Conceda-me a liberdade da morte! – o padre baixou a cabeça, em prantos e soluços. Estava quase a mercê da loucura. – Misericórdia, é o que lhe suplico, filho...MATE-ME!... Vamos, mate-me!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por instantes, Bombarda hesitou. Refletiu que talvez a mente do velho estivesse sucumbindo de vez nos abismos negros da insanidade. Pensando melhor, talvez ele tivesse razão. Então, engolindo em seco, Pandolfo Bombarda decidiu-se, olhando o sacerdote com um misto de piedade e medo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que Deus me perdoe, padre...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele o perdoará, filho. Ele o perdoará...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho padre ainda teve tempo de dizer uma última frase, com um sorriso ligeiro de gratidão desenhado nos lábios encarquilhados e ressequidos, antes de morrer com o fêmur quebrado e pontiagudo fincado em seu corpo, o qual foi desferido por Bombarda num único golpe. A arma improvisada foi fincada pelas mãos trêmulas e vacilantes do jovem no velho coração do padre, e agora ele estava prestes a atravessar as fronteiras da morte. E a frase que o sacerdote pronunciou antes de morrer para este mundo foi: “Deus o abençoe, filho...Deus o abençoe...”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda arrastara-se até o monte de ossos perto da parede, indicado pelo padre que ele acabara de matar (ou libertar?). Descobrira, após espalhar as ossadas, que de fato havia um pequeno túnel escavado debaixo do assoalho, o qual levava para fora da casa. Por fim, com extrema dificuldade, atravessou o túnel escuro e saiu nas ruas da cidadezinha imersa em gélidas névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou pelo coreto na praça abandonada, rumando até o adro ao redor da igreja, até finalmente alcançar a sombria sacristia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrombou a porta da casa com um chute forte, os dentes trincados segurando a dor do ferimento da outra perna, sobre o qual ele colocara uma faixa do tecido rasgado de sua camiseta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Prosseguiu, claudicando um pouco, seus passos soando no silêncio assustador do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Observou os paramentos e demais objetos de culto largados por ali. Havia uma desarrumação total. Tinha-se a impressão clara de que alguém estivera ali fazia pouco tempo procurando por algo muito importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Pandolfo Bombarda viu a porta da pequena biblioteca, e ali entrou, acionando de imediato o interruptor, iluminando o lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cadê o quadro de Bosch?”, pensou, inquieto, olhando para um lado e outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente seus olhos o encontraram. Ali estava o magnífico quadro, atrás de uma escrivaninha. Era uma reprodução perfeita, em forma de pôster, de uma obra de Bosch, “Cristo carregando a cruz”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda retirou o quadro, colocando-o no chão. Havia um nicho bem atrás. Era uma espécie de pequeno cofre, sem segredo na fechadura. Abriu-o. Em seu interior encontrava-se aquele livro assustador, o lendário Chartapaciu Infernale, contendo segredos terríveis que, se lidos por uma mente frágil ou desequilibrada, poderia facilmente levar aos abismos negros da loucura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perto do livro, estava o fabuloso Cornimboque Místico. Então Pandolfo Bombarda apanhou o livro e o Cornimboque, depositando-os cuidadosamente sobre a escrivaninha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda puxou a cadeira e começou a folhear o dito compêndio, um dos poucos exemplares restante na face da Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente ouviu um ruído que vinha do pequeno saguão da sacristia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rapidamente meteu o Cornimboque no bolso da jaqueta, depois fechou o livro antigo de capa preta e dura, sobraçando-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechou a porta da biblioteca, passando a chave, para que pudesse evitar que entrassem no local. Agachou-se, ocultando-se ao lado da escrivaninha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Registrou-se um novo barulho. Passos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda viu, pela fresta debaixo da porta, a sombra deslizando lá do outro lado. Quem seria?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maçaneta foi girada e forçada por várias vezes, com brusquidão e ímpeto. Depois houve uma breve pausa, um silêncio terrível e assustador, quebrado apenas pelo bater amedrontado do coração do próprio Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De súbito, a porta começou a ser forçada com violência e estrépito, e logo a seguir ela começou a ser estilhaçada furiosamente pela lâmina de um machado assassino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo a porta foi arrombada com violência e força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era Sideraldo, o possuído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda então decidiu que não iria ficar ali, escondido, à espera do possesso; não, iria enfrentá-lo num corpo-a-corpo, se conseguisse primeiramente tirar-lhe o maldito machado, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Irá se arrepender de ter fugido, humano tolo! Vou devorá-lo vivo, aqui e agora!... – era a coisa horrenda falando através das cordas vocais do possuído Sideraldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sei exatamente o que e quem você é! Sei que você ocupa o corpo deste infeliz! – bradou Pandolfo Bombarda. – O padre Capobianco me contou tudo antes de morrer!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, o padre!... – falou Sideraldo, sarcástico. - Capobianco sempre foi um tolo, aliás, como todos vocês, miseráveis mortais, são! Nós encontramos a alma do velho, perdida e confusa, nas sombras do plano astral, e ela nos confessou, mediante torturas místicas, como, por onde e porque você escapou!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que fizeram com o espírito do padre, seus demônios? Deixem-no em paz lá no reino dos mortos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele agora jaz na antecâmara do inferno, meu caro! – uma gargalhada diabólica e louca ecoou no recinto como se fosse uma trombeta do Hades. – Não há segredo que uma boa e derradeira tortura astral não consiga arrancar de uma alma cansada e abatida por sofrimentos místicos vários!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Seu desgraçado! – gritou Bombarda, com ódio e medo, pegando com uma mão a cadeira e lançando-a de encontro ao peito de Sideraldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o impacto violento, Sideraldo caiu ao chão, soltando o machado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então os dois se engalfinharam numa dramática luta corporal, numa farta e violenta distribuição de murros e pontapés, derrubando estantes e livros, e também a escrivaninha sobre a qual Bombarda colocara o livro místico e o Cornimboque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um soco forte e brutal desferido por Sideraldo lançou Bombarda contra a parede, fazendo o grande crucifixo de metal reluzente pendurado na divisória balançar e cair ao chão, próximo da perna do jovem esmurrado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda meio atordoado, Bombarda apanhou o crucifixo e levantou-se no exato momento em que Sideraldo se atirava sobre o jovem na intenção de agarrá-lo e matá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi só com a força nascida da raiva e de seu instinto de sobrevivência que Pandolfo Bombarda conseguiu segurar o crucifixo como se fosse um punhal ou espada, cravando a ponta do mesmo num dos olhos de Sideraldo, vazando-o horrivelmente, cegando-o por instantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo então levou a mão ao olho vazado, o qual sangrava em profusão. A dor curvara-o num urro terrível. E de algum modo a dor também atingira violentamente a entidade que o possuía. Havia liames místicos entre o possuído e a entidade que o possuíra, sem dúvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda aproveitou para pegar o Chartapaciu Infernale caído ao chão e fugir dali o quanto antes. Tinha que terminar de ler e estudar rapidamente o terrível alfarrábio a fim de poder exterminar posteriormente aqueles que vieram com as névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sozinho na biblioteca semidestruída pelo combate, Sideraldo arrancou o crucifixo e atirou-o ao chão com raiva, numa sucessão de urros ferozes. O olho vazado estava horrivelmente ensangüentado, o sangue escorrendo e sujando seu rosto, formando quase uma máscara rubra e horrenda. Ficou ali por alguns segundos, dizendo que iria arrancar o coração de Bombarda, comê-lo e depois vomitá-lo numa fossa qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, já recuperado, Sideraldo apanhou o machado do chão e saiu atrás de Bombarda, como um ciclope vingador do inferno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, lá, na praça deserta da cidade, Pandolfo Bombarda entrava naquele coreto com jeito de pérgula, abaixando-se e folheando o Chartapaciu Infernale, procurando entender o ritual e o encaminhamento para destruir os elementais artificiais. A grande lua cheia, com sua claridade sinistra, servia-lhe de imenso abajur.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco minutos escorreram lépidos pela inexorável ampulheta do tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, com o machado na mão, o agora caolho Sideraldo olhou o coreto e sentiu que Bombarda estava lá. Encaminhando-se até a pequena construção ele chocou-se inopinadamente com Eliphas, que vinha alucinadamente ao seu encontro, correndo por entre as névoas espectrais. Eliphas foi ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você!...Seu maldito ser das névoas do Além! – disse Eliphas, ao olhar Sideraldo de pé diante de si. – Foi bom encontrá-lo! Só assim terei o prazer de lhe dizer que seu fim está próximo, agora que os Nirmanakayas estão entre nós!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A simples menção da palavra Nirmanakayas fez com que Sideraldo arregalasse o olho restante, e, como um Polifemo em fúria negra, desferiu uma machadada violentíssima no alto da cabeça do infeliz Eliphas, que morreu amaldiçoando o caolho possuído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo então puxou a lâmina do machado, firmando seu pé no ombro de Eliphas, como um lenhador rude tira o seu machado fincado de uma tora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste exato instante, assomou na esquina próxima ao coreto, a mãe e a irmã de Sideraldo, que viram Bombarda com o Chartapaciu Infernale, folheando o livro, assombrado e absorvido numa leitura rápida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ali, Sid! Bem ali! Ele está agachado no coreto! – gritou a mãe, olhando para o filho, com certo júbilo rutilante nos olhos fosforescentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vai, Sid! Pegue o desgraçado! Você está mais perto do coreto que nós! Não o deixe fugir! Pegue-o! Estraçalhe-o! – gritou Florbela, histérica, o rosto crispado por uma onda avassaladora de ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sideraldo ouviu e pôs-se a ir à direção do coreto, o semblante iluminando-se com um quê de sinistro triunfo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda, assustado, talvez precisasse de mais tempo para compreender o ritual e o encantamento descrito no livro. Estava quase terminando. Estava lendo numa velocidade alucinante, agradecendo a si mesmo por ter feito, semanas atrás, um curso de leitura dinâmica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, subitamente, eles apareceram. Vinham levitando cerca de três ou quatro metros acima do solo, entre as brumas frias e pegajosas da noite das abominações. Pareciam três fantasmas flutuando fantasticamente nas névoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda parecia não acreditar no que seus olhos viam. Era fantástico demais, inacreditável demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Nirmanakayas levitaram até por sobre o coreto e, telepaticamente, um deles, o que se chamava Gamangelaf, disse, lançando o Caduceu de Mercúrio a Bombarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegai o Caduceu de Mercúrio, jovem recipiendário! Ele o ajudará a canalizar as energias místicas dentro de si, além de abrir teus chacras e tua visão espiritual. Com a vibração telepática que enviamos aos cristais minúsculos no cerne de tua glândula pineal, tua consciência espiritual superior abrir-se-á paulatinamente como uma flor dourada da alma, e como corolário, iniciar-se-á o teu intuitus mysticus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda apanhou o Caduceu que flutuara até sua mão como uma pluma tangida por ventos místicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sentiu uma espécie de onda energética ou eletricidade quente magnífica fluir através de sua coluna vertebral, até o alto de sua cabeça, formando ao redor dela uma espécie de auréola rutilante esplendorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda continuava sobraçando o Chartapaciu Infernale, e seu ferimento na perna sarara como que por encanto, não ficando nem cicatriz. Novas vestimentas surgiram-lhe sobre o corpo (uma roupa meio religiosa e meio militar). Uma jóia ovalada na cor verde-esmeralda havia aparecido, incrustada no centro de sua testa ( seria um símbolo físico de seu chacra frontal?).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boquiabertos, Sideraldo e sua família recuaram um passo ao verem o halo resplandescente que começava a tomar uma tonalidade dourada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele que se chamava Gamangelaf emitiu um pensamento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito bem, recipiendário! Agora deixe teu poder ígneo fluir no espírito. E em nome da deusa Kundalini, fazei aquilo que deve ser feito! Fazei a liturgia e o aprisionamento dos elementais artificiais no Cornimboque Místico!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Bombarda abriu o Chartapaciu Infernale com uma das mãos, enquanto segurava, com a outra, o Caduceu. Leu em voz alta e rapidamente alguns trechos que faltavam, fechando o livro abruptamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então aconteceu outra coisa extraordinária. Pandolfo Bombarda também levitou fantasticamente do coreto, passando pelos Nirmanakayas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ele sentia um poder inimaginável, indizível, pulsando dentro de si. Agora Bombarda sabia o que fazer e como fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, Sideraldo olhou-o zombeteiramente e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não vai querer matar estes corpos inocentes onde nos alojamos, vai?...Se você pretende nos aprisionar de novo no Cornimboque, vamos matar todos os corpos nos quais nos hospedamos!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O mundo precisa de mártires, seu demônio das fossas do inferno! É preciso que morram inocentes para que o Mal não prevaleça!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Pandolfo Bombarda apontou o Caduceu para ele e fulminou-o com uma fantástica rajada amarelo-avermelhada que brotou da extremidade do bastão indo na direção de Sideraldo, envolvendo-o numa grande e voraz chama, queimando-o, calcinando-o, carbonizando-o horrível e fantasticamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos restos fumegantes do cadáver evolou-se uma horrenda e densa névoa, ainda mais densa do que aquela que envolvia a noite maldita de Brumália. Era , com certeza, o elemental artificial que possuíra o infeliz Sideraldo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tal névoa macabra, assumindo feições grotescas, algo como um semblante iracundo e demoníaco, foi sendo sugada pelo frasco de cristal tirado do Cornimboque Místico que Bombarda retirara do bolso,sacando a rolha de chumbo e colocando a dita garrafinha sobre o livro aberto chamado Chartapaciu Infernale, que o jovem pusera diante de si, flutuando, levitando como um pequeno pássaro de asas abertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda então recitou palavras mágicas incompreensíveis, encantamentos milenares retirados do Chartapaciu Infernale.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a névoa de configuração bestial e horrenda foi completamente sugada pelo Cornimboque, assim como toda a outra névoa que envolvia a cidade inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo acontecera com Florbela e sua mãe, que mesmo correndo de medo, foram fulminadas pelo raio fantástico emitido pelo Caduceu de Mercúrio. Dos corpos calcinados das duas, as névoas das outras entidades tiveram o mesmo destino, sendo tragadas para o interior do frasco de cristal, fechado com a rolha de chumbo e depositado dentro do Cornimboque Místico, que por fim, foi fechado também por Pandolfo Bombarda e entregue a Gamangelaf.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não tínhamos mais permissão do Logos Cósmico de intervir a todo instante no Karma da humanidade, precisávamos de um recipiendário para que fizesse o trabalho por nós!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E agora? O que farei com esse poder mágico que faz me sentir quase como um homem-deus? E o Chartapaciu Infernale? E o Caduceu?... E o Cornimboque Místico?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Utilize-os com sabedoria na luta contra o Mal e suas forças deletérias, jovem recipiendário. Doravante serás um príncipe da Alta Magia, é bom que saibas. Estaremos sempre ao teu lado, em força e espírito, até que tua jornada no tapete negro da existência terrena termine. Mas lembra-te de que tudo foi apenas uma primeira parte na senda da iniciação. Ainda terás que levantar tuas sete serpentes de fogo de teu âmago e cumprir o que manda o heptaparaparshinokh!... Fique com o Caduceu e o Chartapaciu Infernale, pois serão de grande valia na tua senda iniciática. Todavia, levaremos o Cornimboque Místico com o frasco mágico de cristal em seu interior. Talvez o enterraremos numa cratera da lua ou de outro asteróide deserto e sem vida chamado Zlorgh. Adeus, recipiendário! Precisamos ir, agora, Príncipe da Magia!...Talvez voltaremos a falar contigo em sonhos, visões ou desdobramentos astrais...Amplexos e ósculos fraternais, recipiendário!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Adeus, meus mestres!... Adeus!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os três seres, girando paulatinamente em pleno ar, até formarem uma espécie de vórtice de luz espiritual magnífica, sumiram numa explosão fantástica, silenciosa e cintilante que enfeitou toda aquela noite mística em tons iridescentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pandolfo Bombarda sobraçou o grosso livro e, segurando o Caduceu, pousou , cessando sua levitação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corvo chamado Cega-rega pousara no coreto. Bombarda olhou-o e lançou um novo raio do Caduceu sobre o pássaro. Houve uma transformação fantástica na ave agourenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Epílogo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhando pelas ruas da cidade deserta, Pandolfo Bombarda montou no corvo agigantado pelo raio místico emanado do Caduceu de Mercúrio, como se montasse num cavalo alado, alçando vôo e sumindo no horizonte vermelho, aos primeiros clarões da aurora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bombarda pôs-se a pensar nas explicações que daria a estúpida Polícia sobre a morte de seus amigos, bem como o sumiço de quase toda a população de Brumália, se é que houvera um dia essa cidade fantástica com seus habitantes estranhos e soturnos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o poder mágico e espiritual que agora possuía, ele daria um jeito em tudo. Mas aí, como dizem os bons e velhos gandavos de outrora, já é uma outra história para ser contada, principalmente porque a terrível e fantástica aventura pela qual Bombarda passara tinha sido apenas o prelúdio de uma aventura ainda maior, pois de recipiendário a iniciado ou adepto das artes místicas, ele chegaria a ser o que simplesmente estava predestinado a ser: o Príncipe da Alta Magia, um mago e guerreiro das grandes hostes da Grande Fraternidade da Magia Branca!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-8410616038282661147?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/8410616038282661147/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=8410616038282661147' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8410616038282661147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8410616038282661147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/aqueles-que-vieram-com-as-nevoas.html' title='AQUELES QUE VIERAM COM AS NÉVOAS'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-7911054658285035123</id><published>2010-11-28T13:06:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:08:39.352-08:00</updated><title type='text'>ILUSÃO CARMIM</title><content type='html'>ILUSÃO CARMIM &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: MAGNUS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não bastasse a falta de eletricidade por causa do atraso em pagar a conta, o apartamento ficava em uma parte escondida do prédio, não lhe permitindo acesso à luz solar. Nesta penumbra vive Jonas Maldique, um escritor fracassado em luta pelo reconhecimento de sua obra. Já não recebe há semanas e tudo que faz agora é dormir por todo o dia embriagado em sua depressão. Há dois dias tudo que estava em sua pequena geladeira de solteiro se estragou, apenas contribuindo para seu enfraquecimento moral e físico. Mal podia pensar, tamanho era o cansaço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prédio onde habita é muito peculiar. Alto, muito alto, com muitos minúsculos apartamentos por andar. O andar em que morava era um dos mais altos, décimo quinto, havendo apenas mais dois acima deste. Nessa altura o barulho da rua era praticamente nulo. E analisando melhor, o prédio inteiro era um completo silêncio, como o interior de uma tumba. Não haviam vizinhos barulhentos assistindo a televisão; não havia passos indo e vindo no andar superior; nem crianças brincando no corredor. Pobres das crianças que fossem obrigadas a morar aqui. Aliás, pobres são todos os que devem morar aqui, pois não imagino descrição melhor para os habitantes deste horrível prédio. E pobre é Jonas Maldique, que nestes minutos passados estava pensando por que será que este prédio, com tantos apartamentos, e possivelmente tantas pessoas, era tão silencioso. Nunca ele havia escutado um barulho que fosse. Talvez todos ali estivessem como ele, eternamente dormentes. Não lhe surpreenderia isso. Não lhe surpreenderia que todos ali estivessem apenas esperando pela morte. Que ninguém sairia mais daquele prédio se não fosse dentro de um saco plástico. E que provavelmente ele seria mais um dentre todos esses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus pensamentos mórbidos foram interrompidos abruptamente quando algo lhe acertou a testa fazendo-o piscar algumas vezes instintivamente e libertando-o do transe hipnótico em que ele mesmo se colocara. Estranhou primeiramente que mesmo estando há tantos dias deitado naquela cama, olhando aquele teto, não havia percebido aquilo. Uma goteira? Bem em cima de minha cama? Isso não parece certo. O que é isto? Ainda aturdido por seus pensamentos e por sua fraqueza demorou a perceber a aparente macha negra sobre si. Uma mancha que se estendia por quase um metro de comprimento e meio de largura. E uma minúscula fração daquela mancha havia caído sobre ele em forma de gota. Uma pesada gota que o despertou de seus sonhos. Não. Isto não é uma goteira comum. Será vazamento de esgoto? Sem nenhuma dúvida pôde se sentir um cheiro. A gota, assim que se rompeu, exalou o seu mal-cheiro, mas este não parece ser o fedor seco e abafado de esgoto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Será mesmo?! Algo tão insólito quanto isto pode estar acontecendo? Com ninguém mais que este coitado que já agoniza seus últimos e tão próximos momentos finais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jonas teve força suficiente para arregalar os olhos, como que para ver melhor, como que para demonstrar sua surpresa para as paredes da casa. Quando uma segunda gota começa a se formar, e logo estando pesada o suficiente, se desprende da mancha, levando um pouco de sua essência; e Jonas grita. Grita grave e demoradamente, até as horas passarem e a gota lhe acertar. Ainda com os olhos (agora) fechados; é sangue, sussurra. Quem não perceberia este cheiro. E quando corajosamente abre os olhos, percebe que estranhamente a mancha antes negra agora assume um tom escuro de vermelho. Ele tenta se levantar antes da terceira gota se formar, mas não consegue. E não entende porque, seu corpo parece de chumbo, um peso incrível pousa em seus braços e pernas. Falha até mesmo em se arrastar. Grandessíssimo é o esforço que ele faz para virar a cabeça, mas nem isso ele consegue. Devia ter tentado sair antes, desperdiçou suas forças em um grito inútil, e agora está fadado à tortura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto tempo já se passou? Um dia, uma semana, semanas? Não se sabe. A escuridão do quarto/banheiro é eterna. Dias passam sem serem percebidos. Quanto tempo ficarei aqui?, pergunta. Já se passaram quantos anos? Seu corpo magro e desnutrido afunda na cama; seu rosto cansado e sua camisa respingados de sangue; seu colchão encharcado de fluidos; e o fedor que prevalece no ar, sendo respirado eternamente. Eternamente. Eternamente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-7911054658285035123?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/7911054658285035123/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=7911054658285035123' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/7911054658285035123'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/7911054658285035123'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/ilusao-carmim.html' title='ILUSÃO CARMIM'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-4092862822067344718</id><published>2010-11-28T13:04:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:06:01.539-08:00</updated><title type='text'>A morte mostra a saída</title><content type='html'>A morte mostra a saída &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autores: Mártin e Romeu &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muitos anos fui levar flores a meu tio que falecera em 1987 e que estava sepultado no cemitério situado nas proximidades de São Bento do Sul. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já era 18h30, final de tarde, meio distraído, não percebi o tempo passar, e quando me dirigi ao portão, havia um enorme cadeado trancando a saída. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que gritasse, ninguém me ouviria, visto que nesses cemitérios de cidadezinhas interioranas não se vê uma única pessoa a quilômetros de distância. Mesmo assim, de desespero gritei nervosamente agitando os braços. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto berrava, vi um grande vulto fazendo gestos como se estivesse me chamando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiramente, tentei pular o muro, mas no portão havia lâminas superafiadas, que provocaram cortes profundos em minhas mãos, das quais jorrava grande quantidade de sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cheiro do sangue se dissipava no ar, com isso a fera, que sentiu o odor, começou andar em minha direção como se quisesse fazer de mim o seu jantar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então comecei a correr para todas as direções como um louco. Em tudo que tocava, coisas como: cruzes, túmulos, anjos e altas vegetações ficavam vermelhos do sangue que escorria de minhas mãos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como corria em direção contraria ao vulto, procurava espantar o meu medo, esperando parar de correr e encarar a situação de frente, entretanto temia que se parasse algo de ruim iria acontecer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como confio em Deus, tinha decidido enfrentar o problema. Cada vez o vulto chegava mais perto; quando ele chegou quase a encostar em mim, puxou-me até um muro quebrado onde pude sair e ir para casa dormir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, tomado de coragem fui até o cemitério olhar o que ocorrera. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei lá e vi rastros de sangue que apontavam na direção de uma cova comum de vários escravos enterrados no ano de 1889. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-4092862822067344718?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/4092862822067344718/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=4092862822067344718' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4092862822067344718'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4092862822067344718'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/morte-mostra-saida.html' title='A morte mostra a saída'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-7881242226953290544</id><published>2010-11-28T13:03:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:04:41.593-08:00</updated><title type='text'>A NECROPSIA</title><content type='html'>A NECROPSIA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: PAULO SORIANO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontraram o que supunham ser o meu cadáver numa tarde  taciturna de inverno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Irremediavelmente morto.  Foi o que eles disseram.  E não poderia ser de outra forma, após   a constatação de que o meu corpo apresentava uma rigidez de pedra.  O meu coração congelara-se no peito e a minha respiração cessara de todo. Mas eu sabia que as coisas não eram bem assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Apesar da imobilidade  e da frialdade de  meu corpo, os meus sentidos estavam em alerta. Podia ouvir perfeitamente a movimentação em torno de mim. O médico abriu as minhas pálpebras, primeiro uma, depois a outra. Lançou contra as minhas pupilas um potente feixe  de luz. Pude ver que o médico era um camarada de meia idade,  pálido como um defunto. Tinha  cara de macaco.  O Dr. Orangotango cerrou as minhas pálpebras e me atirou  novamente na escuridão.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Senti quando me puseram num saco funerário e me conduziram a um rabecão. O automóvel começou a rolar. Desenvolveu, durante o trajeto, uma velocidade mínima. O  estado de torpor em que eu me encontrava aguçava incrivelmente os meus sentidos. Eu sabia que havia duas pessoas comigo.  E eram seres execráveis. Não davam a mínima para mim.  Ouvi  o que faziam.  O homem ensaiava umas preliminares enquanto o rabecão desfilava solenemente pelas ruas nevoentas da cidade.  Ele sugava as tetas da companheira enquanto esta  proferia obscenidades.  Sei que não há bondade alguma no meu coração. Sou  um ser detestável.  Mas, por pior que seja, não pude deixar de experimentar uma certa indignação com aquilo tudo.  E, ao final do trajeto, me veio  um prurido,  um desconforto palpável,  ao toque impuro daquele casal abominável  O carro finalmente parou e me puseram numa maca de rodas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Rolaram comigo. Fizeram algumas curvas e entraram num elevador.  Percebi  que a cabine descia celeremente. Pelo ruído que fazia, concluí que o elevador era muito velho.  Depois veio um tranco abrupto.  A porta da cabine  se abriu.  Intuí que estava defronte do corredor que conduzia a uma das salas de autópsia.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Há quem tenha um pavor irracional de ser enterrado vivo.  Mas os que assim pensam estão completamente equivocados. Desconhecem que  é muito mais provável que encontrem um fim doloroso sob o talho profundo e  presto  de um bisturi insalubre, em uma sala de autópsia. Ou que congelem lentamente numa daquelas asfixiantes câmaras frigoríficas.  Foi nisso que pensei quando puseram uma etiqueta no meu artelho esquerdo maior.  E me engavetaram naquele antro estreito e nauseabundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Eu bem sabia que não podia me mexer. Os músculos não obedeciam a qualquer comando voluntário. Naquelas circunstâncias, qualquer esforço seria  inútil. Deveria, pois, armazenar e conter  as energias para empregá-las num momento mais oportuno. Afinal, a   duração do estado de torpor era-me perfeitamente conhecido. Ora, qualquer um estaria desesperado naquela situação. Mas eu me mantinha extremamente calmo. Sereno até demais.  Sabia que muito brevemente me tirariam dali. Hoje em dia, a identificação dactiloscópica é fácil e segura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Notei  que a gaveta deslizava sob os rolamentos. Puseram-me novamente numa maca e, depois, depositaram o meu corpo rígido sobre uma superfície lisa e fria, provavelmente metálica. Alguém se aproximara de mim. Suspeitei que o Dr. Símio voltara para me retalhar com a sua destreza de macaco circense.  Mas estava enganado. Quem abriu e examinou os meus olhos foi um médico jovem. Um camarada imberbe que transpirava frivolidade naquele olhar impudico. Foi aí que tentei uma reação. Procurei  piscar um olho.  Eu sabia que o torpor já estava se esvaindo. Por isso, concentrei-me em mover uma das pálpebras, enquanto o Dr. Leviano assoviava e examinava os meus dentes. Mas, quando consegui mexer a pálpebra direita, o médico já estava de costas, decerto procurando por um dos seus instrumentos hediondos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Dr.  Frívolo retornou com um  bisturi na destra. Curvou-se sobre o meu corpo pachorrentamente. Ia mergulhar o bisturi no meu peito.  Foi quando senti o bem-vindo calor inundar e percorrer todo o meu corpo, trazendo-me um alívio morno e  levando consigo toda rigidez.  Agora eu sabia que o Sol mergulhara definitivamente no horizonte. Meus músculos eram novamente flexíveis. Foi por isso que colhi,  em pleno ar,  a mão do médico, que descia. E justamente  no momento em que o bisturi afiado projetava a sua sombra mortal sobre o meu tórax. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A frivolidade dissipou-se instantaneamente do olhar do jovem médico.  Agora, o que assomava em suas negras pupilas era o pânico. Era a  surpresa, violenta e atroz.  Mas o olhar evoluiu para um doloroso esgar quando eu, imprimindo na mão esquerda uma força grotesca,  fiz com que o seu pulso estalasse, após um movimento tão rápido quanto brusco.  O médico uivou. Mirou  atônito  o pulso partido e depois  dirigiu-me os olhos perplexos.  Vi uma sombra crescente de  horror transbordar os seus olhos  quando ele percebeu  que os meus dentes agora eram navalhas aguçadas e luzidias.  E o terror espalhou-se por sua face encrespada quando avancei para o  pescoço, triturando e dilacerando a  jugular, donde o sangue viscoso manava em profusas e regulares erupções. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Hoje sou bem mais cauteloso na escolha do antro tenebroso que me serve de refúgio e de descanso. E  fico feliz ao imaginar o quão quedaram surpresos médicos e policiais ao constatarem que o meu corpo havia desaparecido.  E que, sobre a mesa de necropsia, o que se via não era o meu cadáver a esperar pela autópsia, mas o  corpo nu de um médico legista, completamente exangue, e com uma monstruosa laceração no dorso da garganta. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-7881242226953290544?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/7881242226953290544/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=7881242226953290544' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/7881242226953290544'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/7881242226953290544'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/necropsia.html' title='A NECROPSIA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-1840960477102474559</id><published>2010-11-28T13:02:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:03:37.941-08:00</updated><title type='text'>O JOGO</title><content type='html'>O JOGO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: ANDREIA SANTOS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou contar-te um segredo: adoro New Orleans.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adoro a cidade que se transforma na noite. Adoro a musica que nasce em cada canto. As pessoas que parecem fluir de roda viva de traições, assassinatos e magia misturada com o encanto do Vudu dos pântanos e com a alegria que mora no fundo de uma garrafa de rum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;New Orleans...... se pensar bem não existe outro sítio no mundo para mim. Terra lendária de Piratas, de ladrões e vigaristas. Onde o excêntrico se torna normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que mais me agrada na cidade é que tudo pode acontecer se passares lá tempo suficiente. E isso para alguém da minha idade é um ponto muito importante. Já caminho nesta terra maldita há tanto tempo que já vi de tudo... já nada me espanta! Ou pelo menos era o que pensava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou na noite em que resolvi dar um passeio até aos pântanos que rodeiam a cidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os da minha espécie evitam os pântanos. O perigo não está nos terrenos traiçoeiros nem nas cobras ou jacarés que fervilham nas águas estagnadas. O mal vem das pessoas que moram no Bayou... os negros do bayou têm uma memória longa... o vudu que praticam religiosamente todo o santo dia não os deixa esquecer que nós existimos como aconteceu com a maior parte dos homens. E ao contrário de todas as outras rezinhas e sortilégios idiotas, os sacerdotes Vudu conseguem realmente magoar-me. “Por quê?”, perguntas tu .Sim! Eu sei que é muito difícil imaginar que uma criatura poderosa e magnífica como eu possa ser atacado por um padreco preto ranhoso... mas infelizmente é verdade. O Vudu é a única religião no mundo que se dedica exclusivamente aos mortos, sabias? Os vivos utilizam os mortos para fazer bem ou mal aos vivos... os vivos têm controlo sobre os mortos.... e diga-se de passagem: isso não significa nada de bom para mim.... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas voltando ao que interessa. Andava eu descansado da minha vida, pensando o que seria o meu jantar, se um jacaré gordo se uma daquelas pretinhas deliciosas que vira no outro dia no bairro francês, quando ouvi chamarem o meu nome. Marcell!! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante cinco segundos tive a ilusão de que se fundia com o tronco, não sabendo se era ela que tinha folhas e galhos a nasceram-lhe do alto da cabeça se era um tronco velho e retorcido que ganhara uma boca e dois olhos escuros e fundos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcell! Repetiu afastando-se do tronco morto, o que me permitiu ver bem a sua triste figura. Era uma velha, negra, magra como um cão rafeiro e tão curvada que quase batia com o nariz nos joelhos. Tinha uns míseros cabelos que resistiam presos a uma caveira de pele arrepanhada onde os olhos eram dois buracos escuros e fundos, mas tão brilhantes como duas brasas de carvão incandescentes. No pescoço tinha pendurado um estranho colar, feito com dentes brancos e pontiagudos... estremeci ao reconhecer a origem dos enfeites.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que queres velha? E como sabes o meu nome? – perguntei de forma agressiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Limitou-se a rir baixinho, o que a fez parecer um gato engasgado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós sabemos quem tu és Marcell... sabemos sempre quem são os da tua espécie e quando pisam as nossas terras. Devias saber disso. – Tinha uma voz rouca, como se não a utilizasse há muito tempo. Aquilo irritou-me. Nunca gostei de ser controlado. Que queres? – voltei a perguntar, sendo que novamente ela se riu da irritação patente na minha voz.. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vais fazer um acordo comigo. E não faças essa cara de parvo, morto! Vais faze-lo porque eu sei que foste tu que mataste a rapariga que encontraram de garganta aberta naquele beco. E sabes o que nós fazemos aos sanguessugas como tu não sabes? Por isso vais fazer um acordo comigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Limitei-me a olhá-la sem falar. A maldita viu no meu silêncio um incentivo para continuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabes qual é o problema em praticar magia negra, Marcell? Nunca se pode parar. Uma vez que começamos não podemos descansar. O mal é como um círculo, volta sempre ao ponto de onde partiu e eu ainda quero andar por cá mais uns tempos. Acontec, morto, que me meti com quem não devia e o círculo fechou mais depressa do que estava a espera, e ainda quero andar por cá mais uns tempos. A única solução que tenho é enganar a morte...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste ponto tive de me rir. Não se podia enganar a morte, a não ser que se fosse como eu. Mas só de imaginar o sabor da velha senti-me doente. Nunca poria a boca naquilo!! Ela pareceu perceber o que estava a pensar porque tornou a dar uma gargalhada seca e abanou a cabeça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, vampiro, não quero ser um dos teus. Já tive mortos que cheguem na minha vida para andar no mundo como um deles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que quero de ti é que voltes a fechar os portões do outro mundo. É que sabes, qualquer mortal que se aproxime deles cai instantaneamente sem vida no chão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo precisas de alguém que já não esteja vivo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O riso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morto mas esperto....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E onde estão esses portões? – perguntei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No jardim das flores La Blanchette. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “jardim das flores La Blanchette” a que a velha se referia era nada mais nada menos que o cemitério La Blanchette. Era o mais antigo da região do sul, e os seus ocupantes remontavam ao tempo em que New Orleans era a capital francesa do Louisianna. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se recusar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não o vais fazer... se o fizeres serão os teus dentes a enfeitar-me o pescoço.... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, ao acordar, afastando o cadáver roliço da saborosa companhia da noite anterior, dirigi-me à varanda onde fiquei fintando o céu estrelado da cidade e a pensar no que me esperava... decidi não pensar muito no assunto, afinal há 450 que me esquivava da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomei um longo banho de agua a ferver, o sangue seco da mulher pintava a banheira branca à medida que ia saindo da minha pele. Vesti um dos meus fatos pretos e olhei-me ao espelho. Quem me devolveu o olhar foi um atraente rapaz de 26 anos. Pele branca, cabelo cor de bronze um pouco comprido e penteado com aparente descuido, lábios bem desenhos sobre um maxilar quadrado puramente masculino. Os olhos brilhantes cor de caramelo líquido. Com uma mão toquei no espelho, pensando se seria hoje que pagaria por todo o mal que fizera durante 4 séculos.... com um sorriso traquina e um encolher de ombros, dei meia volta e sai de casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah!! O dramatismo da cidade é envolvente! A noite estava perfeita para uma aventura contra a morte: quente como todas as noites de verão no Louisianna, o céu estrelado onde brilhava orgulhosamente a lua cheia, e uma brisa quente que trazia com ela o cheiro das flores exóticas que preenchiam as varandas das grandes mansões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminho até La Blanchette foi feito sem problemas e depressa dei por mim parado em frente aos grandes portões de ferro do cemitério. Saltei e aterrei suavemente como um gato em cima de uma das pedras tumulares mais próximas. Serpenteando como um fantasma procurei qualquer indício que me dissesse onde estavam os portões do inferno. A banda sonora da minha aventura era o vento, assobiando entre a folhagens das arvores altas, e o piar das corujas que pareciam o público esperando pela morte do herói... sorriso traquinas de novo – sorte não ser herói, sempre tive uma queda para o vilão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava a ficar com a impressão que a maldita velha tinha estado a enganar-me quando cheguei a uma encruzilhada; campas nos quatro lados do caminho, mas no centro estava um imponente jazigo de granito negro. Parei não querendo acreditar no que estava a ver. Sempre pensei que a expressão “portões do Inferno” fosse uma metáfora, mas se estava certo ali estavam eles. Aproximei-me devagar e se ainda tivesse coração posso dizer que estaria a bater descontroladamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jazigo era enorme. Todo feito de pedra maciça negra inclusive as portas. Estas estavam ricamente trabalhadas. Alguém tinha perdido muito tempo a esculpir dezenas de milhares de figuras, directamente na rocha. Quando observei com mais atenção apercebi-me que as figuras retractavam A Grande Batalha, a queda dos anjos, quando Lúcifer anjo caiu no inferno. O meu olhar percorreu as portas até a parte de baixo. As figuras da base das grandes portas estavam todas em visível sofrimento, corpos nitidamente mortos amontoavam-se aos pés de enormes monstros disformes. O Inferno. O meus olhos descobriram uma figura que me pareceu vagamente familiar... desviei rapidamente os olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechar os portões do inferno... Bem! Fechados estão eles! que quer a velha que eu faça?? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Experimentei empurra-los mas mesmo com toda a minha força eles não se mexeram. A ultima vez que a minha força não tinha conseguido abrir, partir e fechar qualquer coisa ainda se pensava que a terra girava em trono do sol! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pensamento cruzou-me a mente! Sorri! E porque não?, perguntei a mim próprio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproximei-me das grandes portas de pedra e bati três vezes. De forma automática o grandes portões abriram-se levemente como se fosse feitos de papel. Estiquei-me tentando ver alguma coisa, mas assim que me encostei à porta o interior do jazigo iluminou-se. Á minha frente estendia-se uma enorme escadaria de pedra negra assim como as paredes, de onde irrompiam estranhas lamparinas que projectavam uma luz verde que tremeluzia à minha passagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estava a descer há alguns minutos e as escadas continuavam as suas curvas e contracurvas. Quando começava a ficar impaciente a escadaria terminou abruptamente. A estranha luz verde desapareceu e os meus olhos de predador nocturno não conseguiam penetrar na escuridão. Logo aí percebi que alguma coisa estava errada. Fiquei parado, à espera de alguma coisa... lentamente, como o nascer de um sol que eu já não via há tanto tempo, a luz verde voltou, inundando a sala por completo. E eu vi algo que nunca imaginei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava numa enorme sala de pedra negra. Tão grande que não lhe conseguia ver o fim por mais que tentasse. Estava vazia, à excepção de um enorme trono negro que parecia elevar-se no chão, como se fizesse parte da rocha viva... e ele estava sentado no trono. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tão alto como eu. Moreno, com o cabelo negro a agitar-se numa brisa inexistente. Vestia de negro e à cintura pendia-lhe uma enorme espada. Os olhos de um verde impossível brilharam ao fitar-me e as descomunais asas negras abriram-se em todo o seu esplendor... Marcell. O meu nome foi dito num sorriso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incapaz de dizer o que quer que fosse fitei a criatura enquanto ele se levantava calmamente e se dirigia a mim. Senti algo quente no estômago, algo que me pôs os ouvidos a palpitar. Demorei a reconhecer a sensação de medo... já não o sentia havia uns tempos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todos os que ela podia mandar, escolheu quem mais me agrada. Não precisas ter medo. De todas minhas crias sempre foste o favorito. sempre me deste... presentes agradáveis ao longo de séculos – rematou com um sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que se estava a referir às minhas vítimas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que te posso ajudar Marcell? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velha mandou-me... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sorriso puramente maligno rasgou-se no lindo rosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mandou? Interessante.... – sibilou – “um morto não pode morrer” certo? – disse, rindo-se cada vez mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela escapa-me há muito tempo, essa tua velha. Pensava que era desta que a ai apanhar, e eis que ela manda um morto fechar os portões! Delicioso.... sempre tive uma queda por pessoas audazes, sabes? Acho que é esse o meu defeito. Claro que a podia levar deste mundo, era só querer, mas aprecio os joguinhos que os humanos fazem para fugir à morte. Acho que quando são bem feitos devem ser recompensados, não concordas cria? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que sim... – a minha respostas fê-lo sorrir ainda mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou calado, olhando-me atentamente, até que fiquei com a impressão que conhecia todos os meus pensamentos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora temos um problema. De certo que consegues ver qual é...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Problema? Hummm... eu não posso matar a velha, ela é uma sacerdotisa Vudu e... – parei de falar no ponto eu que ele jogou a cabeça para trás e desatou ás gargalhadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema não é esse Marcell. Vê bem: ninguém pode passar as portas do inferno e voltar para trás. Ninguém. Vivo, morto ou... vampiro – esclareceu cravando os seus olhos em mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não! – gritei- não posso ficar! Não estou vivo, não posso morrer! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim... isso é verdade.... – voltou a sentar-se no trono, apoiando um braço no joelho onde ficou com um ar pensativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem... é verdade que não podes morrer, e também é verdade que és uma das minhas crias predilectas, por isso vou propor-te um acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvir a palavra acordo estremeci. Já tinha tido a minha cota parte de acordo neste século!! Que tipo de acordo? – perguntei num tom amuado que o fez sorrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mais um jogo Marcell. E eu sei que tu adoras jogos.... passas a vida a faze-los com as tuas vitimas.... um jogo de dados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De dados??? – a minha incredulidade fez com que o verde dos olhos se tornasse mais brilhante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso mesmo. Um simples jogo de dados pela tua alma. Se ganhares ganhas 10 anos. Ao fim desses 10 anos voltas e jogamos de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até quando? – mas ao fazer a pergunta entendi o quanto ridícula era....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marcell Marcell.... até tu perderes é claro.... – a sua voz carregada de puro veneno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fitei-o tentando entender o porque daquilo tudo. Podia destruir-me com um olhar mas não o fazia. De repente entendi. Ele brincava comigo da mesma maneira que eu brinquei com as minhas vítimas antes de as matar, durante todos estes anos. A diferença era que eu só dava mais algumas horas ele dava-me 10 anos, partindo do principio que eu ganhava o estúpido jogo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encolhi os ombros e sorri pela primeira vez. Vamos a isso! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte abriu uma das mãos onde estavam dois dados vermelhos. O jogo é simples, quem tirar o numero mais alto ganha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assenti com a cabeça e fiz-lhe sinal que fosse o primeiro. Agitou os dados dentro das duas mãos em concha, parou olhou-me e sorriu. Os dados voaram. Sete. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esticou o braço e os dados cruzaram o ar em direcção à sua mão. Quando me passou os dados as longas unhas negras marcaram-me a pele e os olhos brilharam ainda mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei ali parado com os dados na mão, sentindo a sua forma enquanto os apertava e de repente toda a hilaridade da situação caiu-me em cima: estava a jogar aos dados pela minha alma com a morte!! Um sorriso iluminou-me o rosto. Pensava que tinha perdido a alma há 450 anos atrás... pelos vistos estava enganado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dados caíram no chão e rolaram durante um tempo que pareceu infinito..... dez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ganhei!! Ganhei à morte!! Pensei.... rodei nos calcanhares para encarar a criatura mas ela tinha desaparecido. Depois de uma breve hesitação corri a toda a velocidade em direcção à escadaria, e logo avistei as portas entreabertas. Estava já com uma mão na porta para sair quando ouvi a sua voz: dez anos Marcell... dez anosss – voltei-me apenas para ver um par de olhos verdes a brilharem na escuridão que envolvia agora as escadas e precipitei-me para o ar húmido da noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram três dias desde então. Três dias nos quais descobri que as poucas coisas que me afectavam já não o fazem. Ganhei dez anos de nasceres do sol, dez anos em que posso sair de dia, dez anos a viver.... mas só ontem pensei numa coisa, talvez não tenham sido só estas fraquezas a desaparecer. Ontem passei a noite no bayou e ninguém deu pela minha presença. Passeei-me no jardim da casa da velha e ela não me sentiu, deslizei para a cama dela onde a ouvi tossir e fungar toda a noite e ela não deu por isso... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso ter ganho o raio do jogo, mas daqui a dez anos tenho de lá estar outra vez e a culpa é toda dela!! A única coisa que te posso garantir é que ela não estará aqui daqui a dez anos! Sei que jurei não pôr a boca naquilo, mas isso também não fazia de qualquer maneira..... era uma morte demasiado rápida....... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado no trono de pedra negra ele via, com um sorriso maléfico, a cria no cimo da arvore, sentada, à espera que a caça começasse.....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-1840960477102474559?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/1840960477102474559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=1840960477102474559' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1840960477102474559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1840960477102474559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-jogo.html' title='O JOGO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-4573124807663689061</id><published>2010-11-28T13:01:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:02:20.839-08:00</updated><title type='text'>O FANTASMA</title><content type='html'>O FANTASMA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: MAUREN GUEDES MÜLLER &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto ouviu a voz grave de seu pai dizer, no tom severo a que se acostumara:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Levante-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu os olhos e sentou-se na cama. Olhou em volta. Não havia ninguém com ele no quarto, o que não era surpresa, já que seu pai não poderia ter-lhe falado. Afinal, estava morto há cinco anos. Mas foi surpresa, ao menos por alguns instantes, a percepção do lugar onde se encontrava. Até que concatenou um pouco as idéias e se lembrou de haver-se hospedado naquele motel barato, embora ainda estivesse confuso e não se lembrasse de por que o fizera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto se levantou e se vestiu. Sentia muita sede. Foi até o banheiro, onde encontrou um copo, encheu-o na torneira e bebeu de um gole só. Repetiu o procedimento mais três vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu do quarto, trancou-o e passou pela portaria do motel, largando a chave sobre o balcão. O atendente estava ao telefone e não lhe dirigiu a palavra, sequer o olhou. Alberto saiu para a rua e consultou o relógio de pulso. Nove horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez sinal para um ônibus, mas o ônibus não parou. Devia estar lotado. Então, acenou timidamente para um táxi, mas o táxi também não parou. Não deu importância. Talvez fosse mesmo bom caminhar um pouco. Percorreu a pé todo o percurso até o prédio comercial onde tinha um escritório de advocacia. Quando chegou no prédio, entrou sem cumprimentar o porteiro. Tinha o hábito de fazer assim. Alberto passava a impressão de ser um arrogante, mas, na verdade, não passava de um tímido. Não cumprimentava por vergonha de si mesmo. Chamou o elevador, mas o elevador não veio. Suspirou e dirigiu-se à escada. Subiu os quatro andares, devagar. Começou a sentir fome. Mas não deu importância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegou diante de seu escritório, a porta se encontrava fechada, com uma placa de “aluga-se”. Embora já esperasse por algo assim, o desagrado o invadiu e Alberto deixou escapar, muito baixinho, quase para dentro, um palavrão. Fazia meses que não pegava um processo novo e os antigos que tinha não andavam. Conseqüentemente, não pagava o aluguel. Pegou a chave e tentou metê-la na fechadura. O proprietário, aparentemente, estava mesmo disposto a impedir-lhe a entrada, porque trocara o segredo. Pensou em ir atrás dele, em exigir que observasse os prazos e procedimentos legais, mas a lassidão que o caracterizava o fez desistir. Desceu as escadas, derrotado, e caminhou lentamente para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ia caminhando pela rua, olhando fixamente para o chão, quando se lembrou do fato de ter ouvido a voz de seu pai, pela manhã. Só então começou a pensar se havia sido mais do que um sonho. Ouvira-a tão nitidamente... Seu pai sempre fora um homem severo. Nunca lhe dera dinheiro. Também nunca deixara que lhe faltasse nada – comida, roupa, estudos. Mas jamais lhe entregara uma nota sequer nas mãos, para que gastasse com o que bem entendesse, como seus amigos faziam. Todas as vezes em que o desobedecera, quando criança e mesmo quando adolescente, seu pai havia tirado o cinto e lhe dado uma surra. Lembrava-se dele com mágoa. Sentira um certo alívio quando ele havia morrido, e, embora se culpasse por isso, não conseguira esconder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora tinha certeza de uma coisa: já estava acordado quando ouvira a voz de seu pai, no quarto do motel. Acordado, mas sem ânimo, sem forças para se levantar, apesar da sede. E teria ficado deitado naquela cama, talvez até morrer de inanição, se aquela voz rude não o houvesse sobressaltado a ponto de fazê-lo se levantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ergueu a cabeça e olhou em volta. As pessoas não reparavam nele. Ninguém parecia notá-lo. Tornou a baixar os olhos e se encolheu ainda mais. Alberto já era franzino, e costumava adotar uma postura que o tornava ainda menor. Um homem esbarrou de leve nele, e seguiu seu caminho, sem nem ao menos pedir desculpas. Mas uma coisa o incomodou bastante. Foi uma sensação estranha, ao mesmo tempo insólita e assustadora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecera a Alberto que, embora ele tivesse sentido o encontrão do homem, o homem não sentira o raspar de seu corpo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto chegou em casa e meteu a chave na fechadura. Desta vez, a porta se abriu. Entrou, em silêncio. Foi quando ouviu uma risada alegre, espontânea, livre, acompanhada de algumas palavras. Reconheceu a voz de sua esposa. Estremeceu. Há muitos, muitos anos não a ouvia rir daquela maneira. Esgueirou-se até o quarto. A porta estava entreaberta. Olhou pela fresta e teve um choque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua mulher estava na cama, nua, juntamente com outro homem, um amigo dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto recuou, devagar, até a sala, e deixou-se cair no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, lembrou-se de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobrira a traição. Comprara as pílulas para dormir e alugara o quarto de motel, disposto a...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou morto – murmurou, num fio de voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era por isso que as pessoas pareciam não notá-lo. Não o notavam, mesmo, porque ele não era mais do que um fantasma. Era por isso que o senhorio se apressara em pôr seu escritório para alugar e trocara a fechadura. Era por isso que sua mulher estava na cama, com outro homem, em plena luz do dia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, ergueu a cabeça e deparou-se com uma figura, em pé. Era seu pai. Quando o viu, sua respiração se trancou por um momento. Seu pai cravou-lhe os olhos, penetrantes, numa expressão de censura que lhe dava a impressão de estar nu diante dele, ou de ter sido surpreendido nalgum ato muito vergonhoso. Alberto sentiu o rubor aquecer-lhe o rosto e baixou os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pai – disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você, hem? respondeu-lhe o velho. – Você só me dá vergonha...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto o espiou, de canto de olho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O senhor veio me levar? Para... onde?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não vim levar você para lugar nenhum, Alberto. Só vim tentar fazer com que você recupere um pouco do juízo. Fazer com que você tenha um mínimo de vergonha na cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto suspirou profundamente e olhou para o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora, é tarde, pai. Eu já fiz...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cale essa boca e olhe para mim, moleque!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto obedeceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Passei toda a vida tentando fazer de você um homem – disse ele. – E, no entanto, o que você se tornou? Um frouxo. Um frouxo que pega a vagabunda da sua mulher com outro e, em vez de agüentar o tranco e de reagir como homem, pega uma cartela de remédios e vai se enfiar num canto, como um rato, para se matar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto voltou a olhar para o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pois é, pai, mas agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora? Agora você vai se levantar, vai enfrentar essa vadia e tocá-la para fora de sua casa, ela e o amante! E amanhã, você vai procurar o juiz e dizer que, se ele não der andamento nos seus processos, especialmente naquele que está parado há mais de ano, você vai procurar a Corregedoria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto sentiu o desespero crescer, uma angústia apertar-lhe o peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora é tarde, pai! Eu estou morto! Morto, como o senhor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ora, moleque! berrou o velho. – Eu até posso estar morto, sim. Mas você, hem? Você acha que está morto? Você não foi homem nem para se matar, Alberto! Você é o que, sem-vergonha ou idiota, mesmo? Achou que ia se matar com menos de meia dúzia daqueles comprimidos para dormir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto sentiu como se um choque elétrico o atravessasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como? perguntou, quase sem voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você tomou muito pouco para morrer, Alberto! Diga-se de passagem, ainda bem. Mas agora, pare de agir como se estivesse morto, e seja um homem de verdade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem o olhou, estático. Talvez tenha piscado os olhos uma vez ou duas, e foi aí que o fantasma desapareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alberto podia sentir o próprio coração batendo, com uma fúria desesperada. Suas têmporas latejavam. Mas, ao mesmo tempo, sentia como se seu sangue aquecesse. Sentia-se vivo, sim, mais vivo do que nunca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se, decidido, e abriu a porta do quarto. Sua mulher o olhou e deu um grito. O amante arregalou os olhos, pálido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fora daqui os dois – disse, com voz firme, mas calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas, Alberto... – começou a dizer ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fora daqui – repetiu ele. – Antes que você comece a me falar de seus direitos, fique sabendo que eles serão discutidos em juízo. Conversa eu não quero com você. Tenha um mínimo de decência, pegue suas coisas e vá para a casa de seus pais, agora. E você – voltou-se para o amante dela –, dê o fora de minha casa agora mesmo, ou eu chamo a polícia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem agarrou suas roupas, enfiou as calças e saiu, assustado. A mulher de Alberto se vestiu e começou a fazer sua mala, enquanto ele foi até a sala e deixou-se cair novamente, sobre o sofá, cansado, com o coração ainda mais acelerado e a respiração agitada, mas sentindo-se bem melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, chegou no prédio do escritório e cumprimentou o porteiro em voz bem alta, de maneira que o homem não teve como ignorá-lo, apesar de surpreso por aquela sua mudança de comportamento. Falou com o senhorio. Exigiu que fosse observado um processo de despejo. Falou com o juiz. Deu andamento em seus processos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao cabo de algum tempo, era outro Alberto. Mais dinâmico, mais autoconfiante, parecia até mais alto. Certo dia, voltando do escritório em seu carro – comprara um carro –, parou diante do cemitério da cidade. Estacionou e desceu. Caminhou por entre os túmulos até se deter diante do jazigo de seu pai. Ficou parado, em silêncio, por longos instantes. Finalmente, tocou a pedra com carinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De seu jeito – murmurou –, o senhor sempre me amou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voltou para o carro, sentindo-se em paz consigo mesmo e, finalmente, com o seu passado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AGOSTO DE 2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-*-*-*- &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota: esta é uma obra de ficção, que não relata necessariamente minhas crenças, idéias e opiniões; qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-4573124807663689061?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/4573124807663689061/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=4573124807663689061' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4573124807663689061'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4573124807663689061'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-fantasma.html' title='O FANTASMA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-1603427245449172987</id><published>2010-11-28T13:00:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:01:24.594-08:00</updated><title type='text'>O ESTRANHO</title><content type='html'>O ESTRANHO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: AMBROSE BIERCE. Tradutor: RENATO SUTTANA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ESTRANHO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Ambrose Bierce –Tradução: Renato Suttana)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem saiu da sombra para o pequeno círculo de luz de nossa fogueira e se sentou numa pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês são os primeiros a explorar esta região – disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém retorquiu a essa declaração. A prova do que dizia era ele mesmo, que não pertencia ao nosso grupo e devia estar por perto quando acampamos. Mais: devia ter companheiros nos arredores, pois aquele não era lugar para se viver ou viajar sozinho. Por mais de uma semana só tínhamos visto, além de nós mesmos e de nossos animais, pequenos seres como lagartos e sapos de chifres. Num deserto do Arizona não se coexiste por muito tempo apenas com essas criaturas: precisa-se de ter animais de carga, suprimentos, armas – “equipamento”, enfim. E tudo isso implica camaradas. Houve dúvida quanto ao tipo de homens a que pertenceriam os camaradas desse estranho que aparecera sem cerimônia, bem como, em suas palavras, qualquer coisa tão impenetrável quanto um desafio, o que fez com que nossa meia dúzia de “aventureiros” se sentasse, com as mãos nas armas, numa atitude que significaria, dada a hora e o lugar, ostensiva expectação. O estranho não prestou atenção e começou a falar de novo no mesmo tom deliberado e monótono com que pronunciara a primeira frase:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Trinta anos atrás Ramon Gallegos, William Shaw, George W. Kent e Berry Davis – todos de Tucon – atravessaram as montanhas Santa Catalina em direção a oeste, avançando tanto quanto a configuração do território o permitiria. Fazíamos prospecção, e nosso intuito, se não achássemos nada, era seguir até o rio Gila, num ponto próximo de Big Bend, onde supúnhamos haver um assentamento. Tínhamos um bom equipamento, mas nenhum guia – só Ramon Gallegos, William Shaw, George W. Kent e Berry Davis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem repetiu os nomes devagar e com nitidez, como se para gravá-los na memória da audiência, cujos membros agora o observavam atentamente, mas com uma ligeira apreensão quanto à possibilidade de haver companheiros ocultos na treva que nos enclausurava como uma parede negra. Na atitude desse historiador voluntário não havia sugestões de qualquer propósito inamistoso. Seus modos eram mais os de um lunático inofensivo do que os de um inimigo. Nem estávamos tão desacostumados ao campo para ignorarmos que a vida solitária de muito camponês tem uma tendência a desenvolver excentricidades de conduta e de caráter que nem sempre se distinguem da aberração mental. Um homem é como uma árvore: na floresta dos seus semelhantes, ele crescerá tão reto quanto sua natureza genérica e individual o permitir. Sozinho, em lugar aberto, cederá às pressões e às torções deformadoras que o envolvem. Alguns desses pensamentos me vieram enquanto eu observava o sujeito através da sombra de meu chapéu, puxado para baixo a fim de quebrar a luz do fogo. Um pobre imbecil, sem dúvida, mas o que estaria fazendo ali, no coração do deserto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tendo empreendido contar esta história, gostaria de poder descrever a aparência do homem, o que seria natural. Infelizmente – ou estranhamente – não me acho em condições de fazê-lo com segurança, pois mais tarde nem sequer dois de nós concordaríamos quanto ao que ele vestia e quanto à sua aparência. E, quando tento ajuntar minhas impressões, elas me escapam. Qualquer um pode contar histórias; a narração é uma das forças elementares da raça. Mas o talento para a descrição é um dom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ninguém quebrasse o silêncio, o visitante prosseguiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Esta região não era o que é agora. Não havia sequer um rancho entre o Gila e o Golfo. Havia alguma caça aqui e ali nas montanhas, e perto dos raros olhos d’água havia grama suficiente para impedir que os animais morressem de fome. Se tivéssemos a boa sorte de não encontrar índios, podíamos ir passando. Mas, dentro de uma semana, o objetivo da expedição mudou da descoberta de riquezas para a preservação da vida. Tínhamos ido longe demais para podermos retornar, pois o que estivesse à frente não seria pior do que o que ficara para trás. Então continuamos, viajando à noite, para evitar os índios e o calor intolerável, e nos escondendo durante o dia, tanto quanto pudéssemos. Às vezes, depois de esgotar nossas reservas de carne selvagem e de esvaziar nossos cantis, passávamos dias sem comida e sem água. Então um olho d’água ou um poço raso no fundo de um arroio restauravam de tal maneira nossas forças e nossa sanidade que nos sentíamos em condições de matar os animais silvestres, que também os procuravam. Às vezes era um urso, outras um antílope, um coiote, um puma – o que Deus provesse: tudo era alimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Certa manhã, quando batíamos uma linha de montanhas, procurando por alguma passagem, fomos atacados por um bando de apaches que seguiram nossa trilha até uma ravina, não muito longe daqui. Sabendo que seu número era de dez para um contra nós, abandonaram suas costumeiras precauções de covardia e caíram sobre nós a galope, atirando e gritando. Lutar estava fora de questão: picamos nossos fracos animais através da ravina, até onde houvesse piso para os cascos; apeamos e subimos até o chaparral de um dos sopés, abandonando todos os nossos pertences ao inimigo. Mas conservamos nossos rifles, cada um de nós – Ramon Gallegos, William Shaw, George W. Kent e Berry Davis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O mesmo povo de sempre – disse o humorista de nosso grupo. Era um homem do Leste, pouco familiarizado com as observâncias mais decentes do convívio social. Um gesto de desaprovação de nosso líder o fez silenciar; e o estranho prosseguiu com sua história:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Os selvagens desmontaram também, e alguns deles subiram pela ravina, avançando para além do ponto onde a tínhamos deixado, cortando qualquer retirada por aquela direção e forçando-nos para o flanco. Infelizmente o chaparral se estendia só por uma curta distância sopé acima, e quando chegamos à parte aberta no alto recebemos o fogo de doze rifles. Mas os apaches atiram mal quando estão com pressa, e Deus providenciou para que nenhum de nós fosse atingido. Umas vinte jardas para o alto, no sopé, além da linha da vegetação, havia despenhadeiros verticais, em meio aos quais se via, bem à frente, uma estreita abertura. Corremos para ela, desembocando numa caverna pouco mais larga do que um cômodo comum de residência. Aqui, por algum tempo, estivemos a salvo: um único homem com um rifle de repetição poderia defender a entrada contra todos os apaches do lugar. Mas contra a fome e a sede não tínhamos defesa. Coragem ainda tínhamos, mas a esperança era só uma reminiscência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nem um só desses índios nós vimos mais tarde; mas pela fumaça e pelo fulgor de suas fogueiras na ravina sabíamos que dia e noite eles nos vigiavam, com os rifles prontos, na extremidade do mato. Sabíamos que se tentássemos alguma coisa nenhum de nós viveria para dar três passos além da abertura. Durante três dias, revezando a guarda, nos agüentamos, até que o sofrimento se tornou insuportável. Então – era a manhã do quarto dia – Ramon Gallegos disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Señores, não sei muito sobre o Deus bom ou sobre o que agrada a Ele. Vivi sem religião e não tenho conhecimento daquela de vocês. Perdão, señores, se os escandalizo, mas para mim chegou a hora de bater o jogo dos apaches.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ajoelhou-se no chão de pedra da caverna e encostou a pistola contra a fronte. ‘Madre de Dios’ – disse – ‘vem agora a alma de Ramon Gallegos’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E então nos deixou – William Shaw, George W. Kent e Berry Davis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu era o líder: cabia a mim falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Ele era um bravo – eu disse –; sabia quando morrer e como morrer. É tolice enlouquecer por causa da sede e tombar diante das balas dos apaches, ou ser esfolado vivo; é de mau gosto. Juntemo-nos a Ramon Gallegos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Tudo bem – disse William Shaw.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Tudo bem – disse George W. Kent.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estiquei os membros de Ramon Gallegos e coloquei um lenço sobre seu rosto. Então William Shaw disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu gostaria de ter esse aspecto, nem que por um instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E George W. Kent disse que também queria o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Há de ser assim – eu disse. – Os diabos vermelhos esperarão uma semana. William Shaw e George W. Kent, saquem as armas e se ajoelhem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fizeram-no, e eu fiquei diante deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Deus todo-poderoso, nosso Pai – eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Deus todo-poderoso, nosso Pai – disse William Shaw.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Deus todo-poderoso, nosso Pai – disse George W. Kent.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Perdoai nossos pecados – eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Perdoai nossos pecados – disseram eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– E recebei nossas almas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– E recebei nossas almas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Amém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“– Amém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deitei-os ao lado de Ramon Gallegos e cobri seus rostos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma rápida comoção do lado oposto do acampamento: um membro de nosso grupo se pôs de pé, a pistola em punho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E você – gritou ele –, você ousou escapar? Ainda ousa estar vivo? Seu cachorro covarde, farei com que se junte a eles. Enforquem-me se...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas com um salto de pantera o capitão o deteve, segurando-lhe o pulso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Contenha-se, Sam Yountsey, contenha-se!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos todos de pé agora, a não ser o estranho, que permanecia imóvel e aparentemente desatento. Alguém agarrou o outro braço de Yountsey.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Capitão – eu disse, – há qualquer coisa errada aqui. Esse sujeito ou é um lunático ou é um simples mentiroso: um mero mentiroso ordinário a quem Yountsey não tem razão de querer matar. Se esse homem pertencia ao grupo, então haveria cinco membros, um dos quais (provavelmente ele mesmo) ele não nomeou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim – disse o capitão, soltando o insurgente, o qual se sentou –, há alguma coisa... incomum. Há alguns anos quatro corpos de homens brancos, escalpelados e lamentavelmente mutilados, foram achados junto à boca daquela caverna. Estão enterrados lá, eu vi os túmulos; poderemos conferir amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estranho se levantou, colocando-se de pé à luz do fogo que expirava – fogo que, no sufoco de nossa atenção, esquecemos de manter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Havia quatro – ele disse – Ramon Gallegos, William Shaw, George W. Kent e Berry Davis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com essa reiterada lista de chamada dos mortos ele penetrou nas trevas, e não o vimos mais. Nesse momento, um membro do nosso grupo, que tinha estado de vigia, caminhou para nós, algo excitado e de rifle em punho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Capitão – disse –, durante a última meia hora três homens estiveram ali, no platô. – Apontou na direção que o estranho tomara. – Pude vê-los bem, pois havia luar; mas, como não tinham armas, e eu os cobria com a minha, pensei que estavam de passagem. Mas não se moveram, com os diabos! Deram-me nos nervos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Volte para o seu posto e fique lá até que os veja de novo – disse o capitão. – O resto vá se deitar de novo, ou jogo todos na fogueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sentinela se retirou, obediente, resmungando, e não voltou mais. Enquanto ajeitávamos nossos cobertores, o estouvado Yountsey disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Peço mil desculpas, capitão, mas quem diabos você pensa que eles são?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ramon Gallegos, William Shaw e George W. Kent. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas e quanto a Berry Davis? Eu devia ter atirado nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sem necessidade. Você não o teria deixado mais morto. Vá dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-1603427245449172987?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/1603427245449172987/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=1603427245449172987' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1603427245449172987'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1603427245449172987'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-estranho.html' title='O ESTRANHO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-5243514686267263104</id><published>2010-11-28T12:59:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T13:00:30.011-08:00</updated><title type='text'>O COVEIRO</title><content type='html'>O COVEIRO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: MAUREN GUEDES MÜLLER &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez, disseram-me que só é herói quem não quer ser. A pessoa que enfrenta o perigo com gosto jamais será um herói de verdade, pois falta-lhe o principal requisito do heroísmo: a superação do medo. Concordo em parte: por mais atração que se sinta pela aventura, pelo desconhecido, pelo arriscado, em algum momento o coração dispara, o suor empapa nossas roupas e temos de decidir se lutamos ou fugimos. Mas o fato é que o homem a quem ocorreu o fato singular que ora lhes apresento não tinha qualquer vontade de se tornar herói – e, se houvesse se apercebido do perigo que corria, com certeza não teria se tornado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem de que se trata, Lourenço Gomes, tinha recebido a complicada missão de levar flores ao túmulo de uma desconhecida, a mãe de um amigo. Tal amigo prometera à sua progenitora, no leito de morte desta, que todos os anos, no aniversário de sua morte, levar-lhe-ia flores à tumba. Mas, naquele ano, encontrava-se gravemente enfermo, e incumbira a Lourenço a missão de cumprir sua promessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourenço tinha horror a cemitérios. Não chegava nem perto de uma necrópole, mesmo que, para isso, acrescentasse quilômetros a seu itinerário. A velórios, então, não iria nem mesmo arrastado. Quando sua própria mãe falecera, deixara as últimas homenagens a cargo dos agentes funerários, e o corpo da pobre senhora passara a noite na capela mortuária envolto na mais absoluta solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, diante da grande amizade que tinha pelo colega enfermo, que instara com ele de forma tão suplicante que o comovera, Lourenço resolvera enfrentar seu medo, pela primeira e última vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe de seu amigo estava enterrada numa cidade do interior. Lourenço comprou um buquê de rosas brancas ainda na capital, pegou seu automóvel e tomou a estrada. O cemitério, segundo lhe dissera seu amigo, ficava pouco antes da entrada principal da cidade. Quando localizou a estrada certa, não lhe foi difícil encontrá-lo. Todavia, perdera muito tempo confundindo-se com as estradas do interior, e cruzou os portões do lugar perto da hora do pôr-do-sol. A todo instante consultava o relógio de pulso. Sentia sua cabeça latejar, uma náusea lhe embrulhava o estômago, e o que mais desejava neste mundo era cumprir rapidamente sua missão e sair depressa daquele local que tanto o apavorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia, porém, encontrar o túmulo da mãe de seu amigo. Perdeu-se pelo meio das tumbas, cada vez mais assustado. Á medida que o sol mergulhava no horizonte, sua tensão aumentava. Teve a impressão de ouvir gemidos fúnebres, de ver sombras rastejando por entre os mausoléus, e conseqüentemente teve ímpetos de largar as flores por ali mesmo e de sair correndo, tão rápido quanto suas pernas lhe permitissem. Mas a fidelidade ao amigo e o tom de desespero com que este o fizera prometer que cumpriria seu voto o mantiveram no cemitério, apesar de sua angústia crescente. Todavia, o que mais o aterrorizava era justamente sentir-se só, o único vivo diante das moradias dos cadáveres, diante dos esconderijos das temidas almas do outro mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, ouviu o barulho de uma pá batendo no chão. Olhou em volta e enxergou, à luz dos últimos raios solares, a figura de um coveiro, cavando uma sepultura. Respirou fundo, sentindo como se o calor lhe voltasse, e aproximou-se do funcionário do cemitério, extremamente aliviado por haver-se deparado com outra viva alma por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Boa tarde, amigo – disse, com voz ainda trêmula –, estou procurando um túmulo onde devo depositar estas flores. O senhor poderia me ajudar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coveiro interrompeu o seu serviço e o olhou. Perguntou-lhe o nome da morta e lhe indicou com precisão o lugar onde ela jazia. Lourenço agradeceu, o homem respondeu “não tem de quê” e continuou a cavar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourenço largou as flores junto ao túmulo e se retirou dali, caminhando a passos largos e rápidos. Pegou seu automóvel e se dirigiu à cidade. Por mais vontade que tivesse de voltar rapidamente à capital, tinha mais medo de dirigir durante a noite, e foi procurar uma pousada onde pudesse esperar que o dia seguinte amanhecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, enquanto comia alguma coisa sentado junto ao balcão da lanchonete que funcionava anexa ao hotelzinho em que se instalara, o atendente, um rapaz simpático, perguntou-lhe o porquê de sua visível perturbação. Lourenço, aliviado por ter com quem desabafar sobre a angústia que o sufocava, contou-lhe acerca de sua incumbência e lhe narrou que, por pouco, não a deixara por cumprir, não fosse o coveiro ter-lhe indicado o jazigo da extinta mãe de seu amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas eu não sei por que o senhor demorou tanto a encontrar o túmulo – disse o jovem. – O cemitério é bem sinalizado. Seu amigo não lhe deu a letra da ala e o número do jazigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hem? Oh, não. Mas não é bem sinalizado coisa nenhuma! Desculpe-me, mas não tem alas nem números de túmulos, apenas as capelinhas e algumas lápides junto ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ora, mas é claro que tem! Espere aí, o senhor está falando do Cemitério Municipal, não está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Cemitério Municipal, aquele que fica ali, mais adiante, no fim daquela rua – e apontou para uma direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, meu jovem. Refiro-me àquele cemitério fora da cidade, a uns cinco quilômetros da entrada principal, onde a mãe de meu amigo está enterrada já há muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem empalideceu, arregalou os olhos e fitou Lourenço, com visível perturbação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então, o senhor viu “o coveiro” – murmurou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourenço sentiu-se estremecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz respirou fundo, tomou fôlego e lhe disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aquele cemitério foi abandonado há cerca de vinte anos, quando a Prefeitura construiu o cemitério novo. Pois bem, segundo dizem, o coveiro do cemitério antigo não aceitou a mudança. Primeiro, disse que precisava continuar por lá, cuidando de “seus mortos”. Depois, enlouqueceu, e continuou a abrir covas como se o cemitério continuasse funcionando, a receber cadáveres. Por fim, seu deplorável estado mental o levou também à doença física. Muitas pessoas caridosas tentaram demovê-lo de sua teimosia, levá-lo para o hospital, mas ele permaneceu irredutível, cavando sepulturas no cemitério abandonado. Até que, um dia, seu corpo inerte foi encontrado por um passante. Havia morrido com a pá nas mãos. Mas contam que até hoje seu espírito permanece naquele cemitério, limpando os túmulos e abrindo covas para mortos que nunca chegam. E dizem mesmo que, não raro, quando alguém desta cidade desaparece sem deixar vestígios, foi “o coveiro” que o enterrou, vivo, numa das covas que abre, para manter funcionando o que considera o “seu cemitério”... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não preciso dizer que Lourenço necessitou de cuidados médicos quando soube que tinha visto um fantasma. Também não preciso dizer que ele muito se esforçou para encontrar uma explicação racional para o ocorrido. Finalmente, convenceu-se de que não fora “o coveiro” que vira, mas alguém por quem o havia tomado – talvez outra pessoa que estivesse no local de passagem, prestando homenagens a seus mortos, embora não conseguisse explicar o fato de esse alguém estar ali justamente abrindo uma cova. O fato é que Lourenço acabou por se recuperar do susto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas jura que nunca mais tornará a entrar num campo-santo. E jura-o com tanta ênfase que temo que, nem mesmo depois de morto, o cimento que lhe feche a tumba será capaz de segurá-lo dentro dos portões de um cemitério... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JULHO DE 2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-*-*-*- &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota: esta é uma obra de ficção, que não relata necessariamente minhas crenças, idéias e opiniões; qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-5243514686267263104?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/5243514686267263104/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=5243514686267263104' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5243514686267263104'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5243514686267263104'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-coveiro_28.html' title='O COVEIRO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-8319484783284299242</id><published>2010-11-28T12:59:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T13:00:13.541-08:00</updated><title type='text'>O COVEIRO</title><content type='html'>O COVEIRO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: MAUREN GUEDES MÜLLER &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez, disseram-me que só é herói quem não quer ser. A pessoa que enfrenta o perigo com gosto jamais será um herói de verdade, pois falta-lhe o principal requisito do heroísmo: a superação do medo. Concordo em parte: por mais atração que se sinta pela aventura, pelo desconhecido, pelo arriscado, em algum momento o coração dispara, o suor empapa nossas roupas e temos de decidir se lutamos ou fugimos. Mas o fato é que o homem a quem ocorreu o fato singular que ora lhes apresento não tinha qualquer vontade de se tornar herói – e, se houvesse se apercebido do perigo que corria, com certeza não teria se tornado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem de que se trata, Lourenço Gomes, tinha recebido a complicada missão de levar flores ao túmulo de uma desconhecida, a mãe de um amigo. Tal amigo prometera à sua progenitora, no leito de morte desta, que todos os anos, no aniversário de sua morte, levar-lhe-ia flores à tumba. Mas, naquele ano, encontrava-se gravemente enfermo, e incumbira a Lourenço a missão de cumprir sua promessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourenço tinha horror a cemitérios. Não chegava nem perto de uma necrópole, mesmo que, para isso, acrescentasse quilômetros a seu itinerário. A velórios, então, não iria nem mesmo arrastado. Quando sua própria mãe falecera, deixara as últimas homenagens a cargo dos agentes funerários, e o corpo da pobre senhora passara a noite na capela mortuária envolto na mais absoluta solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, diante da grande amizade que tinha pelo colega enfermo, que instara com ele de forma tão suplicante que o comovera, Lourenço resolvera enfrentar seu medo, pela primeira e última vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe de seu amigo estava enterrada numa cidade do interior. Lourenço comprou um buquê de rosas brancas ainda na capital, pegou seu automóvel e tomou a estrada. O cemitério, segundo lhe dissera seu amigo, ficava pouco antes da entrada principal da cidade. Quando localizou a estrada certa, não lhe foi difícil encontrá-lo. Todavia, perdera muito tempo confundindo-se com as estradas do interior, e cruzou os portões do lugar perto da hora do pôr-do-sol. A todo instante consultava o relógio de pulso. Sentia sua cabeça latejar, uma náusea lhe embrulhava o estômago, e o que mais desejava neste mundo era cumprir rapidamente sua missão e sair depressa daquele local que tanto o apavorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia, porém, encontrar o túmulo da mãe de seu amigo. Perdeu-se pelo meio das tumbas, cada vez mais assustado. Á medida que o sol mergulhava no horizonte, sua tensão aumentava. Teve a impressão de ouvir gemidos fúnebres, de ver sombras rastejando por entre os mausoléus, e conseqüentemente teve ímpetos de largar as flores por ali mesmo e de sair correndo, tão rápido quanto suas pernas lhe permitissem. Mas a fidelidade ao amigo e o tom de desespero com que este o fizera prometer que cumpriria seu voto o mantiveram no cemitério, apesar de sua angústia crescente. Todavia, o que mais o aterrorizava era justamente sentir-se só, o único vivo diante das moradias dos cadáveres, diante dos esconderijos das temidas almas do outro mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, ouviu o barulho de uma pá batendo no chão. Olhou em volta e enxergou, à luz dos últimos raios solares, a figura de um coveiro, cavando uma sepultura. Respirou fundo, sentindo como se o calor lhe voltasse, e aproximou-se do funcionário do cemitério, extremamente aliviado por haver-se deparado com outra viva alma por ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Boa tarde, amigo – disse, com voz ainda trêmula –, estou procurando um túmulo onde devo depositar estas flores. O senhor poderia me ajudar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coveiro interrompeu o seu serviço e o olhou. Perguntou-lhe o nome da morta e lhe indicou com precisão o lugar onde ela jazia. Lourenço agradeceu, o homem respondeu “não tem de quê” e continuou a cavar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourenço largou as flores junto ao túmulo e se retirou dali, caminhando a passos largos e rápidos. Pegou seu automóvel e se dirigiu à cidade. Por mais vontade que tivesse de voltar rapidamente à capital, tinha mais medo de dirigir durante a noite, e foi procurar uma pousada onde pudesse esperar que o dia seguinte amanhecesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, enquanto comia alguma coisa sentado junto ao balcão da lanchonete que funcionava anexa ao hotelzinho em que se instalara, o atendente, um rapaz simpático, perguntou-lhe o porquê de sua visível perturbação. Lourenço, aliviado por ter com quem desabafar sobre a angústia que o sufocava, contou-lhe acerca de sua incumbência e lhe narrou que, por pouco, não a deixara por cumprir, não fosse o coveiro ter-lhe indicado o jazigo da extinta mãe de seu amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas eu não sei por que o senhor demorou tanto a encontrar o túmulo – disse o jovem. – O cemitério é bem sinalizado. Seu amigo não lhe deu a letra da ala e o número do jazigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hem? Oh, não. Mas não é bem sinalizado coisa nenhuma! Desculpe-me, mas não tem alas nem números de túmulos, apenas as capelinhas e algumas lápides junto ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ora, mas é claro que tem! Espere aí, o senhor está falando do Cemitério Municipal, não está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Cemitério Municipal, aquele que fica ali, mais adiante, no fim daquela rua – e apontou para uma direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, meu jovem. Refiro-me àquele cemitério fora da cidade, a uns cinco quilômetros da entrada principal, onde a mãe de meu amigo está enterrada já há muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem empalideceu, arregalou os olhos e fitou Lourenço, com visível perturbação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então, o senhor viu “o coveiro” – murmurou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lourenço sentiu-se estremecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz respirou fundo, tomou fôlego e lhe disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aquele cemitério foi abandonado há cerca de vinte anos, quando a Prefeitura construiu o cemitério novo. Pois bem, segundo dizem, o coveiro do cemitério antigo não aceitou a mudança. Primeiro, disse que precisava continuar por lá, cuidando de “seus mortos”. Depois, enlouqueceu, e continuou a abrir covas como se o cemitério continuasse funcionando, a receber cadáveres. Por fim, seu deplorável estado mental o levou também à doença física. Muitas pessoas caridosas tentaram demovê-lo de sua teimosia, levá-lo para o hospital, mas ele permaneceu irredutível, cavando sepulturas no cemitério abandonado. Até que, um dia, seu corpo inerte foi encontrado por um passante. Havia morrido com a pá nas mãos. Mas contam que até hoje seu espírito permanece naquele cemitério, limpando os túmulos e abrindo covas para mortos que nunca chegam. E dizem mesmo que, não raro, quando alguém desta cidade desaparece sem deixar vestígios, foi “o coveiro” que o enterrou, vivo, numa das covas que abre, para manter funcionando o que considera o “seu cemitério”... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não preciso dizer que Lourenço necessitou de cuidados médicos quando soube que tinha visto um fantasma. Também não preciso dizer que ele muito se esforçou para encontrar uma explicação racional para o ocorrido. Finalmente, convenceu-se de que não fora “o coveiro” que vira, mas alguém por quem o havia tomado – talvez outra pessoa que estivesse no local de passagem, prestando homenagens a seus mortos, embora não conseguisse explicar o fato de esse alguém estar ali justamente abrindo uma cova. O fato é que Lourenço acabou por se recuperar do susto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas jura que nunca mais tornará a entrar num campo-santo. E jura-o com tanta ênfase que temo que, nem mesmo depois de morto, o cimento que lhe feche a tumba será capaz de segurá-lo dentro dos portões de um cemitério... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JULHO DE 2007 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-*-*-*- &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nota: esta é uma obra de ficção, que não relata necessariamente minhas crenças, idéias e opiniões; qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-8319484783284299242?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/8319484783284299242/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=8319484783284299242' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8319484783284299242'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8319484783284299242'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-coveiro.html' title='O COVEIRO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-873034031199221643</id><published>2010-11-28T12:58:00.002-08:00</published><updated>2010-11-28T12:59:38.233-08:00</updated><title type='text'>A CARTA AMALDIÇOADA</title><content type='html'>A CARTA AMALDIÇOADA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: JOÃO CARLOS SAVEDRA MARIANO SAVEDRA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A carta amaldiçoada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casal dormia tranqüilamente. A filha de 6 anos dormia no quarto ao lado. Foi quando alguém tocou na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Droga! Quem deve estar batendo na porta dos outros a essa hora? Já é meia noite. (Fala Gustavo para sua esposa Fernanda.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não sei. Vai lá ver. (Responde ela com medo.) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele desce as escadas, coloca a mão na maçaneta, dá uma respirada e abre a porta. Quando abriu não viu ninguém, somente uma carta jogada no chão. Agachou-se e pegou a carta. Na frente do envelope estava escrito “corrente da fé” e não havia mais nada escrito. Gustavo pensou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deve ser mais um desses religiosos fanáticos, que vende tudo para encher a barriga desses pastores safados.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a demora do Gustavo para voltar ao quarto, Fernanda resolve ir até lá para ver o que tinha acontecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que foi? (Pergunta Fernanda, curiosa.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nada. Apenas um doido que deixou essa carta debaixo da nossa porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que carta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Uma carta. Deve ser desses fanáticos religiosos ou macumbeiros, sei lá. Vou abrir para ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não faça isso! Por favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pára de tolice, amor. É apenas uma carta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem escutar a mulher, Gustavo abriu a carta. Havia uma mensagem, escrita bem assim: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Às vezes para ficar rico custa caro. Quem tem fé, continua com a corrente. Para ganhar muito dinheiro, você tem que ter fé e passar essa mensagem para 10 pessoas em 30 dias. Agora, se você não tiver fé, e rasgar esta carta ou jogar fora, pode perder algo que mais ama no mundo.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo cai na gargalhada. Fernanda, assustada, fala que tinha avisado para não ler a carta. Ele, com um tom de ironia, diz: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Estou com medo. Rsrsrs... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda, chateada, pede para ele subir com ela no quarto, pois sua filha estava dormindo sozinha. Gustavo amassa a carta e a joga no lixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Treze dias depois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nove horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles acordam e percebem que a noite passou rápida. Nem ouviram a filha correndo no corredor, brincando. Fernanda se levantou da cama, e vai até o quarto da filha, para ver se ela já estava de pé. Quando chega no quarto, nota que a menina não está respirando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se assusta e coloca a filha entre seus braços. Gustavo também se assusta, veste rapidamente a camisa e pede para Fernanda se acalmar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda manda ele pegar a chave do carro e correm para o hospital. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando no hospital, a filha já estava sem vida. Tristeza, angústia e dor pungiam o peito da família que chorava sem parar. No velório, realizado na capela, tristes lembranças. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo não se conformava e logo lembrou da carta. Da maldita carta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horas depois do enterro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo e Fernanda sentados na cama, olhando as fotos da filha, em&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lágrimas, não se conformavam. Uma menina tão cheia de saúde, morrer dessa forma. Uma morte que nenhum médico descobriu a causa. Era muito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estranho. E novamente, na cabeça do Gustavo, vem a carta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, ele pegou papel e caneta, já pirado com a perda da filha. Fernanda, sem entender nada, pergunta: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você pretende fazer, Gustavo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Temos ainda 17 dias, para continuar a corrente e trazer nossa filha de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você está louco? Ela morreu. E qual corrente é essa que você está falando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A corrente da carta. Foi a carta que matou nossa filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Entenda. Nossa filha morreu. Ela não pode mais voltar. Ela não volta mais!! Nunca maisss!!! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim Gustavo ignorou a mulher e passou a madrugada escrevendo vinte cartas, para ter certeza que pelo menos 10 iriam ser lidas. As cartas eram semelhantes àquela que ele jogou fora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na madrugada seguinte, foi deixando as cartas debaixo das portas da vizinhança. A missão tinha sido cumprida. 20 cartas entregues, a corrente da fé estava feita, pensava Gustavo, fora de si. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezessete dias depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casal dormia tranqüilamente. Foi quando alguém bateu na porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo, meio sonâmbulo, pensava: “Quem bateria na porta dos outros uma hora da madrugada?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele desce a escada, coloca mão na maçaneta, respira fundo e abre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem ele vê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua filha!!! Toda suja de barro, com a roupa toda rasgada, sem nenhum arranhão e nenhum machucado. Como pôde estar debaixo de sete palmos, sem ter se machucado? Como pode estar com o corpo intacto, estando 17 dias soterrada debaixo da terra? Tudo era loucura. Estava difícil acreditar, mas era o que estava acontecendo. Era tudo realidade. Ela estava ali viva ... Viva como nunca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, Gustavo não estava nem ligando para isso. Deu um abraço bem forte na filha, muito emocionado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fernanda desce a escada e vê Gustavo abraçando a filha morta. Ela não agüenta e desmaia, caindo da escada abaixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gustavo tinha cumprido a corrente e conseguido a filha de volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas foi morto em seguida pela própria filha a dentadas, que, tendo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;voltado do mundo dos mortos, estava completamente diferente e sanguinária, parecendo um zumbi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, aquela entidade demoníaca, que antes era a filha do casal, também matou a mãe a dentadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, na vizinhança, muitas crianças morreram, por causa dos pais que não acreditaram na corrente da fé, feita pelo o Gustavo... ou melhor...pela carta amaldiçoada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-873034031199221643?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/873034031199221643/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=873034031199221643' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/873034031199221643'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/873034031199221643'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/carta-amaldicoada.html' title='A CARTA AMALDIÇOADA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-9093546204559434662</id><published>2010-11-28T12:58:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T12:58:52.885-08:00</updated><title type='text'>O APARTAMENTO</title><content type='html'>O APARTAMENTO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: C.R. CASSANOC &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O APARTAMENTO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da narrativa a seguir, não peço crédito nem aquiescência dos leitores. Eu mesmo custo a crer em fatos tão inverossímeis, todavia, asseguro-lhes que aconteceram na exata sincronicidade com que se sucederam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram quase sete da noite e Max ainda não tinha voltado para casa. Seu cachorro já estava sentindo sua falta. Dub era um bom cão. Barulhento, às vezes, mas o único companheiro de Max. No condomínio onde moravam, tinha sorte, pois os vizinhos gostavam de Dub e ninguém se importava com o alarido que fazia quando o seu dono chegava ou saia para as aulas na universidade. Maximiliano Ritter Jr. era o seu nome. Um rapaz jovem, de estatura mediana com características físicas bem definidas. Aparentava um estudante norte-americano típico, apesar de ser bem brasileiro. Louro e de olhos claros, sardas no rosto, óculos de grau com armação moderna, passava pelo olho clínico e aprovação da grande maioria das garotas que o conheciam. Alugara o apartamento havia três meses para estudar na capital. Na verdade seu pai, um pequeno empresário do ramo dos calçados do interior do estado, foi quem ajeitou as coisas para Max, que sempre foi muito introspectivo. Por sua excessiva timidez, nunca tivera namorada, apesar de ser apaixonado por uma menina de sua cidade, que nunca soube do amor que ele sentia. Sua vida era pateticamente banal em sua cidadezinha. E aqui, não era diferente. Era somente estudar, assistir ao noticiário na televisão e dormir. Buscava um estágio num conceituado escritório de contabilidade, mas queria conquistar a vaga sem a influência do pai. Às vezes, locava alguns filmes nos finais de semana, mas, invariavelmente, dormia bem antes dos bandidos serem presos ou mortos ou do casal de protagonistas viverem felizes para sempre. Também, eventualmente, passeava com Dub no parque central, bem próximo ao pequeno prédio onde moravam. A vida de Max se resumia em seis letras: ROTINA.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento era bem simples: Um quarto bem arejado e com cheiro de móveis novos, uma cozinha que mal cabia o fogão e a geladeira. Na sala, um sofá bordô em couro, estilo clássico, duas samambaias: uma próxima à janela e a outra na parede oposta; um quadro belíssimo que sua mãe o presenteara quando da última visita: uma paisagem japonesa expondo uma gueixa sorridente muito bem caracterizada, e com o monte Fuji ao fundo. Estes itens mais a TV e o DVD player no quarto davam a cara de lar ao pequeno imóvel. Dub dormia na minúscula área de serviço, o que para um cocker spanish não era lá grande coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, Max chegou mais tarde. Foi convidado por um colega para juntos irem até sua casa. Léo, o tal colega morava com a mãe e era, de fato, a única pessoa que Max se relacionava. Seu temperamento era o oposto de Max, fazia amizades fáceis, era bem popular, andava com muita gente e tinha muitos amigos. Max relutava sempre em sair do seu mundinho, contudo, naquela sexta-feira decidiu-se por fugir um pouco das suas convicções e experimentar algo além daquela tediosa rotina. Na casa de Léo, ouviram música, trocaram idéias sobre o próximo trabalho de filosofia e enquanto aguardavam o jantar, Max descobriu entre as coisas de Léo, um álbum com selos do mundo inteiro. Manuseou, sentiu a textura dos mais raros e interessantes. Ficou fascinado, pois, adorava o assunto. Ele mesmo, quando moleque, colecionava selos e moedas antigas que acabaram no seu baú escondido no quarto na casa dos pais. O colega de turma de Max recebia os selos pelo correio numa espécie de clube de troca, com membros de todo o mundo. Mais tarde acessaram a internet para saber de um objeto de pesquisa para o trabalho de metodologia a ser entregue na próxima semana. Quando finalmente foram chamados por dona Laura para a refeição, já passava das nove. Na janta, nada de especial: fritas, arroz, bife de frango e salada verde. Ao redor da mesa, a mãe de Léo questionou Max sobre a vida no interior e demonstrou uma certa nostalgia, falando da época em que também morava num pequeno povoado do oeste do estado. A conversa, por fim, acaba quando dona Laura lamenta a violência nas grandes cidades, com a concordância do filho que já havia sofrido dois assaltos, felizmente sem graves consequências. Ainda falaram de amenidades e sobre peculiaridades do meio universitário. Léo ainda convidou Max para uma festa no campus. Era do curso de psicologia e haveria muitas meninas. Max recusou timidamente agradecendo o convite, apesar da insistência de Léo. Achava, intimamente, que já tinha feito muito por uma noite. Disse que precisava terminar um trabalho, despediu-se em seguida partiu. A noite estava bem agradável e resolveu ir caminhando até em casa, passou por bares lotados, pessoas de todos os tipos, gente bêbada e drogada, prostitutas nas esquinas, casais de namorados entrando e saindo de pizzarias, som de sirenes diversas. A metrópole mostrava a sua cara naquela sexta-feira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte e três e trinta foi o horário que ele pisou no hall de entrada de seu prédio. Dub, como de costume, foi dar as boas vindas barulhentas a Max, logo que ouviu o tilintar peculiar das chaves no corredor escuro do condomínio. Como sempre Max afagava e cumprimentava seu companheiro peludo como se fosse gente. Ao entrar sentiu uma estranha sensação. Parecia que tudo estava mudado. Sentia como se nunca estivera ali antes. Os tons de cores dos móveis da sala, as sombras das samambaias na parede bege e até os cheiros peculiares da casa soavam diferentes, no entanto, nada tinha mudado. Era realmente muito estranho e, um estranho era como se sentia sentado em seu próprio sofá. Sentia um medo sem sentido, sem razão de ser. Flashes de memória o levaram de volta a primeira infância quando sua mãe o obrigou a dormir pela primeira vez num quarto só seu. Sempre dormira com os pais, mas um menino de dois anos já deveria dormir sozinho. E, mesmo com a luminária de cabeceira acesa sentiu terror e pânico aquela noite. Ouvia os gemidos e gritos de sua tia que sofria de câncer terminal, no quarto ao lado. Quando finalmente o sono o dominava, era despertado por risadas estéricas da tia moribunda que já não tinha domínio de suas faculdades mentais. Os médicos já não davam esperanças à família. Não havia nada que pudessem fazer e depois de sete meses no leito de hospital, acharam por bem mandá-la para casa. Só tinha mais duas semanas de vida e sua morte foi um alívio para toda a família, principalmente, para o pequeno. Até os dez anos tinha pesadelos freqüentes e, que aos poucos foram desaparecendo. Muito provavelmente este trauma, aliado a incompreensão dos pais tenha influído na personalidade tímida e anti-social de Max. Os pais procuraram a ajuda especializada de um psicólogo. Dr. Muller era filho de um velho conhecido da família e não poupou esforços nem tempo para a recuperação do menino. Viajavam ele e sua mãe, cento e vinte quilômetros toda a semana até a capital para as consultas. Aos poucos Max foi exorcizando seus monstros interiores e a vida seguiu seu curso normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora todo o passado parecia voltar mais denso e ameaçador do que antes. Parecia um medo concreto, palpável. Ele então sente o peso da solidão. Pela primeira vez Max se dá conta da sua condição. Pensa em retornar à casa de seu colega, mas lembra que ele, a estas horas já deveria estar rodeado de garotas na tal festa no campus. Liga para a mãe tentando afastar aquele sentimento bastante insólito e respirar um pouco de realidade. O telefone chama uma...duas...três vezes e ele desiste. Quem sabe ela e seu pai já estivessem na intimidade do quarto ou ainda, talvez neste exato momento, apostando no bingo da sexta no clube comercial. O fato é que aquela impressão não findava. Olha novamente para os objetos a sua volta e a sensação não passa. Faz uma imagem mental e dá uma ordem para si mesmo: ”Você esta na sua casa. Aqui é o lugar mais seguro desta cidade”. Olhando agora de soslaio para o quadro na parede ao lado tem a nítida impressão que o rosto da mulher no quadro é bastante familiar. É o rosto de sua tia morta. De repente Max escuta sons que não vem de fora. A coisa acontecia dentro de casa. Era como um sussurro imitando vozes. Distinguia um diálogo inaudível entre as mesmas. Sentiu um arrepio subindo dos tornozelos passando pelas pernas e coluna até a base da nuca. O tal murmúrio procedia da cozinha e ele pressentia que não se tratava de algum arrombador ou mesmo de algum parente querendo fazer alguma surpresa. O som parecia não ser humano. Sua respiração acelerou até ele estar quase arfando. Ao mesmo tempo sentiu um cheiro de podridão, de carne exposta a temperatura ambiente a dias. Um cheiro asfixiante e pegajoso como se estivesse diante de um sepulcro aberto. Lentamente, ergueu o corpo trêmulo do sofá e se dirigiu à fonte daqueles ruídos. Deslizava trôpego sobre a forração macia do corredor e já avistava o piso xadrez da cozinha, quando, inerte, se deteve na porta. Seu sangue gelou nas veias, teve náuseas e mergulhou num mar de insanidade e terror. Diante de seus olhos, duas criaturas do tamanho de ratos pendiam da luminária por cordas (ou seriam teias), tinham o corpo disforme e cinzento, garras afiadas, olhos vermelhos como sangue fresco e a expressão debochada, própria de todos os demônios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Este deve ser o humano que viemos buscar! – aponta cinicamente, a criatura de aspecto mais medonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não percamos mais tempo vamos terminar o que viemos fazer. – incita a outra, com a voz lembrando alguém se afogando na lama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste exato instante Max sente que vai desfalecer. O medo o paralisa e a realidade parece não ter mais sentido nenhum. Os dois seres, a feição de aranhas, balançam nos fios por eles produzidos e arremetem na direção do garoto em estado de choque. Com toda loucura e horror da situação, Max sai do estado letárgico foge em desabalada carreira pelo corredor, tropeça na mesinha de centro da sala e cai. Olha por um segundo na direção da cozinha e por este instante imagina ter sido um terrível pesadelo. Ouve um ganido agudo e familiar. Lembra que Dub deveria estar na área de serviço. Visualiza o corredor e assiste uma cena digna dos piores filmes de terror que já assistira: Os seres apanham o cão e o imobilizam rapidamente tecendo um emaranhado de fios brancos em volta do seu pequeno corpo. Os latidos ecoam muito alto no condomínio inteiro, mas cessam meio minuto depois. No chão do corredor do apartamento 302 locado por Maximiliano Ritter, jazia um corpo inerte, já sem vida mumificado em um casulo fétido. Era do melhor amigo de Max. O garoto assustado, e já quase sem forças, começa a gritar em desespero, quando uma das criaturas se dirige a porta de saída, nitidamente com o propósito de bloquear a possível fuga de Max. A outra se dirige sorrateira na direção dele que sobe no sofá. Aumentam os gritos e alguns vizinhos escutam. O avanço rápido dos seres, encurrala Max contra a janela da sala. Neste momento os vizinhos do mesmo andar, alarmados pela algazarra, já se dirigem a entrada do apartamento. A velha senhora do 304 liga para a polícia. Max sobe no parapeito da janela e começa a pedir ajuda chamando a atenção de transeuntes que passam. Os pequenos demônios elevam-se no ar com asas negras como morcegos e avançam na direção da janela onde, Max pende quase sem forças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Iremos te arrastar agora para a terra das sombras de onde nunca deveria ter saído Max!!! – vocifera o mais sinistro.- Sua tia querida te espera ansiosa!! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste instante, cada um dos visitantes vomita uma espécie de gosma branca por sobre o corpo de Max que perde o equilíbrio e mergulha no vazio. Um urro lancinante se propaga pelo bairro inteiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia-noite e dez minutos o corpo de Max se estatela na calçada, rachando o crânio em duas partes. Pessoas que acompanham o episódio choram alarmadas e não entendem. Cria-se uma tremenda confusão quando a policia chega e sobe imediatamente à casa de Max. Dois inspetores: um calvo e alto com um bigodinho bem peculiar e o outro mais jovem com aparência nitidamente assustada sobem rapidamente, saltando de dois em dois degraus no prédio sem elevadores. Arrombam a porta e adentram no apartamento. Começam a procurar algum indicio do que, de fato, poderia ter acontecido. Aparentemente tudo está em ordem. Vasculham o quarto, a cozinha e nada de pistas. Atrás do sofá, na sala, encontram Dub muito assustado e ninguém mais. Agora procuram ouvir o testemunho dos vizinhos. Interrogam quatro testemunhas que não esclarecem os fatos. Tudo leva para a hipótese de suicídio. Na calçada o corpo de Max estirado é observado agora por dezenas de curiosos enquanto não chega o carro da perícia. O trânsito no local, apesar do horário, fica caótico já que o acidente acontece bem próximo a uma grande avenida. Uma vizinha, solteirona, que simpatizava com o garoto se oferece para cuidar do cão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma e quinze da madrugada de sábado: chega finalmente o carro do departamento médico legal. No pequeno prédio de três andares a comoção é geral. Funcionários e paramédicos juntam um corpo esfacelado na calçada sob os olhares alarmados de casais, jovens, punks e outras tribos noturnas que saíram de casa naquela sexta para se divertir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco e meia da manhã. Um mendigo passa catando coisas, de preferência, comestíveis nas cestas de lixo da rua. Nenhum vestígio do acidente. Ele passa desapercebido em frente ao prédio de Max. Em uma das mãos uma garrafa de aguardente quase vazia e na outra um punhado de jornais velhos. Dirige-se ao parque central com passos cambaleantes. Atravessa a avenida e já avista o seu banco de praça favorito. Dobra os jornais e faz deles um improvisado travesseiro. Deita-se impávido na sua alcova ao ar livre. Uma das páginas cai ao relento. Justamente a primeira página do jornal mais importante da cidade. No rodapé, junto às noticias de esporte, uma pequena manchete se salienta já com a aurora de um novo dia: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOVA MODALIDADE DE TRÁFICO. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desbaratada uma quadrilha holandesa de traficantes de drogas. Ela passava o LSD (acido lisérgico) através de selos postais. A droga liquida era gotejada nos selos não perdendo as propriedades quando em contato com o ar. Veja mais detalhes na pág. 28. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-9093546204559434662?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/9093546204559434662/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=9093546204559434662' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/9093546204559434662'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/9093546204559434662'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-apartamento.html' title='O APARTAMENTO'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-5243760383685638875</id><published>2010-11-28T12:57:00.002-08:00</published><updated>2010-11-28T12:58:02.917-08:00</updated><title type='text'>A RELÍQUIA</title><content type='html'>A RELÍQUIA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: Andreia Santos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Relíquia &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espelho era oval. Tinha uma moldura de prata onde se podia ver monstros marinhos e sereias entrelaçados numa dança sem fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava colocado por cima de um tocador de madeira trabalhada igualmente com motivos marinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento reflectia a ocupante da grande cama de dossel. Do alto caiam grandes cortinas de um vermelho translúcido deixando entrever a mulher que estava deitada em pesados lençóis escuros. Era pequena de feições miúdas. O longo cabelo estava espalhado nas almofadas caindo para o chão, era tão loiro que parecia branco. Os olhos que agora se encontravam cerrados eram cinzentos. A camisa de noite branca dava-lhe um aspecto fantasmagórico, no meio da decoração escura do quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A superfície lisa do espelho modificou-se de repente, deixando de reflectir o quarto, via-se agora um torvelinho de espirais escuras que de tempos a tempos era atravessado por raios luminosos. Lilande abriu os olhos, levando-se e dirigido-se imediatamente para o estranho espelho como se tivesse recebido qualquer tipo de aviso durante o sono. Sentindo a sua aproximação a imagem alterou-se imediatamente – um punhal antigo surgiu no espelho. Pequeno, com o cabo curto onde se podia ver duas cobras entrelaçadas cujas bocas na extremidade do punho, sustentavam uma grande pedra vermelha. Onde? Sussurrou ela – a imagem alterou-se passando a mostrar um forte á beira rio. Com um grito de triunfo voltou-se com a camisa a ondular atrás de si, colocou uma capa preta sobre o ombros e saiu de casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apoiada descontraidamente numa arvore ela esperava. Conseguia ver o vale que se entendia na noite sem luz. Era lua nova. O forte de pedra placidamente junto do rio; ás vezes conseguia vislumbrar as patrulhas no alto da muralha. Uma rajada de vento envolveu-a num mar de tecido e cabelos, como se fosse o sinal por que tinha esperado, endireitou-se, jogou o capuz para trás deixando o longo cabelo á mercê da ventania, levantou os braços fazendo com que as largas mangas se agitassem atras de si dado a ilusão de serem grandes asas. De braços e rosto voltados para o céu um longo murmúrio escapa-lhe por entre os lábios entreabertos. A sua voz vai subindo de tom até praticamente gritar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cima da muralha os homens sentiram um arrepio frio descer-lhes pela espinha. Alguns fintaram o céu de sobrolho franzido; parecia que a noite se tinha tornado ainda mais escura....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moveu-se com uma rapidez assustadora. A capa ondulava atras de si á medida que atravessava o vale em direcção ao forte. Um dos homens teve a sensação de ter visto alguma coisa, mas quando voltou a olhar não conseguiu ver nada na escuridão. Uma sombra, nada mais. Chegada á parede de pedra parou por momentos. As mãos de longos dedos brancos pareciam acariciar a pedra. Primeiro uma mão, depois a outra e começou a escalar a parede lisa sem dificuldade aparente como um enorme morcego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar ao cimo uma janela abriu-se sem ajuda e Lilande entrou, caindo no chão suavemente sem fazer nenhum som. Estava numa sala circular mesmo no cimo da torre. O chão estava revestido por um espesso tapete c motivo circulares da cor do fogo. Uma lareira onde cabia um homem de pé, estava vivamente acesa, no centro da sala havia uma pesada mesa de madeira onde se via um estojo negro subcomprido - Os olhos cinzentos de Lilande adquiriram um estranho brilho dourado ao passarem por ele. Voou na direcção da mesa mas ao tocar no estojo este desapareceu numa nuvem de fumo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As gargalhadas que encheram a sala vinham de uma porta que ainda não tinha visto. Na soleira estava uma mulher contorcida de riso. As gargalhadas apesar de cheias deixavam entender um misto de escárnio e maledicência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando finalmente se endireitou e fintou Lilande o cinzento e o verde encontraram-se, observado-se mutuamente como dois adversários no campo de batalha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que achaste da minha pequena partida? Eu tinha a certeza que vinhas. Sabia que aquele teu espelho te avisava. Quando te matar é a primeira coisa que vou buscar... – os olhos verdes brilharam de satisfação &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde está o punhal? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardado. Onde tu nunca poderás meter-lhe as tuas mãos nojentas em cima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está com o príncipe? O senhor do forte que tu andas a enganar? Diz-me Arianna, ele sabe quem tu es, o que tu es?- os olhos verdes tornaram a brilhar, mas desta vez de fúria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atreve-te a tocar-lhe num cabelo e juro que te faço pagar!! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O riso de Lilande assemelhava-se ao som de um espanta espíritos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá-me punhal e vamos acabar com isto! Não estou com paciência para ao teus joguinhos. Dito isto impulsionou-se através da sala com as mãos esticadas em direcção á garganta de Arianna com uma expressão horripilante no rosto que a fez parecer uma ave de rapina. Dando uma volta sobre si mesma Arianna desapareceu da soleira da porta para surgir na outra ponta da sala. Lilande uivou e voltou o rosto na sua direcção! O punhal, maldita! AGORAAAA!! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas mulheres correram ao encontro uma da outra e quando se alcançaram foi um choque de titãs. As muralhas de pedra estremeceram até aos alicerces. Com uma agilidade sobrenatural as duas mulheres saltavam, rodopiavam, atacavam e esquivavam-se dos ataques mútuos. Por vezes o poder era tanto que quase se conseguia ver o ar tremeluzir quando alguma delas lançava um feitiço mais forte. Parecia que nenhuma era mais forte que a outra... ate que a meio de um ataque Lilande desapareceu. Mostra-te! – rosnou Arianna. Olhando desesperadamente em redor da sala, viu a janela abrir devagar e a escuridão a entrar: Vagas e vagas de escuridão rolaram para entro da sala até que depressa não conseguia ver nada. Ouviu algures o riso cristalino de Lilande. Agora estamos no meu elemento bruxa! Quero ver como te sais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arianna sabia que não a ia vencer na escuridão. Liliande era a Senhora das Trevas enquanto que ela comandava as águas, e no cimo da torre não se podia valer desse poder. Tinha de alcançar a portas, tinha de descer o suficiente para poder alcançar o leito do rio. Ao dar um passo atras embateu contra a mesa, baixou-se e ficou debaixo dela esperando. Conseguia distinguir o roçar no vestido da outra mulher á medida que ela se aproximava ; quando a sentiu mais perto levantou as mãos em concha á altura do rosto e soprou, de imediato surgiu uma chama azulada, fogo-fátuo. O mais depressa que conseguiu correu em direcção á porta, estava já a atravessa-la quando sentiu as unhas a cravarem-se no ombro, sacudiu a mão da outra mulher e continuou a correr. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vestido atrapalhava-a e as trevas continuavam a persegui-la pelas escadas abaixo , tropeçou nos últimos degraus ficando de bruços no chão, tentou levantar-se mas sentiu que algo a aprisionava contra o chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lilande descia as escadas calmamente, envolta em nuvens escuras. Parou por momentos na base da escadaria olhando a adversaria presa... sorriu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vais pagar por todos estes anos que estive presa! Todos os anos em que mantiveste o punhal magico fora do meu alcance. Todos os anos em que me impediste de ser a mais poderosa!! E tudo para dares o poder a um homem! E mortal!!! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inclinou-se na direcção da prisioneira. Os dedos brancos e frios acariciaram a face morena afastado os densos caracóis dos olhos verdes - Podias ter sido tão poderosa Senhora da agua... bastava teres-te joelhado perante mim....&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O movimento de Arianna foi tão rápido que Lilande nunca o viu. De repente uma das mãos soltou-se e nela apareceu um punhal curto, com uma enorme pedra vermelha, que Arianna enterrou no peito da Senhora da Escuridão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que a mulher loira caiu Arianna sentiu-se livre. Afastando o cadáver de cima de si levantou-se. Ficou parada, de pé, com os braços caídos ao longo do corpo fintando o corpo inerte da outra. Uma lagrima solitária caiu-lhe pela face ao mesmo tempo que um gota de sangue caia do punhal que continuava na sua mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arianna?- perguntou uma voz doce. Á porta do hall estava Mab, a pequena irmã do senhor do forte. Que aconteceu? Quem é? – perguntou apontando para Lilande caída. Alguém que se perdeu nas trevas... – outra lagrima atravessou a sua face. Sentiu o peso da mão pequenina e quente no seu ombro. Não estejas triste Arianna. Ela já estava perdida há muito tempo. Lilande já não era uma de nos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos verdes arregalaram-se, como sabes? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como sei o quê? – perguntou a criança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nome dela! Como sabes que se chamava Lilande?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sorriso que nasceu no rosto da pequeno foi quente e tão rasgado que reduziu os grandes olhos negros a fendas. Aproximou de Arianna, abraçando- a. Não es só tu que tens um segredo Senhora da Agua – cantarolou-lhe ao ouvido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente foi como se estivesse a pegar fogo por dentro, as dores insuportáveis, mas perante o olhar fixo da criança não conseguia gritar por ajuda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mab sentou-se numa cadeira próxima da lareira, que á sua aproximação se avivou como se tivesse sido atingida por um jacto de petróleo, ficando a observar a mulher mais velha a ser consumida por chamas interiores, até não restar mais do que um cadáver retorcido e fumegante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espelho oval, pendurado num parede distante, mais uma vez não reflectia o quarto. Na sua superfície podia ver-se uma menina, que aparentava não mais de 12 anos, com os cabelos ruivos brilhantes dançando em volta de um rosto angelical. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos já não eram negros, mas de uma estranha tonalidade avermelhada, ou talvez fossem só os reflexos das chamas. As mãos pousadas no colo brincavam com um estranho punhal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espelho meu, espelho meu, quem é a senhora mais poderosa que eu? – cantarolou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela que guarda o punhal magico. Es tu a mais poderosa, Senhora do Fogo – respondeu-lhe um murmúrio.... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-5243760383685638875?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/5243760383685638875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=5243760383685638875' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5243760383685638875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5243760383685638875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/reliquia.html' title='A RELÍQUIA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-5808941849787492709</id><published>2010-11-28T12:57:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T12:57:30.110-08:00</updated><title type='text'>À ESPERA DO APOCALIPSE</title><content type='html'>À ESPERA DO APOCALIPSE &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: LUIZ POLETO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À espera do apocalipse&lt;br /&gt;Luiz Poleto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrito entre 14 e 16 de novembro de 2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Freeze this moment, a little bit longer”&lt;br /&gt;Time Stand Still - Rush &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante um período de cinco anos, aproximadamente, vaguei por diversas cidades, com o único propósito de esquecer. Parti de minha cidade natal com nada mais do que uma mochila contendo algumas poucas roupas, deixando para trás apenas minha casa, já que não havia familiares e muito menos amigos. Fora abandonado por todos desde a fatídica data em que, acidentalmente, provoquei a morte da única pessoa que amei em toda a minha vida. Os amigos e familiares – meus e dela – não acreditaram que havia sido um acidente, e, ao invés do apoio que eu precisava, fui covardemente abandonado por todos. O estado em que minha mente se encontrava era tão caótica que nem quando tentei suicídio eu obtive êxito. Após este episódio, resolvi deixar a minha antiga vida para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava andando por uma estrada totalmente sem movimento, quando uma tempestade começou a se armar no horizonte. As nuvens cinzentas davam um estranho tom azulado ao local, e o silêncio mórbido que me cercava traziam uma tristeza inimaginável. Senti um forte aperto no coração, como se alguém o estivesse apertando, e lágrimas começaram a rolar por minha face. Na minha frente, pude ver a minha amada dançando, exatamente como da última vez que estivemos juntos. Seus longos cabelos negros dançavam junto com ela, em movimentos aleatórios no ar. Naquele momento, caí de joelhos no acostamento da estrada, aos prantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando voltei ao normal, com a vista ainda embaçada por causa das lágrimas, pude perceber, a alguns metros do acostamento, um imenso portal de madeira, que devia medir cerca de três metros de altura, por aproximadamente dois metros de largura. Aproximei-me daquela curiosa construção, já extremamente deteriorada pelo tempo, e percebi que, embora semi-destruída, ainda mantinha alguns de seus detalhes originais, uma série de entalhes em baixo relevo feitos na madeira, que tinham características muito peculiares. Pareciam hieróglifos – mas talvez fossem ideogramas. Ao fundo, uma longa estrada de terra estendia-se além de uma pequena colina. Como a tempestade era iminente, resolvi seguir a estrada na esperança de encontrar alguma construção que pudesse me abrigar até a chuva passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estrada era longa e tortuosa. Depois de duas horas de caminhada, cheguei ao topo da colina. Fiquei ao mesmo tempo maravilhado e assustado quando vi que no pé da colina havia uma cidade inteira, com casas em uma arquitetura que eu nunca vira. Rapidamente consultei meus mapas de viagem, e fiquei surpreso quando vi que nem a cidade e nem mesmo a estrada que eu caminhara horas antes estavam no mapa; tudo o que havia era uma imensa área vazia. Enquanto eu consultava meus mapas, pude ouvir, bem ao longe, o badalar de sinos. Aquele som me causou um terror agudo, pois badalavam de forma macabra, soando como um convite para um eterno passeio no inferno, guiado pelo próprio Lúcifer. Embora o som fosse de diversos sinos, não soavam como sinos. Guardei os mapas em minha mochila, pensando em ir embora daquele lugar, mas alguma coisa me atraía ali. Como a chuva estava começando a cair, me apressei em descer a colina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade era envolta por um grande muro, e um portal semelhante ao que encontrei na beira da estrada estava localizado ao centro, permitindo o acesso para dentro da cidade. Entrei na cidade, seguindo pela rua de pedras que extendia-se à minha frente. A rua era muito estreita, e as casas pareciam avançar sobre ela, quase a devorando; em alguns pontos, podia-se perceber que os estranhos telhados das casas encontravam-se, formando um medonho túnel. Tentei bater na porta da primeira casa da cidade, mas não obtive resposta; e assim foi com as várias casas subsequentes. Os sinos ainda tocavam sua macabra sinfonia, mas agora com um volume muito mais alto. Segui pela rua à minha frente, sem encontrar ninguém no caminho. A cidade parecia totalmente deserta – fato que era corroborado pelo péssimo estado de conservação geral da cidade. Mas se estava deserta, quem estava tocando os sinos? Com a chuva agora caindo fortemente, resolvi seguir as badaladas, na esperança de encontrar alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por alguns minutos, caminhei por ruas que pareciam exatamente iguais, com as casas aglomeradas e quase se tocando no ar. Escolhi, quase aleatoriamente, os caminhos a seguir quando eu encontrava alguma bifurcação ou cruzamento, tentando sempre seguir o badalar infernal dos sinos. Mas, embora eu tivesse continuado andando, muitas vezes eu achava estar sempre no mesmo lugar, uma vez que as casas tinham a mesma aparência esquisita, e as ruas eram exatamente iguais. Meu passo já estava apressado, quase correndo, quando uma sensação de claustrofobia começou a tomar conta de mim; eu queria desesperadamente sair daquele lugar. Tentei refazer o caminho de volta, mas eu parecia retornar sempre ao mesmo lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu parei para pegar um pouco de ar, tive a sensação de ver um vulto passando por trás de mim. Olhei para trás, mas tudo o que vi foi a mesma rua de sempre. Olhando um pouco mais atentamente, percebi que a porta de uma das casas estava entreaberta. Cautelosamente, dirigi-me até lá, olhando ao redor para certificar-me de que ninguém estava à espreita. Chegando na porta, chamei por alguém, mas, como eu já imaginava, ninguém me atendeu. Empurrei bem devagar a porta, para deparar-me com uma escuridão que eu nunca havia visto antes. Com o ritmo do coração acelerado, empurrei um pouco mais a porta e coloquei a cabeça para dentro, procurando alguma fonte de iluminação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava com metade do meu corpo do lado de dentro da casa, quando, novamente, vi um vulto passando atrás de mim. Assustado, virei-me para tentar descobrir quem estava tentando me pregar uma peça, mas novamente não vi ninguém. Resmungando, virei-me para a frente para entrar na casa, mas dei um pulo quando deparei-me com alguém, ou alguma coisa, a poucos centímetros de mim. Não pude conter o grito de horror quando aquela coisa – mais ou menos do meu tamanho – segurou fortemente meu braço. Senti um formigamento quando aquela mão gelada me tocou; lutei com todas as minhas forças para me soltar daquilo que apenas balbuciava alguns sons incompreensíveis. Aqueles grunhidos, aliás, não poderiam vir de lugar nenhum, pois, quando olhei para o rosto da criatura, novamente suei e estremeci, quando percebi que não havia rosto, apenas uma cabeça, branca como o resto do corpo, mas com um horrível tom azulado. Embora não houvesse olhos, eu sentia que aquilo me olhava, e seu olhar tinha o incrível poder de me causar medo como eu nunca sentira antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei as costas para a criatura e começei uma corrida desenfreada pelo tortuoso labirinto que era aquela cidade. Por alguns minutos não olhei para trás, mas quando o fiz, tropecei devido ao pavor que me dominou, não apenas a criatura que havia me agarrado estava me seguindo à distância, como dezenas exatamente iguais a ele, todos balbuciando o mesmo estranho som, que fazia uma harmonia perfeita com o badalar infernal dos sinos, que agora estava mais alto do que nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri, como eu nunca havia corrido antes, e, depois de alguns minutos, vi o que parecia ser uma saída daquele labirinto. Cheguei a um lugar que parecia um oásis em meio àquele inferno que descansava atrás de mim. Um imenso lago, com uma imensa cadeia montanhosa ao fundo, adormecia traquilamente à minha frente. Misteriosamente não chovia ali, embora o céu estivesse totalmente nublado, com o sol fazendo um esforço imenso para sair, mas impedido pela densa massa de nuvens. Senti aqui o mesmo tom azulado que eu sentira na estrada, o que me causou um certo enjôo ao relembrar a cena que eu vira naquela ocasião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei a esquecer por completo das coisas que me seguiam quando vi um pouco à minha frente um banco de madeira, onde uma mulher permanecia calmamente sentada, aparentemente apreciando a estranha visão que nos era oferecida. Aproximei-me devagar e sentei ao seu lado. Antes que eu pudesse vê-la ou falar alguma coisa, a mulher virou-se para mim, e nesse momento, meus olhos encheram-se de lágrimas novamente, um frio congelante percorreu minha espinha quando minha amada olhou em meus olhos e me perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava em prantos quando perguntei o que ela fazia ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou fazendo a mesma coisa que faço desde o dia que você me matou, estou aqui, sentada, aguardando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aguardando o quê? – Perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você. – Ela respondeu, com o sorriso mais lindo que eu já vira até então.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E estas criaturas, o que são? – perguntei, olhando para trás e descobrindo que as coisas haviam sumido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estão aqui para ter certeza de que não iremos embora. Devemos ficar aqui, até que chegue a nossa hora de partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que eu pudesse fazer mais perguntas, ela segurou minha mão e fez sinal para que eu ficasse calado. Embora confuso, eu estava extremamente feliz por poder vê-la novamente, embora eu não tivesse certeza se ela estava morta ou viva. Na verdade, isso não fazia muita diferença, a sensação de estar ao lado dela, mesmo que calados e sem poder tocá-la era indescritível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos por muitas horas sentados naquele banco, ouvindo o badalar incessante dos sinos e apreciando aquela paisagem sinistra, mas cativante. Anoiteceu, e o céu começou a adiquirir uma coloração estranha, vermelha, lilás, ou algo parecido com isso. O lago à nossa frente começou a se agitar, quando o fogo começou a brotar de sua superfície; em alguns pontos, via-se que o fogo crescia criando uma chama que ia direto ao céu sangrento, criando um espetáculo funesto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando virei o rosto para perguntar o que acontecia, vi minha amada me olhando de forma estranha, eu podia ver a fúria em seus olhos, e seu corpo estava em avançado estágio de decomposição. O sangue escorria de sua boca e a faca que eu acidentalmente cravara em seu coração ainda estava ali. Ela gritava, chorava, e me segurava com uma força incrível; eu não podia me soltar. Eu já estava no chão quando vi as criaturas vindo para cima de mim e, embora sem rosto, começaram a devorar, lentamente, cada pedaço de meu corpo, assim como minha amada. Os sinos agora badalavam de forma histérica, e mais e mais chamas saíam do lago em direção ao céu. Eu já sentia o sangue escorrendo de minha boca e a dor de ser comido vivo era dilacerante. Alguns de meus dedos eram delicadamente saboreados, enquanto outros eram arrancados de forma violenta. Não consigo, em palavras, descrever toda a dor que senti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, tudo ficou escuro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acordei, o lago estava absolutamente normal, assim como o céu, embora ainda tivessem o tom azulado de outrora. No banco ao meu lado, minha amada continuava sentada, mas seu corpo estava em perfeito estado e ela tinha um pequeno sorriso de felicidade. Uma dor aguda tomou conta de mim quando tentei me levantar, e então percebi que o estrago feito na noite anterior ainda estava em mim. Alguns dedos faltando, sangue por todo o lado e uma dor horrível vinha de dentro de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um esforço imenso, levantei-me e sentei-me no banco, ao lado dela. Por maior que fosse a dor, a sensação de estar ao lado dela era maior do que tudo. Mas, assim que me sentei, ela levantou-se e foi embora, sem dizer uma palavra. Permaneci sentado, chorando, pois eu sabia, naquele momento, que a hora dela ir embora havia chegado, e que, toda a noite, eu teria que viver o castigo de ser devorado por criaturas sem face. Aquele era o meu inferno pessoal, era o meu castigo por ter matado a mulher que mais amei. E o que mais doía não eram as mordidas ou a sensação de ter meus órgãos arrancados, mas era a visão dela indo embora. Então eu sentei no banco, e contemplei as montanhas, pois eu sabia que por mais que eu corresse, eu jamais conseguiria sair daquela cidade. E fiquei ali sentado, aguardando o meu apocalipse pessoal chegar junto com a noite, trazido pelas criaturas sem face.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-5808941849787492709?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/5808941849787492709/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=5808941849787492709' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5808941849787492709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5808941849787492709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/espera-do-apocalipse.html' title='À ESPERA DO APOCALIPSE'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-2844596775727208104</id><published>2010-11-28T12:54:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T12:55:11.936-08:00</updated><title type='text'>A VOZ</title><content type='html'>A VOZ &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: VÍTOR BASÍLIO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A VOZ &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vítor Basílio &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário ia saindo de casa um pouco apressado. Quando estava abrindo a porta, ouviu uma voz dizer: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se assustou e ficou imobilizado. Quem tinha dito aquilo? Será que havia perdido o juízo e estava ouvindo coisas? Olhou ao redor e tudo continuava do mesmo jeito. Colocou-se atrás da mesa e disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem disse isso? É melhor sair porque eu não estou para brincadeiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua voz tinha saído baixa e pouco convincente. Mário achou que poderia ter sido alguém na rua ou um vizinho quem havia dito a tal frase. Ia sair novamente, quando foi pego de sobressalto: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O impacto foi menor desta vez, mas fez os pêlos de seu corpo se arrepiarem. Voltou para trás da mesa e segurou firme uma cadeira. Olhou para a parede da frente e disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor, quem estiver aí saia. Se for um ladrão eu juro que não chamo a polícia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só escutou o ruído da sua respiração. Suas mãos tremiam e o coração batia tão forte, que Mário podia sentir a pulsação no céu da boca. Também suava frio. Um fantasma em sua casa? E o que ele queria? Sua mente inventava muitas teorias. Sentou-se no sofá e tentou achar uma explicação lógica para aquilo. Novamente pensou que poderia ser alguém conversando na rua. Levantou-se e olhou pela janela. Constatou que não havia ninguém passando e muito menos conversando. O medo percorria seu corpo novamente. Teria mesmo perdido a razão? Respirou fundo e resolveu conversar com aquela voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você quer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obteve resposta. Olhou para o teto e depois para o corredor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me diga o que você quer comigo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, Mário não se assustou tanto. Reparou mais na voz. Era forte e grave, aparentando ser de um homem de meia idade. Ainda sentado no sofá e olhando para o corredor, tornou a perguntar: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou me atrasar para quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Ele começou a achar que a conversa não sairia disso. Agora estava mais convencido de que a voz era real e não um produto da sua imaginação. O medo havia diminuído, mas ainda estava receoso de que pudesse ser algum tipo de espírito maligno tentando fazer uma brincadeira mortal com ele. Mesmo assim, decidiu falar num tom mais provocativo: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos lá, o que você quer me dizer? Para quê eu vou me atrasar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz nada disse. Mário já estava ficando irritado. Levantou-se do sofá e foi até a cozinha beber um copo de água. Ficou observando durante o caminho se não via algum vulto ou coisa parecida. Chegando à cozinha, olhou o seu quintal através da janela, para se certificar de que não poderia ser um ladrão. Não vendo ninguém, tomou água e voltou à sala. Quando ia se sentar, ouviu de novo a voz: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário continuou em pé. Estava cansado desse aviso misterioso. Se tinha que enfrentar uma força sobrenatural, havia chegado à hora e ele estava pronto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não sei o quê você é – ele disse enquanto ia em direção ao corredor – mas eu irei descobrir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi até seu quarto e acendeu as luzes. Não havia ninguém lá. Checou o banheiro e também não encontrou nada. No quarto de visitas tudo estava na mais perfeita ordem. Seguiu para o quintal e deu a volta na casa. Não achou nada nem ninguém. Saiu até a rua em frente a sua casa e ela continuava deserta. Voltou até a sala e gritou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem, já chega dessa brincadeira. Me diga agora o que você quer comigo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a voz, tranqüilamente, respondeu: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário, explodindo em raiva, agarrou uma cadeira e quebrou-a ao batê-la violentamente contra o chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me diga algo que tem algum sentido. Para quê eu vou me atrasar? Me diga logo, eu tenho coisas mais importantes para fazer, como ir buscar minha namorada no trabalho e... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, tinha que sair para buscar Flávia no trabalho. Combinou com ela e agora havia se esquecido. Olhou no relógio e viu que eram 18h40. Percebeu que estava atrasado, mas antes que pudesse pensar em alguma coisa o telefone tocou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mário? Por que você não foi buscá-la? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alô? O que houve Vanessa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele reconheceu a voz de uma amiga de Flávia. Não conseguiu entender nada porque a voz dela estava chorosa e embargada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vanessa, por que você está chorando? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que você não foi buscar a Flávia? – a moça disse novamente &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu tive um pequeno contratempo, mas já estava de saída. Aconteceu alguma coisa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora é tarde demais Mário, tarde demais – Vanessa disse em um tom melancólico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas palavras soaram de maneira desagradável na mente de Mário. Será que a voz estava lhe pregando outra peça? Decidiu não se alterar e perguntou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tarde demais por quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela está morta – Vanessa disse por fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário sentiu seu coração parar. Ficou imóvel e não conseguia pensar em nada além daquilo que acabara de ser dito. Somente perguntou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morta? Como? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela percebeu que você não ia e me ligou de um orelhão porque tinha esquecido o celular. Me disse que não havia ligado na sua casa porque achou que você não estivesse aí e se tentasse te procurar acabaria perdendo o ônibus. Pediu para eu te avisar que ela iria para casa e depois te encontrava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, mas como ela morreu? – Mário perguntou num misto de raiva e choro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O ônibus em que ela estava bateu com outro que vinha em sentido contrário. A Flávia estava no lado atingido em cheio e morreu na hora. A mãe dela acabou de me ligar contando. – Vanessa respondeu quase sem voz por causa do choro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário não acreditava. Largou o telefone e se jogou no sofá. Cobriu o rosto com as mãos e desatou a chorar. Por quê? Em sua cabeça só conseguia pensar nestas duas palavras. Havia perdido a mulher que mais amou na vida. E de uma maneira tão súbita e arrebatadora. A culpa fazia o peso nas costas ser insuportável. Se não tivesse dado atenção àquela maldita voz ainda teria Flávia em seus braços. Mas agora nada mais adiantava. Ele tinha se atrasado e era tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-2844596775727208104?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/2844596775727208104/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=2844596775727208104' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2844596775727208104'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2844596775727208104'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/voz_28.html' title='A VOZ'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-1017310668568859473</id><published>2010-11-28T12:53:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T12:54:24.714-08:00</updated><title type='text'>A ÍNTIMA NATUREZA HUMANA</title><content type='html'>A ÍNTIMA NATUREZA HUMANA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: PAULO SORIANO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ÍNTIMA NATUREZA HUMANA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Quequê. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaria de vos advertir sobre vossa real natureza e, bem assim, acerca de vosso destino inexorável. Mas, para isso, deverei retroceder ao dia de minha morte, após uma vida piedosa, dedicada à pureza e à santidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na condição em que me encontro, bem vos quisera trazer algo de reconfortante. Mas ela – esta única condição – arroga-se-me ao prazer e ao horror da revelação da verdade absoluta. Outrora, bem se me seria admissível evitar tais revelações. Mas minha natureza induz a uma compulsão que vos aterroriza, e que vos faz pensar em vossa própria existência. Gostaria muito bem guardar estes instintos comigo mesmo. Isto seria a consagração de minha origem humana. O que quero vos dizer é bem simples: adoraria , por tudo, retornar à natureza humana; mas, como não posso, sou condicionado a anunciar-vos a hediondez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morri, aos vinte e cinco anos, no Ano do Senhor de 1537, quando D. João reinava absoluto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me bem que era primavera, mas a data não me acode à memória. Mas me recordo que o dia estava radiante. Eu havia acordado com grande disposição de espírito, pois praticara amiúde a caridade. O meu corpo estava descansado e a minha mente fervia de júbilo e de excitação piedosa. Jamais poderia supor que respirava os últimos punhados de uma brisa matinal seca e saudável; ou considerar que a luminosidade de um Sol magnífico, que ondulava sobre as fraldas do vale do Douro, reluzia sobre a minha pele casta pela derradeira vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha morte foi particularmente dolorosa. Voltava eu de Póvoa de Varzim, com destino à Vila Nova de Gaia, quando fui detido, em pleno caminho, por uma comitiva clerical. Confundiram-me com um certo Abraão Abravanel, cristão-novo que renegara a nova fé e cujo nome de batismo era idêntico ao meu. Decerto que o velho clérigo, cercado de um punhado de beleguins belicosos, odiava-me tanto quanto supunha me temer. Esperou que eu desabalasse em fuga. Mas, como eu não entendia os motivos de minha prisão, permaneci onde estava e me deixei conduzir, como um cordeiro prestes a ser imolado, ao paço episcopal. Mesmo assim, o padre evitava o meu olhar. Desviava os olhos assustados sempre que encontravam os meus, e, não poucas vezes, quase em desespero, pressionava as mãos contra os ouvidos, quando eu lhe dirigia algumas palavras, em busca de uma pouca de explicações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O temor que Abraão Abravanel e sua cabala inspiravam era tão profundo e insano que o bispo do Porto, descumprindo as rígidas leis eclesiásticas, resolveu por não me encarcerar, e nem mesmo por aguardar a chegada da autoridade inquisidora. Montou um patíbulo às pressas e não me deu, sequer, o direito ao garrote. Certamente, considerava definitivamente perdida a minha alma – ou melhor, a de Abravanel –, visto que o pecado que me era irrogado implicava blasfêmia contra o Espírito Santo. E como, em tais circunstâncias, o arrependimento não salvaria a minha alma, atearam-me fogo imediatamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira sensação que me consultou o espírito, após a superação do corpo, foi a de um alívio magnífico. Verifiquei, satisfeito, que a minha alma estava livre das dores cruéis, severamente impingidas pelas sôfregas labaredas que se erigiam em ardentes volutas, consumindo-me até o tutano. Mas este alívio durou menos do que eu poderia esperar. A minha alma, de leve como a luz, tornou-se sombria como a treva. De imaterial e sem lindes, adquiriu uma contextura e uma conformação aterradoras. Meu espírito, que ganhara uma extensão incomensurável, aliviado pelo frescor da liberdade, retraiu-se subitamente, como se absorvido por um ponto negro e infinitesimal, situado no imo de minha alma. Mas, logo em seguida, tangido por um calor interno de medonhas proporções, meu espírito pôs-se a inflar lentamente, modelando-se de uma escuridão espessa, que provinha certamente do caos. Senti que voltava a possuir um corpo, um corpo intangível, constituído de uma matéria absurdamente sombria e grotesca. Essa massa escura, na qual luz alguma penetrava, rasgou-se em ambos os flancos e, em seqüência a uma sensação extremamente dolorosa, vi que duas asas, semelhantes a de morcego, precipitaram-se para fora, orlando a figura monstruosa em que eu me convertera. As asas farfalharam involuntariamente. Então alcei um vôo decadente. Sim! Os espaços de que eu dispunha decaíam num redemoinho tenebroso, lançando-me cada vez mais para baixo, para um antro ainda mais escuro e escaldante. E, em minha agonia, quando forçava um movimento desesperado de ascensão, mais ainda eu me enfurnava numa espiral descendente e quase sem fim. Deixei-me, pois, abandonar. E senti saudades dos minutos em que ardi na pira de meus algozes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A morte é apenas o início dos horrores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso estimar quantos séculos durou aquela queda. Tão subitamente como começou, exauriu-se. Hoje habito os subterrâneos de minha própria alma. Desmorono-me sobre mim mesmo, enquanto ouço o eterno burburinho que fazem as minhas asas de demônio debatendo-se na escuridão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós vos apiedais de minha sorte? Credes que fui, em vida terrena, um vilão? Acreditais que, por terdes nobre coração, e espírito reto, podeis dizer-vos livre duma sina igual à minha? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estou só. Faço parte de uma infinita legião, que engrossa o seu caudal a cada instante e assim o fará continuamente, até engolir o último dos filhos de Adão. É doloroso saber, mas esta é a verdade: a luz não existe em si mesma; o que pode existir é a ausência circunstancial da Escuridão. Esta, sim, existe em si e de per si, porque é ela a única substância possível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O destinho de cada homem está talhado de acordo com a sua íntima natureza. E todo homem é verdadeiramente um demônio, embora disto jamais desconfie. Mas cada homem terá a eternidade para convencer-se da veracidade de minhas palavras de absoluto horror e desesperança...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-1017310668568859473?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/1017310668568859473/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=1017310668568859473' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1017310668568859473'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/1017310668568859473'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/intima-natureza-humana.html' title='A ÍNTIMA NATUREZA HUMANA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-2835701313423423436</id><published>2010-11-28T12:52:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T12:53:42.937-08:00</updated><title type='text'>A ÚTIMA CEIA</title><content type='html'>A ÚTIMA CEIA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: MCPOCO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Meu rabi faleceu por volta da hora nona. Houve muitas catástrofes naturais e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;diversos  fatos ocorreram durante sua crucificação, bem como a ressurreição no&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;terceiro dia. Ele revelou-nos grandes verdades que hoje distribuímos com o mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;todo. Más há muito mais do que simplesmente contamos nas cartas e evangelhos que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;escrevemos. Meu pai! Sei que jurei a meus irmãos jamais falar sobre isso outra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vez, mas não posso deixar que estes segredos morram comigo. Já estou velho, e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aqui nesta prisão não me resta muita coisa além de minhas orações, leituras e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;meus escritos pessoais. Por isso decidi redigir esta última confissão e guardá-la&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no alforje carregado pelo demônio que andou ao lado de Deus nesta Terra. Ele e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;este pergaminho serão as últimas testemunhas deste episódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Estávamos na mesa, pouco antes da santa ceia, aguardando o partir do pão, quando o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rabi nos anunciou aquela fatídica sentença: UM DE VÓS ME TRAIRÁ. Todos ficamos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;atemorizados com aquela afirmação tão inesperada, mesmo habituados com as&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;parábolas que geralmente nos propunha. Mas antes que eu pudesse fazer muitas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;conjecturas, notei que Simão sinalizava alguma coisa para mim. Queria saber o que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a maioria também queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Reclinei-me discretamente sobre seu peito e perguntei delicadamente: “ Quem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mestre?” Ele, sempre tão doce, olhou-me amistosamente e sorriu. Partiu um bocado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de pão enquanto conversava sussurradamente com Iscariotes , deixando-me ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ansioso! Vívido por uma resposta a que dar aos meus irmãos. “Aquele a quem eu der&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o pedaço de pão umedecido, o é.” Sua declaração foi seca e direta. Vi ele molhar o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;bocado e entregá-lo a Iscariotes. “O que tens de fazer, faze-o depressa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronunciou dessa vez, claro e audivelmente. Novamente ficamos confusos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Iscariotes levantou-se rapidamente e saiu, levando consigo o alforje que sempre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;carregava e me deixando mais perturbado ainda. Pensamos no momento que faria algum&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;trabalho em nome do mestre, já que era encarregado das finanças. Hoje sabemos que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;já estava destinado a mudar a história. O rabi terminou a ceia e saímos em direção&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao jardim, perto ao ribeiro de Sedrom. Fomos surpreendidos no gólgota por&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iscariotes novamente, mas agora estava acompanhado pelos escribas e fariseus. E&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pensar que ousou traí-lo com um beijo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Depois de nosso senhor ser levado daquela forma, partimos contristos e furiosos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao mesmo tempo. Tudo o que eu queria era encontrar Iscariotes e fazê-lo pagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo o rabi tendo ido pacificamente, não podia aceitar o fato de ele ter sido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vendido por míseras moedas de prata. Quanto vale o sangue de um Deus? Encontrei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com o traidor já ao pé da forca, logo depois de ir ao templo e descobrir que ele havia &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;devolvido aos sumo sacerdotes o salário de seu crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Foi uma cena horrível. O corpo balançava-se vagarosamente debaixo de um carvalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enquanto a cabeça encurvada demonstrava que deveria ter sofrido muito. Seus olhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estavam abertos e fixaram-se em mim. Corri desesperadamente para o mais longe que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;consegui daquele quadro de horror. Aquele lugar ficaria conhecido como campo de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sangue. Mas não foi a última vez que o vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Logo após o último suspiro do mestre, fui visitar seu corpo ainda quando estava&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;naquela cruz outra vez. Tinha saído dali antes quando me confiara sua mãe para ser&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;minha própria mãe ( sinal que mesmo na dor se importava com as pessoas). Decidi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vê-lo mais esta hora para lembrar-me das mãos que um dia curaram tanta gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora não se moviam mais. O lugar estava quase deserto. A grande multidão se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dispersara e os soldados haviam se retirado após quebrarem as pernas dos outros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dois homens ao seu lado, mas haviam só perfurado seu lado com uma lança. Um&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;centurião próximo a ele murmurou algo como ele verdadeiramente ser o filho de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e também caminhou para longe do local por alguns instantes. Fiquei ali, a seus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pés,observando-o. Pensando em tudo que havia acontecido até ali. Uma vez mais vi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Judas Iscariotes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Ele se arrastava por entre algumas árvores que rodeavam o lugar, se aproximando&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;desgrenhadamente. Vinha cambaleando como um ébrio, a cabeça ainda baixa, as&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vestes rasgadas, o corpo todo dilacerado. Parecia que havia sido atacado por&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;animais do campo. Eu fiquei imóvel, sem reação diante da aberração que vi diante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de mim. Não eram olhos humanos que me contemplavam. Um demônio se apossou daquele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;corpo para vir me atormentar. Ele abriu a boca que cheirava a carniça, e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;titubeou-me algumas frases funestamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Deixe-me passar. Deixe-me passar para beber seu sangue. É minha sina. Tenho que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;beber o sangue do rabi para pagar por meus crimes. Não vou feri-lo João, mas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;deixe-me beber do sangue que rega a terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Eu não ousava pronunciar um único som diante daquela aberração. O máximo que fiz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;foi dar dois passos para o lado e assisti-lo rastejar até o corpo na cruz. Ele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pareceu soerguer a cabeça dificultosamente, tentado alçar a visão até a face de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jesus. Mas logo se voltou para o baixo e começou a lamber as gotas que manchavam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a areia umedecida. Um ritual macabro que nunca havia presenciado antes. Ele se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;movia como um chacal que se alimenta da carcaça dos animais mortos na floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorvia prazerosamente aquela mistura heterogênea pulsante das entranhas da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E , a cada nova tragada, a cada nova investida sua, parecia revigorar-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;milagrosamente. Quando olhei pela última vez estava quase  completamente de pé,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;já sem tantos machucados. Nem apresentava tantos hematomas no corpo. Foi quando&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não tive mais forças e caí esmaecido sobre o piso frio do monte chamado caveira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Fui despertado pelos guardas que retornavam para tirar os corpos antes do sábado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e disparei para encontrar-me com os outros. Quando me reuni a eles, relatei passo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a passo minha caminhada desde o getsêmani até ali. Todos me olhavam estupefatos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pensando que havia ficado louco. Mas como prova havia em meus braços o alforje&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que Judas sempre carregava. Era um presente dado a ele por Jesus, e tinha-o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;abandonado ao meu lado quando acordei. Agora estava em meu domínio para convencer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os outros de que não foram visões simplesmente que tive. Dentro dele constavam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma corda rompida em forma de forca e uma profecia escrita também a sangue, que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dizia: O QUE TENS DE FAZER, FAZE-O DEPRESSA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns deles acreditaram em mim. Outros acusaram-me de mentiroso e ludibriador, mas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o fato é que me alertaram para que jamais falasse a respeito disso novamente com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ninguém. Ajuntamos aqueles malditos objetos e fizemos uma fogueira. Apenas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;conservei comigo este alforje, alegando ser a última coisa de elo entre nós e o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mestre de material ainda em nosso meio. Enquanto eu e Pedro víamos a fumaça ainda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se expandir no céu, ao longe surgiram Maria Madalena juntamente com outras mulheres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que diziam ter o rabi ressuscitado dentre os mortos. Nos olhamos discretamente mais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma vez, e ele passou o dedo entre os lábios me pedindo silêncio. Corremos com elas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para avisarmos os outros. Depois desse dia, nunca mais falamos discutimos sobre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Esta, filhinhos, é a verdadeira história de como surgiu o primeiro imortal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;amaldiçoado que pisou sobre a face da Terra. Hoje há boatos de que existem seres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que andam pela noite sugando a vida das pessoas através do sangue. Chamam-nas de&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vampiros. Mas quando me chegam aos ouvidos tais histórias, tudo de que consigo me&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lembrar é de Judas Iscariotes e o que o mestre lhe advertira na última ceia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-2835701313423423436?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/2835701313423423436/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=2835701313423423436' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2835701313423423436'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2835701313423423436'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/utima-ceia.html' title='A ÚTIMA CEIA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-4371842134824462972</id><published>2010-11-28T12:51:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T12:52:27.628-08:00</updated><title type='text'>A VOZ</title><content type='html'>A VOZ &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: VÍTOR BASÍLIO &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A VOZ &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vítor Basílio &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário ia saindo de casa um pouco apressado. Quando estava abrindo a porta, ouviu uma voz dizer: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se assustou e ficou imobilizado. Quem tinha dito aquilo? Será que havia perdido o juízo e estava ouvindo coisas? Olhou ao redor e tudo continuava do mesmo jeito. Colocou-se atrás da mesa e disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quem disse isso? É melhor sair porque eu não estou para brincadeiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua voz tinha saído baixa e pouco convincente. Mário achou que poderia ter sido alguém na rua ou um vizinho quem havia dito a tal frase. Ia sair novamente, quando foi pego de sobressalto: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O impacto foi menor desta vez, mas fez os pêlos de seu corpo se arrepiarem. Voltou para trás da mesa e segurou firme uma cadeira. Olhou para a parede da frente e disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por favor, quem estiver aí saia. Se for um ladrão eu juro que não chamo a polícia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só escutou o ruído da sua respiração. Suas mãos tremiam e o coração batia tão forte, que Mário podia sentir a pulsação no céu da boca. Também suava frio. Um fantasma em sua casa? E o que ele queria? Sua mente inventava muitas teorias. Sentou-se no sofá e tentou achar uma explicação lógica para aquilo. Novamente pensou que poderia ser alguém conversando na rua. Levantou-se e olhou pela janela. Constatou que não havia ninguém passando e muito menos conversando. O medo percorria seu corpo novamente. Teria mesmo perdido a razão? Respirou fundo e resolveu conversar com aquela voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que você quer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não obteve resposta. Olhou para o teto e depois para o corredor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me diga o que você quer comigo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, Mário não se assustou tanto. Reparou mais na voz. Era forte e grave, aparentando ser de um homem de meia idade. Ainda sentado no sofá e olhando para o corredor, tornou a perguntar: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vou me atrasar para quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Ele começou a achar que a conversa não sairia disso. Agora estava mais convencido de que a voz era real e não um produto da sua imaginação. O medo havia diminuído, mas ainda estava receoso de que pudesse ser algum tipo de espírito maligno tentando fazer uma brincadeira mortal com ele. Mesmo assim, decidiu falar num tom mais provocativo: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos lá, o que você quer me dizer? Para quê eu vou me atrasar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz nada disse. Mário já estava ficando irritado. Levantou-se do sofá e foi até a cozinha beber um copo de água. Ficou observando durante o caminho se não via algum vulto ou coisa parecida. Chegando à cozinha, olhou o seu quintal através da janela, para se certificar de que não poderia ser um ladrão. Não vendo ninguém, tomou água e voltou à sala. Quando ia se sentar, ouviu de novo a voz: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário continuou em pé. Estava cansado desse aviso misterioso. Se tinha que enfrentar uma força sobrenatural, havia chegado à hora e ele estava pronto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu não sei o quê você é – ele disse enquanto ia em direção ao corredor – mas eu irei descobrir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi até seu quarto e acendeu as luzes. Não havia ninguém lá. Checou o banheiro e também não encontrou nada. No quarto de visitas tudo estava na mais perfeita ordem. Seguiu para o quintal e deu a volta na casa. Não achou nada nem ninguém. Saiu até a rua em frente a sua casa e ela continuava deserta. Voltou até a sala e gritou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Muito bem, já chega dessa brincadeira. Me diga agora o que você quer comigo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a voz, tranqüilamente, respondeu: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai se atrasar e será tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário, explodindo em raiva, agarrou uma cadeira e quebrou-a ao batê-la violentamente contra o chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me diga algo que tem algum sentido. Para quê eu vou me atrasar? Me diga logo, eu tenho coisas mais importantes para fazer, como ir buscar minha namorada no trabalho e... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, tinha que sair para buscar Flávia no trabalho. Combinou com ela e agora havia se esquecido. Olhou no relógio e viu que eram 18h40. Percebeu que estava atrasado, mas antes que pudesse pensar em alguma coisa o telefone tocou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mário? Por que você não foi buscá-la? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alô? O que houve Vanessa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele reconheceu a voz de uma amiga de Flávia. Não conseguiu entender nada porque a voz dela estava chorosa e embargada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vanessa, por que você está chorando? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Por que você não foi buscar a Flávia? – a moça disse novamente &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu tive um pequeno contratempo, mas já estava de saída. Aconteceu alguma coisa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora é tarde demais Mário, tarde demais – Vanessa disse em um tom melancólico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas palavras soaram de maneira desagradável na mente de Mário. Será que a voz estava lhe pregando outra peça? Decidiu não se alterar e perguntou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tarde demais por quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela está morta – Vanessa disse por fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário sentiu seu coração parar. Ficou imóvel e não conseguia pensar em nada além daquilo que acabara de ser dito. Somente perguntou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morta? Como? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ela percebeu que você não ia e me ligou de um orelhão porque tinha esquecido o celular. Me disse que não havia ligado na sua casa porque achou que você não estivesse aí e se tentasse te procurar acabaria perdendo o ônibus. Pediu para eu te avisar que ela iria para casa e depois te encontrava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Sim, mas como ela morreu? – Mário perguntou num misto de raiva e choro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O ônibus em que ela estava bateu com outro que vinha em sentido contrário. A Flávia estava no lado atingido em cheio e morreu na hora. A mãe dela acabou de me ligar contando. – Vanessa respondeu quase sem voz por causa do choro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mário não acreditava. Largou o telefone e se jogou no sofá. Cobriu o rosto com as mãos e desatou a chorar. Por quê? Em sua cabeça só conseguia pensar nestas duas palavras. Havia perdido a mulher que mais amou na vida. E de uma maneira tão súbita e arrebatadora. A culpa fazia o peso nas costas ser insuportável. Se não tivesse dado atenção àquela maldita voz ainda teria Flávia em seus braços. Mas agora nada mais adiantava. Ele tinha se atrasado e era tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-4371842134824462972?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/4371842134824462972/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=4371842134824462972' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4371842134824462972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4371842134824462972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/voz.html' title='A VOZ'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-8922478819737363753</id><published>2010-11-28T12:50:00.002-08:00</published><updated>2010-11-28T12:51:34.166-08:00</updated><title type='text'>BELA DONA</title><content type='html'>BELA DONA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Paulo Soriano &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BELA DONA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Paulo Soriano.&lt;br /&gt;Para  Hell, Mauren e Celly, essas maravilhas  que a escuridão nos legou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;... e  foram justamente estes motivos – tão hediondos quanto triviais – que me induziram a matar a Bela Dona.   A hediondez e banalidade das circunstâncias, das  quais tão demoradamente me ocupei ao descrevê-las, despertaram em mim os impulsos – ou melhor, os instintos – assassinos. De um homem tranqüilo passei a um cão iracundo.  De iracundo,  a imprudente. De imprudente, a homicida. E, finalmente, de homicida a empedernido.  Este o iter que fez de mim o avesso do que sempre fui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas,  agora  que já sabeis os motivos determinantes da morte de Bela Dona, deveis ouvir-me mais um pouco, em prol de um bocado  de alívio à minha alma convulsa  e em desdém à vossa heróica paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já vos disse qual o destino que outorguei ao corpo da Bela Dona. Resta mencionar o que fiz de sua cabeça, graciosamente decepada, já que, quanto ao espírito da morta,  mui bem  deveis deduzir qual foi  a trilha que o espectro abjeto seguiu  quando mergulhou para além dos umbrais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabeça da Bela Dona, trago-a comigo. [...]   Agora já começa a se decompor rápida e intensamente,  circunscrita pela redoma de cristal, em minha escrivaninha. Enquanto escrevo, chego mesmo a acariciar a superfície da campânula translúcida.  Atuando como uma lupa, o cristal ainda mais tenebroso torna o espetáculo da corrupção dos tecidos. A pele do cadáver assumiu, nesta manhã, uma coloração escura.   Já não mais se vêem as outrora belíssimas teias de artérias que,  inundadas de sangue apodrecido, descreviam graciosos esgalhos na superfície da pele alva.  E a mancha purpúrea, que lhe  orlava magnificamente os olhos lânguidos,  finalmente declinou para uma tonalidade sombria, tão espessa e profunda  quanto  o mais negro dos  nanquins.  A tumefação produzida pelos humores da carne putrefeita em breve atingirá o ápice. Quero estar presente  e sob os efeitos inebriantes do ópio ou do haxixe quando, túrgida de infiltrações aquosas e pestilentas,  a pele inflada finalmente abandonar-se à ruptura,  provocando a  aspersão dos  líquidos deletérios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; [...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre, na vila,  o boato de que um fantasma de uma mulher nua, sem cabeça,  anda a apavorar as pessoas que se atrevem a deambular depois do anoitecer.  Conta-se que o fantasma não parte do cemitério, como seria curial,  mas surge das charnecas que dominam o vale de nosso preguiçoso arroio.  Comenta-se  que o fantasma evita cruzar o adro da igreja matriz, por isso converge sempre à esquerda, onde as ruelas amesquinhadas se contorcem e exultam  ao acolher os bêbados e as meretrizes.  Diz-se, ademais, que as damas da noite estão sem o  ganha-pão. E  juram as meretrizes, de mãos unidas, que a Bela Dona, há dias desaparecida, não apenas morrera,  como  voltara na figura de uma desgraçada e solitária alma penada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me rio e me [...] disso tudo. O haxixe  me deixa deveras bem-humorado.  Mas a circunstância de que o fantasma não tem cabeça e que se esmera em fazer prontidão à frente de minha herdade  [...]   um pé atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como mui demoradamente escrevo estas confissões e,  há dois dias, por absoluta falta de disposição, não mergulhava a pena no tinteiro, sou obrigado a interromper o fio da narrativa, para vos conduzir à ciência de um acontecimento repleto de singularidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, ao cair da noite, e antes mesmo que eu me  desse conta da necessidade de atiçar a lareira e pôr em lume os candelabros,  vi que se acercava de mim um espectro medonho.   Sem dúvida era o da Bela Dona: embora lhe faltasse o contorno da cabeça, o  modo elegante de andar e a fleuma lasciva de conduzir-se  eram-me inconfundíveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espectro acercou-se da redoma e, tateando à maneira dos cegos, subtraiu algo de minha escrivaninha, antes de remover a campânula de cristal.  Estava  ele então de costas para mim, e,   quando  se virou, vi nitidamente  que segurava a cabeça decepada com ambas as  mãos. Notei que,  nos lábios pútridos e entreabertos da Bela Dona,  algo escarlate tremeluzia ao rude impacto da chama indolente da lareira.   Corri, tentando impedi-lo de furtar-me o precioso troféu. Mas o fantasma  golpeou-me firmemente com o horrendo produto do seu furto. Perdi imediatamente os sentidos.  Quando os recobrei, pensei, sensatamente, que tudo não passara de um sonho; ou mesmo de elaboração frenética  de minha fértil imaginação, irrigada que estava pelo efeito inebriante do ópio.  Mas um olhar mais demorado, dirigido  ao lugar onde estava a redoma,  convenceu-me imediatamente  do contrário [...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Como escrevo com evidente pressa, porque urge evadir-me, é possível que a minha letra se torne ilegível [...] Já agora minha mente se encontra caótica e confusa: não deveria ter abusado do haxixe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pouco saiu o meu fiel alcoviteiro. Mas deixou atrás de si um alerta e várias revelações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              Ele me disse que a cabeça putrefeita  de uma mulher fora encontrada na área mais agreste da charneca. Estava sob um aglomerado de pequenas pedras cuidadosamente reunidas, dispostas em uma conformação  que sugeria  a existência de uma cova no lugar. O corpo desnudo  de uma mulher foi encontrado justamente naquele sítio.  Não houve como reconhecê-la, mas as lacerações e profanações do corpo demonstravam que fora ela terrivelmente seviciada antes de morrer [...]&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dei uma busca na casa inteira, mas não encontrei  um objeto precioso. Ele deveria estar onde sempre esteve: na escrivaninha, ao lado da redoma de cristal.  Mas não está.  Se o alcoviteiro fala a verdade – e não há motivos para que falte com ela –, a minha preciosidade  está, agora, sob os cuidados dos edis encarregados da segurança pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós deveis rememorar que, na noite em que o espectro da Bela Dona me visitou, algo reluzia nos lábios da defunta. Sim, é verdade. Não foi apenas a própria cabeça que o fantasma da Bela Dona me furtou à luz indecisa da lareira, que os meus olhos, embriagados pelo ópio, ampliavam admiravelmente.   Afinal, que utilidade teria aquela coisa para ela, se, por si só, o macabro despojo  não se vinculava ou se associava à minha pessoa? Furtou-me algo mais, pois o seu intento era delatar-me pelo meu crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         Sim!  O  meu sinete, a marca indelével de minha nobre  identidade, foi encontrado entre os lábios que, como uma flor profana e negra, ornavam  a cabeça que eu tão gentil e graciosamente decepara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-8922478819737363753?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/8922478819737363753/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=8922478819737363753' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8922478819737363753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/8922478819737363753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/bela-dona.html' title='BELA DONA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-7731659503538993892</id><published>2010-11-28T12:50:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T12:50:41.677-08:00</updated><title type='text'>A TAPERA PERTO DAS SANGA</title><content type='html'>A TAPERA PERTO DAS SANGA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autora: Mauren Guedes Müller &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A TAPERA PERTO DA SANGA&lt;br /&gt;      Durante muito tempo, escondi o que me aconteceu naquela noite, por causa de meu pai e de seu patrão. Mas, agora que ambos já são falecidos, finalmente eu posso contar. &lt;br /&gt;Eu tinha doze anos de idade. Naquela época, as crianças chegavam mais devagar à adolescência, e eu ainda tinha muito da ingenuidade de guri. Tinha crescido na periferia de Porto Alegre, com minha mãe, mais uma entre tantas mães solteiras. Oriunda do campo, ela tinha ido atrás das ilusões da cidade grande, onde correra imenso risco de se perder pelos caminhos da vida. Mas, por muita sorte, havia conseguido um emprego de doméstica em uma casa onde os patrões a tratavam razoavelmente. &lt;br /&gt;Porém, de uma hora para outra, ela havia adoecido e, em poucos meses, deixara-me só neste mundo. Aí, alguém havia se lembrado de me entregar para meu pai, um peão de estância que eu nunca tinha visto na vida, e tinham-me mandado para a fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai. Foi então que eu me vi largado num mundo que eu não conhecia – um mundo de imensas pradarias, de invernos gélidos e de homens rudes, onde, embora se tivesse muitos conhecidos, os únicos amigos de um gaúcho, muitas vezes, eram mesmo o cusco e o pingo, ou seja, o cachorro e o cavalo. &lt;br /&gt;Estranhei imensamente o tranco do petiço – ah, deixem-me utilizar de novo esta linguagem que tanto me arrepiava logo que cheguei no Pampa! Linguagem que eu não conhecia e que tanto me esforcei para aprender. Isso porque, naqueles dias, o que eu mais desejava neste mundo era conquistar o orgulho do meu pai. &lt;br /&gt;Meu pai era um homem de estatura média, muito moreno, de barba espessa, cujo coração me parecia tão curtido quanto sua pele áspera, que o sol, no verão, e o minuano, no inverno, haviam-se encarregado de enrugar. Acostumado aos carinhos de minha mãe, eu esperava muito dele. Mas o gaudério me tratou como se eu fosse nada mais do que um soldado no meio de uma guerra – e ele era o general, o meu general particular. Obedecia ao patrão como se fosse um deus e descontava em mim suas frustrações. Meu coração quase criança parecia a ponto de se partir todas as vezes em que ele me dirigia palavras duras, e eu o sentia sangrar quando aquele homem, com quem tanto eu sonhara, que tanto idealizara quando pequenino, invejando os meninos que tinham pai, levantava o relho e me batia como se eu fosse um animal. Foi uma época terrível. Embora eu me esforçasse, tentasse ser bom peão e até bom cavaleiro – quase morri de medo na primeira vez em que tive de montar –, parecia-me que aquele homem de pedra não tinha mesmo qualquer tipo de afeição por mim... &lt;br /&gt;Aliás, nenhum daqueles homens demonstrou qualquer espécie de piedade pelo guri órfão e assustado que, recém chegado da cidade, tinha vontade de se esconder num canto cada vez que os cachorros acoavam. Ninguém me perguntou se eu estava bem, se eu estava gostando de conhecer a Campanha, se eu tinha saudade de minha mãe ou se eu sentia falta de Porto Alegre. Mandavam-me subir no cavalo e enfrentar o gado bravo como se eu fosse um homem nascido e criado no meio de tudo aquilo. E eu obedecia. &lt;br /&gt;Á noite a peonada se reunia, em volta de um fogo de chão, e ficava tomando mate amargo até altas horas. Nunca me ofereciam a cuia – eu a via passar diante dos meus olhos, a bomba de prata brilhando à luz das chamas, com uma curiosidade vívida. Mas não me atrevia a pedir um. Já tinha ouvido dizer que chimarrão não era coisa para criança. &lt;br /&gt;O que me espantava era o fato de que eu era criança na hora do mate, mas não era criança para o trabalho braçal, para a dura lida do campo, para subir num cavalo cujas patas quebravam a geada, muito cedo da manhã, e para ir até ser noite escura no meio da solidão dos pampas... &lt;br /&gt;Bem, enquanto eu ficava ali, morrendo de saudade da televisão de catorze polegadas que havia na casinha da minha mãe, eu ouvia as histórias dos gaudérios. E foi naquelas noites, à beira do fogo aceso dentro do galpão, que ouvi falarem da tapera. Era uma casa em ruínas, abandonada há muito tempo, que havia no fundo do campo, perto de uma sanga (riacho), onde, segundo diziam, penava uma assombração. &lt;br /&gt;A tapera tinha sido a casa de um homem muito rico, que, no entanto, tivera de ir para a guerra. Então, ele vendera tudo o que tinha – quase todo seu campo e todo o seu gado. Ficara só com a casa e um pedacinho de campo em volta dela. Pegara o resultado da venda, que, na época (devia fazer mais de cem anos), fora um saco de moedas de ouro, e o escondera, ninguém sabia onde. Nem mesmo sua esposa e seus filhos. Dissera que tinha medo de que seus inimigos se apoderassem de seu patrimônio enquanto ele estivesse na peleia. &lt;br /&gt;Só que o homem morrera na guerra, e seu tesouro se perdera. A família passara muitas necessidades e acabara indo embora, perdendo-se pelo mundo. Mas, conforme diziam os peões – e me olhavam como se quisessem me assustar –, a alma do avarento continuava por ali, perto da casa, onde provavelmente estaria enterrado o seu tesouro. &lt;br /&gt;Os peões contavam que muita gente já tentara encontrar as tais moedas de ouro. E contavam histórias escabrosas. Um dos aventureiros tinha se perdido no meio do mato em volta da tapera, procurando o ouro, e só fora encontrado dias depois, vagando sem razão – ficara louco e não soubera contar o que lhe acontecera. Outro, tinha sido encontrado morto, aparentemente afogado na sanga – mas, como era difícil alguém se afogar num curso d’água que não devia ter mais de um metro de profundidade, provavelmente havia sido o fantasma do avarento quem o matara. Outro, ainda, tinha sido encontrado com as tripas para fora, sem que se soubesse se havia sido morto pelo ataque de algum animal selvagem, ou pelas mãos do próprio fantasma. E assim se sucediam as histórias – todos os que haviam tentado encontrar a tal fortuna haviam acabado loucos ou mortos. Diziam que o fantasma aplicava alguma espécie de teste, que ninguém havia vencido, mas acrescentavam que isso era apenas especulação – ninguém voltara com vida ou com razão suficiente para esclarecer o que ocorria na tapera perto da sanga. &lt;br /&gt;Numa certa tarde, meu pai me mandou subir no cavalo e segui-lo. E lá fui eu, junto com ele e com outros dois peões. Os três homens conversavam um pouco entre si – não muito –, mas não me dirigiam a palavra, senão para me mandarem apear e abrir uma porteira, cada vez que uma surgia em nosso caminho. Eu ia quieto. Mas, à medida que nos aproximávamos do fundo do campo, eu sentia meu coração acelerar. Até que avistei a tapera. Não restava mais do que um pedaço de telhado e duas paredes em pé, onde se divisava o que já fora a soleira de uma porta e o vão de duas janelas, recortadas contra o verde do mato da volta da sanga, ao fundo. Fiquei sem ar. Uma atmosfera pesada parecia dominar aquele recanto. Senti meu cavalo nervoso, tentando dar volta, mas insisti com ele, batendo-lhe as esporas na barriga, e, finalmente, descendo-lhe o relho – antes no lombo dele do que no meu, que era o que me esperava se eu obedecesse aos instintos do animal e aos meus, e fugisse para casa... &lt;br /&gt;Bem, os empregados começaram a reunir o gado. Eu os ajudava como podia. Ainda não sabia muito bem como fazer aquele tipo de serviço. O gado estava inquieto. Alguma coisa pairava no ar. Tive a impressão de que até mesmo os outros peões sentiam que havia algo de anormal naquele lugar, naquela tarde. De repente, uma espessa cerração cobriu as coxilhas, e eu não via nada diante dos meus olhos. &lt;br /&gt;– Bah, não dá para trabalhar assim – disse um dos peões. &lt;br /&gt;– Tens razão – ouvi a voz de meu pai. – Vamos dar volta. Guri, vê se não te perde de nós. &lt;br /&gt;Tentei obedecer. Mas eu não conseguia enxergá-los. Tive vergonha de pedir que me esperassem. Em alguns instantes, já não conseguia ouvi-los. O pânico se apoderou de mim. Se eu gritasse, meu pai teria vergonha, e essa vergonha se transformaria em raiva, e provavelmente essa raiva seria descarregada nas minhas costas com toda a fúria de seu braço. Mas, se eu não gritasse, ficaria para trás, perdido – perdido perto da tapera, perdido perto do fantasma assassino... &lt;br /&gt;De repente, começou a chover forte. Não era muito comum cerração dar em tempestade – normalmente, aquele tipo de neblina se convertia, no máximo, numa garoa fina que molhava muito de leve a relva dos pampas. Mas aquela não era mesmo uma tarde como as outras, e chovia muito. Raios cortavam o céu. Meu cavalo empinou e eu, que nunca na vida tinha tentado ficar em cima do lombo de um cavalo que empinasse, fui jogado longe. Felizmente, caí numa touceira e não me machuquei. Mas senti um pavor tão grande, uma angústia tão terrível, uma sensação tão profunda de solidão, que chegou a me dar uma dor no peito. Eu não via mais nada, só a água caindo à minha volta. Comecei a rezar um Pai-Nosso e a implorar que nenhum raio me atingisse. Caminhei a esmo, sem enxergar um palmo à frente, até que esbarrei numa parede. Era a tapera. &lt;br /&gt;Inexplicavelmente, apesar de tudo o que eu já ouvira falar da tapera, alguma coisa parecia me dizer que eu estaria seguro debaixo do que restava do telhado. Pelo menos estaria protegido da chuva e dos raios. Entrei no que restava da casa e me encolhi num canto. O frio chegava a doer em minha pele, mas um estranho torpor se apoderou de meus membros, e acho que acabei adormecendo. &lt;br /&gt;Quando dei por mim, já era noite. Foi então que ouvi os cascos de um cavalo. Corri para fora. Eu não saberia ir para casa, mas, se o meu cavalo tivesse voltado, com certeza ele encontraria o caminho, bastaria deixar as rédeas frouxas. &lt;br /&gt;Tinha parado de chover, e uma enorme lua cheia iluminava os campos, num cenário bonito, mas assustador. À luz desse luar, deparei-me com o vulto de um cavalo encilhado e me aproximei dele. Não era o meu. O meu era um tordilho (branco salpicado), esse era zaino (castanho-escuro). O bicho resfolegou e me encarou por um momento. Tive um pouco de medo. &lt;br /&gt;De repente, ouvi uma voz por trás de mim: &lt;br /&gt;– Estás perdido, guri? &lt;br /&gt;Voltei-me, e tive a sensação de que meu coração tinha parado de bater por um instante. Diante de mim, havia um homem alto, robusto, com uma longa barba negra, de uma palidez assustadora, que parecia ainda mais cadavérica à luz prateada do luar. Usava um chapéu de abas largas e um enorme poncho cobria-lhe o corpo. Mas havia um quê de tristeza em seus olhos, uma certa agonia difusa na expressão de seu rosto. &lt;br /&gt;– Estou, sim senhor – respondi. &lt;br /&gt;– Bueno. Eu também estou perdido. &lt;br /&gt;Respirei fundo. &lt;br /&gt;– O zaino é seu, senhor? perguntei, tentando parecer simpático. &lt;br /&gt;– É, sim, guri. – Ele fez uma pausa. – Tu sabes o que falam destas terras? &lt;br /&gt;– Sei, sim, senhor. &lt;br /&gt;O homem puxou uma adaga. Uma enorme adaga. Tive vontade de sair disparando. Mas, como não lhe havia feito nada, achei que ele também não iria me atacar. &lt;br /&gt;– E tu não tens medo? &lt;br /&gt;Baixei os olhos. &lt;br /&gt;– Um pouco – respondi. – Mas, já que eu estou perdido, e o senhor está perdido, porque não fazemos companhia um ao outro até amanhecer? Daí, vai ser mais fácil encontrarmos os nossos caminhos. &lt;br /&gt;Ele me encarou com interesse, em silêncio, por longos instantes. Enfim, atirou a adaga no chão, cravando-a na terra, com um gesto ríspido. &lt;br /&gt;– Não sabes há quanto tempo estou procurando o meu caminho – murmurou. &lt;br /&gt;Engoli em seco. Minha intuição me dizia que eu estava diante do próprio fantasma... &lt;br /&gt;Ele puxou dois pelegos de cima do cavalo e os atirou no chão da tapera. &lt;br /&gt;– Senta – disse. &lt;br /&gt;Obedeci. O homem puxou assunto. Falou da lua, do tempo, essas coisas. Eu respondia. Tentava ser gentil. Comecei a sentir minhas tripas darem voltas, um suor gelado me escorria pelo corpo. Mas podia ser que aquele não fosse o fantasma – que fosse só um gaúcho perdido, mesmo, que não me causaria mal algum. &lt;br /&gt;– E o que tu farias se encontrasses o tesouro que o homem que morava por aqui escondeu? perguntou-me ele, de repente. &lt;br /&gt;– Hem? Ora... Eu acho que... Bem, o certo era procurar alguém da família dele e entregar. Afinal de contas, é deles por direito, não é? &lt;br /&gt;O homem cravou-me os olhos de um jeito que parecia penetrar-me a alma, e  meneou a cabeça, em sinal de concordância. Ficamos conversando a noite toda. Ele me deu corda e eu comecei a falar da minha vida. Contei da minha infância na cidade, da perda recente que eu tinha sofrido, de como estava achando dura a lida do campo, mas também de como estava me esforçando para aprendê-la. O homem me ouvia com atenção. Foi assim até que a lua desapareceu no horizonte, e os primeiros raios de sol começaram a deixar o céu avermelhado. &lt;br /&gt;– Bueno – disse o homem –, vou-me embora. &lt;br /&gt;– Vá com Deus, senhor – respondi. &lt;br /&gt;O homem montou no cavalo e saiu, a trote. Senti um certo alívio enquanto o via afastar-se. Voltei para dentro da tapera. Eu estava cansado. Fechei os olhos e me recostei na parede fria. &lt;br /&gt;De repente, senti que esbarrava num volume, e abri os olhos. Então, percebi que ele havia deixado cair a guaiaca, aquele cinto de couro com bolsos onde o gaúcho costuma guardar seus trocos. &lt;br /&gt;– Senhor! gritei, correndo para fora. – O senhor perdeu isto! &lt;br /&gt;Mas, quando cheguei na rua, não havia sinal do cavalo ou do cavaleiro. &lt;br /&gt;– Senhor! gritei com mais força, sentindo o ar gelado da manhã de inverno arder em minha garganta. &lt;br /&gt;Mas não tinha nem rastro do homem, e eu não saberia para que lado procurá-lo. &lt;br /&gt;Bem, sacudi a guaiaca. Pelo peso, e pelo tilintar de metal dentro dela, percebi que ali dentro havia moedas – e não eram poucas. Mas resisti à curiosidade de abri-la. Afinal, podia ser que o dono desse pela falta e voltasse para procurá-la. &lt;br /&gt;Mas... E se fosse mesmo o fantasma? E se dentro daquela guaiaca estivesse um mapa, o mapa para encontrar o seu tesouro escondido?... &lt;br /&gt;De repente, ouvi de novo os cascos do cavalo. Meu sangue gelou. Prendi a respiração e fui até a frente da tapera. Era ele. Chegou-se até onde eu estava e desceu do cavalo, encarando-me. &lt;br /&gt;Antes mesmo que ele abrisse a boca, estendi-lhe o cinto de couro. &lt;br /&gt;– Acho que isso é seu – disse. – Estava aí dentro. Acho que o senhor deve ter deixado cair... &lt;br /&gt;O homem arregalou os olhos. Estendeu a mão e tomou-me o objeto que eu lhe alcançava. Olhava da guaiaca para mim, de mim para a guaiaca, em silêncio. Sua fisionomia demonstrava uma emoção tão estranha que não fui capaz de decifrá-la. &lt;br /&gt;– Um piá... – murmurou, enfim. – Um piá de cidade, ainda por cima... &lt;br /&gt;Colocou a mão no meu ombro. Aquela mão era tão gelada que me fez estremecer. &lt;br /&gt;– Escuta, guri – disse ele –, um quarto dos que vieram aqui atrás do meu tesouro saiu correndo assim que me viu. Um quarto disparou quando eu puxei a adaga. Um quarto me respondeu que iria ficar com o tesouro para si. E os restantes, que resistiram a todas essas provas, não quiseram me devolver a guaiaca. Mas finalmente encontrei alguém em quem posso confiar. &lt;br /&gt;“Há muito tempo estou preso neste mundo ao qual já não mais pertenço. Isso porque minha avareza me fez morrer deixando minha família em necessidades. Mas finalmente encontrei alguém a quem posso dizer onde está o meu tesouro. Leva-o para a minha família, guri. Assim, pode ser que eu finalmente descanse em paz.” &lt;br /&gt;Antes mesmo de me dar vontade de sair correndo, fiquei com pena dele. Mas também me lembrei das histórias que ouvira e fiquei, como se diz, “com um pé atrás”. &lt;br /&gt;– O senhor matou todos os que vieram atrás do tesouro? perguntei. &lt;br /&gt;– Não matei ninguém. Uns, enlouqueceram porque viram em mim o retrato de seu futuro, o destino de todos os avarentos. Teve um desmaiou e foi comido pelos bichos do campo. Teve outro que saiu correndo na direção da sanga, tropeçou e acabou se afogando no raso. E teve dois ou três que morreram de susto. &lt;br /&gt;Respirei profundamente. &lt;br /&gt;– Então, eu lhe dou a minha palavra – respondi. – Mas vou ter que contar para o meu pai. Não vou conseguir achar a sua família sozinho. &lt;br /&gt;– Podes contar para o teu pai. – Ele me olhou com tristeza. – Não imaginas o quanto eu tenho sofrido. Tenho vivido aqui, solito, tenho visto as décadas passarem... Não posso comer, não posso beber, não posso dormir, não tenho nenhum dos prazeres da vida. E, ao mesmo tempo, também não tenho a paz dos mortos... &lt;br /&gt;O espectro me levou até a sanga e me mostrou onde havia escondido, debaixo de umas pedras, o saco de couro que continha toda a sua fortuna. &lt;br /&gt;– Se minha família quiser te dar algumas moedas, podes aceitar – disse o fantasma. &lt;br /&gt;Depois, caminhamos em silêncio até a tapera. Encostei-me de volta na parede. &lt;br /&gt;– Teu pai é um bom homem – disse ele. – É rude, mas é um bom homem. Com certeza te ajudará a manter a tua palavra. &lt;br /&gt;Fiz que sim com a cabeça. Um enorme cansaço me abatia. Fechei os olhos. &lt;br /&gt;Quando os abri de novo, foi ouvindo os cascos de cavalos. Não havia mais sinal algum da assombração. Levantei-me e vi que, desta vez, o tropel era o dos cavalos do meu pai e de um outro peão, que vinha com ele. &lt;br /&gt;– Onde te meteste, guri desgraçado? berrou meu pai. – Nós te procuramos a noite toda! &lt;br /&gt;– Estou aqui – respondi. – Passei a noite na tapera. &lt;br /&gt;O outro peão arregalou os olhos. &lt;br /&gt;– Passaste a noite na tapera, guri? E estás vivo? &lt;br /&gt;– Sim, senhor. &lt;br /&gt;Eles traziam o meu tordilho, e fui com eles de volta para a sede da fazenda. Mais tarde, contei a meu pai tudo o que tinha acontecido. Terminei pedindo, com lágrimas nos olhos, que ele me ajudasse a cumprir a promessa feita ao morto. &lt;br /&gt;E, para meu espanto, meu pai me agarrou pelos ombros. Os olhos dele me pareceram úmidos, embora nunca antes ou depois daquilo eu o tivesse visto chorar. Cheguei a pensar que ele me abraçaria, mas seu coração ainda não havia amolecido a esse ponto. &lt;br /&gt;– Tu és um bom guri – disse ele, apenas. &lt;br /&gt;Meu pai encontrou facilmente um bisneto do fantasma. O que restava de sua família ainda era muito pobre. Dali a algumas noites, fui com eles até a sanga, muito furtivamente: se o patrão de meu pai descobrisse tudo, iria querer ficar com o tesouro. Mostrei-lhes as pedras e os ajudei a levantá-las – ou tentei ajudar, porque minhas forças eram muito menores do que as deles. Embaixo delas, encontramos o saco, cheio de moedas de ouro muito antigas. &lt;br /&gt;O herdeiro do morto ficou profundamente agradecido, e ofereceu algumas moedas a meu pai. E foi o que nos permitiu deixar o campo e ir para uma cidadezinha pequena, da fronteira, onde ele se estabeleceu com um pequeno armazém. Assim, eu pude continuar os meus estudos. &lt;br /&gt;Bem, o que espero é que, no fim das contas, o fantasma tenha encontrado o seu descanso. Sei que, hoje, seus descendentes estão bem de vida. E, quanto a mim, uma coisa é certa: foi naquela noite, perdido na tapera perto da sanga, que eu conquistei o respeito do meu pai. E foi naquela noite que eu deixei de ser uma criança órfã e assustada e me transformei em um homem de verdade... &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;JULHO DE 2007 &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Nota: esta é uma obra de ficção, que não traduz necessariamente minhas idéias, crenças ou opiniões; qualquer semelhança com nomes, fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-7731659503538993892?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/7731659503538993892/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=7731659503538993892' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/7731659503538993892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/7731659503538993892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/tapera-perto-das-sanga.html' title='A TAPERA PERTO DAS SANGA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-6770769201291689150</id><published>2010-11-28T12:48:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T12:49:57.103-08:00</updated><title type='text'>A VIZINHANÇA</title><content type='html'>A VIZINHANÇA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: A. S. Vieira &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vizinhança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AUTOR: A.  S. VIEIRA &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Quando Claire Donahue chegou à bucólica e afastada cidade de Megiddo’s Hollow, no interior do país, ficou surpresa com o tamanho do lugar. O anúncio parecia deixar claro que a cidade era pouco maior que um bairro Nova Iorquino, mas a mulher se viu diante de um lugar imenso. Até maior que Manhattan.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Megiddo’s Hollow tinha ruas limpas e arborizadas, mas, estranhamente, sem carros. As casas eram lindas, com belos jardins. Viam-se alguns adultos, porém, prevaleciam as crianças. Havia muitas delas, como se o passatempo principal daqueles cidadãos fosse procriar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire suspirou, pensando em Martha e Melanie, suas filhas de 9 e 13 anos. Queria vê-las antes de se mudar para a cidade, mas seu médico fora enfático quanto ao fato de que, após seu trauma, evitasse emoções fortes. A promessa do corretor que lhe indicara a casa fora de que em breve seu marido e suas filhas estariam com ela em Megiddo’s Hollow. Era só o tempo para que conseguissem transferência em seus trabalho e escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O céu estava cinza e o vento soprava continuamente quando ela girou a chave na fechadura. A casa nova a acolheu silenciosamente; nem o assoalho rangeu. Era calmo, sossegado e, para uma corretora da Wall Street, era o que havia mais próximo da morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Como prometido, estava mobiliada. Móveis rústicos que nem de longe lembravam os de sua casa em Westchester, mas serviriam até que Mike, seu marido, chegasse e, juntos, eles resolvessem o que fariam. Estava na cidade há cinco minutos, mas já sentia falta do monóxido de carbono no ar de Nova York. E de sua família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Largou sua mala no chão e correu até o empoeirado telefone. Porém, antes que seus dedos tocassem nas teclas, ela percebeu que estava mudo. Impacientemente, ficou pressionando o gancho na tentativa de conseguir algum sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Está mudo – falou uma voz desconhecida atrás dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire gritou, largando o telefone no chão. Havia uma senhora muito idosa à porta, trajando um comportado terninho negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu já liguei para a companhia – continuou a senhora – Eles não devem demorar a reparar a linha. Você deve ser Claire Donahue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sou... E você, quem é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Oh, desculpe – sorriu carinhosamente – Sou Jamile, presidente da associação dos moradores de Megiddo`s Hollow.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ah... – Claire riu de si mesma – Desculpe ter reagido dessa maneira, mas não ando muito bem desde o acidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Já fui informada sobre isso. Um terrível desastre de carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Tive sorte de sobreviver. Eu lhe ofereceria um café, mas... Acabei de chegar, como você pode ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não tem problemas, minha filha. Preparei um delicioso bolo de milho lá em casa para nós. Acompanhado de um chazinho de maçã. Gosta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sim. E podemos conversar um pouco mais. Só eu sei o quanto estou a fim de jogar conversa fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ah, minha querida, então encontrou a parceira ideal. Sei de tudo sobre a cidade. Acho que pela minha idade, desde que ela foi fundada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire sorriu. Apesar do susto inicial, gostou de Jamile imediatamente. Seus olhos doces e gentis lhe remetiam a sua mãe, que há muito lhe deixara. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Já era tarde e Claire se revirava na cama, sem conseguir dormir. Insônia. Em momentos de stress ela costumava perder o sono, mas aquela tarde havia sido tão relaxante e ela não via motivos para ainda estar com os olhos abertos. Porém, não tinha sono. E também não ia adiantar nada ficar na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Levantou-se e se enrolou no penhoar de seda. Duas da manhã, marcava o relógio. Talvez um chá a ajudasse a dormir. E foi no caminho para a cozinha que algo lhe chamou a atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Pelas cortinas abertas, ela viu que não era a única sem sono. Todos seus vizinhos estavam bem acordados e parecendo dispostos, conversando entre eles enquanto prestavam atenção nas crianças que ainda brincavam como se fosse dia claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Insônia coletiva? Não, ela nunca ouvira falar disso. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Pela manhã, o telefone ainda estava com defeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu sei – falou Jamile, novamente a surpreendendo – A companhia ainda nem deu sinal de vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Jamile, eu preciso falar com minha família. Tive uma noite péssima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Dormiu mal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não dormi. E parece que ninguém dormiu essa noite. O que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ninguém dormiu? Como assim? Isso é novidade pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pensei que soubesse de tudo na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pelo visto, nem tudo. Mas vamos esquecer isso por enquanto. Que tal um passeio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu prefiro esperar pelo reparo no telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pode demorar – ela sorriu – Venha. Está um dia tão bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire não conseguia dizer não à sua nova vizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Alguns dias se passaram e nem a companhia telefônica ou o sono haviam chegado em Megiddo`s Hollow. Se o objetivo era evitar o stress, aquela ausência de informações não ajudava muito. Seus vizinhos até que se esforçavam para animá-la, mas Claire não tirava a família da cabeça e, surpreendentemente, até do emprego sentia falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Na sétima noite consecutiva sem sono decidiu que não ficaria na cama. Levantou-se e foi até a janela, de onde podia ver seus vizinhos alvoraçados. Mas, como ainda era relativamente mais cedo, eles não estavam vindo de parte alguma, mas indo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Sem pensar, Claire saiu de sua casa e abordou Teresa, sua vizinha da frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pra onde todos estão indo? – perguntou ansiosa – Há alguma festa acontecendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Na verdade é uma pequena reunião – respondeu Teresa de um modo que Claire percebeu não ser sincero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - E eu poderia ir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Não sei se seria educado levar alguém sem perguntar antes. Eu poderia até ligar e perguntar, mas como você sabe os telefones...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Estão mudos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Que bom que você compreende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     E sorrindo, ela se afastou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Qual era o problema daquela cidade? Pensou Claire. Por que todos sempre tinham um sorriso de fada madrinha no rosto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Claire as observou por alguns segundos até resolver ir à casa de Jamile. Talvez também ela não conseguisse dormir e estivesse indo a tal festa. No caminho, percebeu que ventava muito. Mas o vento que soprava era quente e, por vezes, sufocante. E todos estavam caminhando na mesma direção. Todos. De todas as casas, de todos os lugares da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire nem se deu a trabalho de bater na porta de Jamile. Sabia que ela estava indo junto com os outros cidadãos para qualquer que fosse o lugar. E já que estava sem sono, e cheia de energia, Claire seguiu o povo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A procissão era longa. As pessoas quase não falavam no caminho e, por alguma razão interna, Claire sabia que não estavam indo para uma festa. Ainda mais quando viu uma imensa igreja, ou pelo menos foi o que pareceu aquela construção no meio do bosque, se projetar majestosa por entre as árvores. Até aquele momento ela não percebera que a procissão adentrara a floresta. Foi então que ela parou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Teve medo da construção. Teve medo das pessoas. Teve medo do som que ouvia vindo de dentro do lugar, o que parecia ser um canto. Um canto contínuo, meio assustador, em uma língua que decididamente não era nenhuma que ela já tivesse ouvido antes. Não tinha religião, mas aquele canto soava para ela como uma oração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto ela se afastava de costas. O vento quente a golpeando. Seus pés descalços, percebeu ela. E uma mão fria tocando seu ombro. Ela se virou apavorada, quase gritando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vá pra casa – disse Jamile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que é aquilo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que lhe parece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Quero que me fale!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vá pra casa, Claire – falou ela de forma muito doce e sorriu. Claire nunca conseguiria dizer não para aquele sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Então conversamos pela manhã?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claro que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A velha senhora seguiu para dentro do prédio, enquanto Claire a observava. Alguns minutos depois ela estava em casa. Sentou-se na escrivaninha e escreveu uma carta para o marido onde pedia que ele fosse buscá-la o mais rápido que pudesse. Tentaria colocá-la no correio nas primeiras horas do dia. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Quando o sol pálido nasceu, Claire saiu logo de casa. Queria ir ao centro, procurar um correio e voltar antes da visita habitual de Jamile. Jamile de quê? Enquanto escrevia a carta percebeu que não sabia o nome da velha senhora, nem de nenhum de seus vizinhos. Toda a vizinhaça se apresentava usando apenas o primeiro nome, um ato incomum na América.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Andou por horas pela cidade com a carta nas mãos e então percebeu que não havia mesmo nenhum carro na cidade. E também não havia supermercados, ou correios, ou farmácias, ou qualquer outra loja. Nada. Pelo que percebia Megiddo`s Hollow era constituída apenas de casas e mais casas, com uma estranha construção no meio do bosque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Para se certificar, subiu em uma caixa d`água, que parecia ser o ponto mais alto da cidade. Lá de cima pode ter uma exata visão de onde estava. Em uma ilha, cercada por um oceano de casas. Até onde sua vista alcançava. Tudo iluminado pelo sol, exceto numa parte ao sul, onde o lugar era tomado por sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Onde diabos eu estou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Uma lufada de vento então arrancou a carta de suas mãos, a levando para longe. Ela tentou agarrá-la no ar, mas por fim a deixou ir. Algo lhe dizia que não adiantaria tê-la nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Desceu calmamente. Respirou fundo. Ainda tinha energia, apesar de todo o esforço que fizera. Então agarrou o braço de um homem, que passeava com um garotinho, e usou um tom inquisidor quando abriu a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Como eu faço para fazer compras por aqui, ou comprar remédios, ou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Essa cidade é residencial não sabia. Se quiser fazer compras, tem que fazer para o mês inteiro em Derry.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Aqui não tem nenhuma loja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E onde estaria a paz se isso aqui fosse um comércio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Isso não faz sentido... E como eu vou para Derry?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - De carro, ora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas eu não tenho carro. Aliás, ninguém aqui tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Quem lhe disse isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Basta olhar as ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Você é nova aqui, né? Todos temos carros, só não o usamos para manter o silêncio e o ar puro. Uma opção coletiva. Como você chegou aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O corretor que me vendeu a casa me trouxe... Eu acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Então peça que a leve à Derry. Olha, se estiver precisando de algo com urgência eu e minha esposa podemos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não, obrigada. Não preciso de nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Voltou então pra casa, enfiando tudo o que podia de volta na mala, mas ao mesmo tempo não tendo noção do que estava nela. Batidas na porta. Ela as ignorou. Chorando, fechou a mala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire – chamou Jamile – sou eu. Ainda está dormindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Batidas mais fortes. Ela sabia que Claire não dormia há dias e aquela noite em especial havia sido ainda mais incômoda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Não iria responder, talvez ela fosse embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Se está chateada por ontem à noite...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Não respondeu. Batidas impacientes agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sei que você está em casa, Claire. Não seja infantil. Rita a viu chegar. Se não abrir a porta, vou pedir que a arrombem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não quero conversar! – respondeu enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Tudo bem – seu tom agora parecia ainda mais sereno – Quando quiser conversar, estarei em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire pensou no carro. Todos tinham um, segundo aquele homem na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não, espere!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Abriu a porta, tentando parecer bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu fiquei preocupada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Desculpe, Jamile, mas essa falta de sono está me fazendo mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mentira. Nunca se sentira melhor disposta em toda sua vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Soube que foi ao centro da cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Como sou... –  respirou fundo – Eu queria colocar uma carta no correio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não temos correios aqui. Só em Derry. Talvez devesse esperar pelo carteiro. Ele passa todas as quintas feiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Na verdade, eu preciso de remédio e fazer compras também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas quando soube de sua chegada, me encarreguei de encher sua despensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu sei, mas há remédios...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Os remédios estão no armário do banheiro e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu quero fazer as compras! – gritou ela – Será que eu posso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Desculpe – Jamile parecia assustada – Pode, claro. Pode ir à Derry a qualquer hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pois eu quero ir agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Então vá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu não estou com meu carro, não percebeu? – respirou fundo, dizendo o mais calma que conseguiu – Não poderia me emprestar o seu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claro – Jamile sorriu – por que não pediu antes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Por algum motivo, Claire achou que sofreria alguma objeção. Mas não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Queira me desculpar por minhas atitudes, Jamile – desculpou-se ela no caminho até a casa da vizinha – Mas eu não ando muito bem. Estou me recuperando desse trauma e, você sabe. Não vi aqui pra ficar e eu sin...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire, minha querida, não precisa se explicar. De verdade Acho que um passeio de carro fará muito bem à você. O carro não é meu, é do meu filho. Não sei dirigir, mas posso aproveitar que vai à Derry e talvez possamos assistir a um filme no cinema. Há anos não vou a cinema. Acho que a última vez Clark Gable fazia juras de amor à Vivien Leigh.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A idéia era boa, Claire admitiu. Cinema... Ela precisava de uma boa comédia. No que estava pensando afinal? Qual é o problema de estar numa cidade pacata e residencial? Tanto tempo convivendo com o lixo de Nova York e desacostumara quanto ao descanso e a cordialidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O carro de Jamile era um chevrolet velho, mas devia fazer bem seu serviço. Esperou alguns segundo para a senhora trazer as chaves, então abriu a porta. Mas ao entrar e tocar as mãos no volante, começou a tremer e chorar. Seu corpo inteiro parecia temer aquele carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Logo ela se viu dirigindo pela ponte do Brooklin, nas primeiras horas do dia numa típica manhã na capital do mundo e, como sempre, já ao celular. Sorria, apesar de não lembrar com quem falava. Era alguém que ela gostava, certamente. Só podia ser. E a conversa estava tão boa que ela nem viu uma moradora de rua, empurrando um carrinho com latas, se precipitar pela calçada. Quando a percebeu, já estava próxima de seu pára-choque. Claire largou o celular e gritou, girando o volante em seguida. A guinada violenta na pista fez com que seu carro capotasse três vezes. Ela podia sentir ainda o vidro quebrado rasgando seu rosto, enquanto o volante era enterrado no seu peito. O trânsito ficou parado por mais de seis horas. O que ela conseguia ouvir era que tinha muito sorte de estar viva. E se lembrava de dizer a si mesma que nunca mais tocaria no volante de um carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E agora estava ali. Novamente em contato com tudo aquilo, enquanto tremia e chorava incontrolavelmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire, o que houve? – chamou Jamile preocupada – Fale comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu... Eu não posso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Chorando, ela deslizou para fora do carro e caiu no chão da garagem em pânico. Jamile a abraçou imediatamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não dá... Eu não consigo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Calma, calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu pensei que eu podia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Você passou por um trauma muito grande, minha filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Por favor, Jamile... Me tire daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Claro, claro. Vamos lá pra dentro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     A sala da casa de Jamile era bem arrumada, sem sujeiras e exibia uma coleção de pratos de porcelana. Todos os móveis eram de madeira, bem envernizados e com paninhos tricotados sobre eles. Jamile devia ser uma mulher bem caprichosa, era o que Claire pensaria se não estivesse tentando entender a razão daquele pavor súbito. Já havia conhecido pessoas que sofriam de síndrome do pânico, traumas, mas nunca imaginava que pudesse ser uma delas um dia. Não ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Quando a companhia telefônica fizer o reparo na linha – disse Jamile vindo da cozinha com uma xícara de chá – acho que você deveria se consultar com um psicólogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Você acha? – bebericou o chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Não a conheço há muito tempo, Claire, apenas há alguns dias, mas há algo estranho com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - E estou percebendo isso. Se agrava por essa ausência de sono, que todos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Claire, não há insônia coletiva. As pessoas vão até a igreja de noite, ficam até um pouco tarde, mas depois voltam e dormem normalmente. É um costume aqui em Megddo`s Hollow.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Mas você não me deixou entrar lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - As pessoas não gostam muito de gente sem religião no nosso refúgio de oração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Oh, desculpe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Não precisa se desculpar, mas tente não manter essa sua mania de perseguição. A cidade é muito pacata e acolhedora. Queremos que ela continue assim. Beba isso – lhe deu um comprimido – vai fazer você descansar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Ainda com lágrimas nos olhos, Claire pegou o comprimido branco e o engoliu. Logo entrou em um sono profundo e sem sonhos, onde, de certa forma, tinha consciência do que estava acontecendo a sua volta.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Despertou assustada, mas extremamente disposta. A noite já estava firme no céu, com sua lua cheia e suas estrelas. O mesmo vento quente soprava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Jamile... – chamou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas sabia que ela não estava em casa. Já devia ter ido a tal igreja. Não havia pessoas andando na rua, portanto, todos deveriam estar no bosque. Uma cidade tão grande e todos seguiam a mesma religião. Coisa estranha, ela sabia, mas não queria questionar mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Já se preparava para voltar pra casa quando a curiosidade bateu. O que poderia ter de interessante na casa de Jamile? Sem questionar, começou a mexer em tudo, mas tomando cuidado de deixar os objetos no mesmo lugar onde estavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Revirou fotos, papéis e então passou pelos quartos. Dois. O de Jamile e o de seu filho, bem arrumado. No primeiro encontro das duas, Jamile lhe confidenciara que Roni estudava em Londres e ia à cidade apenas nos feriados. Não havia nada de interessante nos quartos ou no segundo andar. Ali só restava uma escada para o sótão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O que poderia haver no sótão de uma senhora idosa? Estava disposta a descobrir. Rindo de si mesma, como se tivesse seis anos, subiu degrau por degrau até alcançar o sótão, que no geral costumam ser cômodos sujos e bagunçados. Não ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire se assustou quando se viu em um cômodo maior que o habitual, moderno e bem arrumado. Repleto de arquivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que vem a ser isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A mulher então, tomada de uma curiosidade ainda maior, começou a remexer nos arquivos, repletos de fichas de pessoas que ela jamais vira antes. Quem eram elas e porque Jamile mantinha registro de todas elas ali?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Na mesa do que seria um escritório, havia algumas pastas. Claire se aproximou da mesa, sentou-se na cadeira e olhou as fichas. Havia o que seriam registros de pessoas que estavam chegando à Megiddo`s Hollow, com fotos, endereços anteriores e, estranhamente, uma lista de todos os atos praticados pelas pessoas. Bons e maus atos, na verdade. Ela largou as fichas, intrigada. Remexou um pouco mais nos papéis, até que encontrou a sua ficha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Todos seus dados estavam lá: filiação, endereço, árvore genealógica... Mas a data de chegada e seus atos, bons ou maus, estavam em branco. Então, quando já se preparava para ir embora de vez, achou duas fichas que a deixaram intrigadas: Marlon e Violet Carmichael, seus pais. E havia algo que a intrigou: a data de chegada deles na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas eles estão mortos... Que palhaçada é essa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Pode-se dizer que Claire pensou muito, mas não. A decisão que tomou não levou sequer cinco segundos. Sabia que o lugar para respostas estava em algum lugar na vizinhança. Mais especificamente na construção, aquela espécie de igreja, no bosque. E foi para onde seguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Antes de adentrar o bosque, pode ouvir o canto. Aquele que a assustava. Era o mesmo de antes, ela sabia, mas agora parecia ainda mais assustador.  Naquele momento ele parecia fúnebre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E a majestosa construção. Essa parecia um imenso mausoléu com portas nada convidativas. No entanto, Claire as empurrou. Não havia nada além da escuridão. Olhando com mais calma, viu que havia vários corredores, caminhos que levavam para diferentes lugares. Resolveu usar o canto como guia e, cautelosamente, tomou o corredor da esquerda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Era como caminhar descalça sobre cacos de vidro, pois cada passo que dava era mais difícil do que o outro. Talvez devesse desistir, talvez devesse voltar... Mas porque tinha tanto medo daquela igreja? Foi então que alcançou o salão principal e, em choque, entendeu o porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Havia uma multidão de pessoas, de todas as idades, de todas as cores, de todos os tipos, nus. Completamente despidos, diante de pequenas fogueiras individuais para onde eles direcionavam o cante, ou oração. E choravam, gritavam, entravam em êxtase... Ainda assim cantando. E aquilo apavorou Claire. Mas então outra visão a fez esquecer o pavor e a deixou furiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Onde deveria ser o altar principal, Jamile, de olhos fechados, comandava o canto como uma pastora para seus fiéis. E cada vez mais o tom do canto parecia subir dando uma sensação de pânico à Claire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Porém, tentando não se deixar atingir por aquilo, Claire se dirigiu ao altar principal, desviando-se das pessoas com suas fogueiras e cantos inebriantes. Enquanto caminhava, ela percebeu algo nas chamas. Elas não aqueciam, ou queimavam. Ao invés disso, mostravam pálidas imagens de pessoas em diferentes lugares, praticando diferentes ações. Algumas em escolas, outras em casas, outras em viagens... O que era estranho, pois era para elas que o canto era direcionado. Assustada, Claire pensou em correr para fora da igreja. E nesse ato acabou tropeçando em uma menina, que, ao abrir olhos, gritou intensamente. Em poucos segundos, todos abriram os olhos e gritavam também, em um uníssono ensurdecedor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Parem de gritar – berrou Jamile e, quando se fez silêncio, voltou-se  à Claire – O que você faz aqui? Achei que tinha sido clara quanto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Por que você mantém um registro de todos nessa cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Do que você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Disso – e mostrou alguns arquivos – Como teve acesso a essas informações e como tem fichas de meus pais, que já morreram há muitos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire, há coisas que você ainda desconhece sobre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E não vou ficar aqui pra conhecer. Com ou sem carro, Jamile, estou indo embora dessa cidade agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Jamile vestiu uma manta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não, não está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Você não vai sair dessa cidade, Claire. Não até que seja decidido que você deve partir. Por enquanto você fica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Isso é o que você pensa. Eu não ligo para ordens médicas e estou indo embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas ao se virar para sair, havia dois homens, jovens e bonitos, bloqueando sua saída. Usavam roupas negras e sorriam. Apesar de aquele sorriso ser usado para transmitir paz, aterrorizou ainda mais Claire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Quem são vocês?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que faremos com ela? – perguntou um deles à Jamile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Leve-a para o porão da igreja. Ela simplesmente não pode ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que? – falou ela aterrorizada – Não podem me prender! Isso é cárcere privado, ouviu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas percebeu que não adiantaria falar. Tentou correr pelo caminho oposto, mas os dois homens se ergueram no ar, voando, e a seguraram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que é isso?! Quem são vocês?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não grite, Claire – pediu Jamile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu quero ir pra casa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Você está em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Minha casa! – e se voltou à multidão de pessoas – Por favor! Façam alguma coisa! Me ajudem!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas ninguém falou nada. Todos a olhavam sem emoção, enquanto os homens a erguiam no ar. Gritando, chorando e se debatendo, Claire foi levada um lance de escadas abaixo e jogada no porão. A porta foi trancada em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Desgraçados!!! – gritou ela, com lágrimas – Vocês não sabem com quem estão lidando!!! Eu vou processar todos vocês! Todos vocês!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não vai adiantar – disse a voz de uma jovem mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Só então Claire percebeu que não estava sozinha no porão. Havia com ela pelo menos umas trinta pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Quem são vocês?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pessoas que descobriram algo errado nessa cidade – falou a mulher – Algo que não podemos explicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire sentou-se, respirando fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Que tipo de coisas estranhas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - A cidade não tem lojas – falou um homem robusto – Não tem hospitais, nem prefeitura... Jamile, que nem diabos sobrenome tem, parece ser a responsável por tudo aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E tem aqueles policiais – disse uma senhora bem idosa – Aqueles jovens de negro. Eles me dão arrepios. E voam. Pessoas não podem voar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eles não são pessoas – tornou a falar a jovem mulher – E eu já disse o que acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Besteira! – resmungou o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que você acha? – perguntou Claire, intrigada, mas mais calma em ter pessoas na mesma situação que ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Acho que estamos mortos. Todos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Houve um burburinho geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu já disse – continuou o homem – Isso é besteira. Não podemos estar mortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - É mesmo? Então porque não conseguimos contato com nossas famílias desde os nossos acidentes? Quem nos trouxe aqui foi o mesmo corretor, com aquela conversa esquisita de lugar para relaxar. Estamos mortos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Isso não faz sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Até faz – concordou Claire respirando fundo e jogando os arquivos no chão – Encontrei essas coisas na casa de Jamile. Ela tem arquivo de milhões de pessoas nessa cidade – vendo que os arquivos passavam de mão em mão, ela continuou – Essas pessoas aí mais velhas, são meus pais. Há a data de chegada deles na cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E daí? – o homem parecia incrédulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E daí que é a mesma data que eles morreram, há anos atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu disse, eu disse – falou a jovem mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E o silêncio que se seguiu foi terrível. Finalmente, o homem o quebrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Se estamos mortos... A que isso nos leva? O que estamos fazendo aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu não sei – falou a senhora – mas ainda não acredito que estamos mortos. Duas noites atrás eu consegui dormir e vi minha família de alguma forma. E sei que não estou morta. Além do mais – ela exibiu o braço – eu me cortei esses dias e sangrei. Eu sangraria se estivesse morta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Isso não faz sentido. Não faz mesmo – falou o homem – Precisamos de respostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A porta então foi destrancada e se abriu. Por ela, Jamile entrou. Todos pareciam furiosos com ela, mas nenhum deles disse nada. Apenas a olhavam com um misto de pavor e ódio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O dia já está nascendo – falou ela – Vocês estragaram nossa noite, mas não podemos deixá-los aqui. Voltem para suas casas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Queremos sair da cidade – falou o homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não vou discutir isso de novo com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Então nos responda – disse a jovem mulher – estamos mortos ou não? Por que realmente parece que estamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pela milésima vez, Tracy, não! Vocês não estão mortos! E pelo que me consta, vocês estão aqui de passagem, portanto, ajam como bons convidados e se comportem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Queremos saber mais sobre essa maldita cidade – gritou Claire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Essa “maldita cidade” está recebendo vocês de braços abertos. E, a menos que decidam ficar aqui pra sempre, não saberão nenhum dos segredos de Megiddo`s Hollow. Agora vão! Direto para suas casas!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Todos saíram do porão, um a um, mas Claire ficou.  Estudou Jamile por alguns segundos em silêncio, até que a velha senhora falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vou trancar o porão. Se quiser ficar aqui por mais tempo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Meus pais estão aqui, não estão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Por que não estariam?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Porque estão mortos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Ela riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Já disse, Claire. A menos que decida ficar pra sempre, não saberá nada sobre essa cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não posso ficar. Tenho uma família...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Se desprenda e aprenda. Quando ficamos presos ao passado, não evoluímos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire não falou mais nada. Apenas saiu do porão e então da igreja. Caminhou pelo bosque e, já na cidade, Tracy a esperava acompanhada da velha senhora e do robusto homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Que bom que esperaram por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sou Tracy, como deve saber. Estes são Ruth e Donnie. Eu sou do Texas e eles são do Kansas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E eu sou Claire, de Nova York.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire, conversamos com os outros – falou Donnie – mas eles não quiseram. Estão com medo. Mas nós decidimos ir pra casa. Vamos fugir dessa cidade ainda hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas como conseguiremos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Daremos um jeito – falou Ruth – só queremos saber se está conosco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Ela sorriu, aliviada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sim. Estou com vocês sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Instintivamente todos olharam para as ruas da cidade, onde dezenas de jovens, homens e mulheres, andavam com trajes negros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Até ontem eu não havia reparado neles – murmurou Claire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Bom – completou Tracy – parece que ele não tem mais porque se esconder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - É melhor voltarmos pra casa então – falou Ruth apreensivamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Boa idéia. Nos encontramos então na caixa d`água lá no centro da cidade à noite, quando esse povo todo tiver ido para a igreja. No vemos lá então? Ruth?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sim, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Donnie?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pode contar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sem dúvida. O que eu mais quero é sair dessa cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Então nos vemos à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E sem se falar mais, os quatro seguiram em direções opostas. Nenhum deles percebeu que Jamile os observou escondida atrás de uma árvore. Assim que chegou às ruas, um dos jovens de negro se aproximou dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Os quatro estavam conversando, Jamile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E eu ouvi tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Quer que nós façamos alguma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sim. Quero que todos venham à igreja essa noite e deixem as ruas livres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas aí eles poderão sair da cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Acredite, eles vão sair da cidade. E é melhor pra eles que saiam. E para nós também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Jamile se afastou calmamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ah, Jamile!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Os pais de Claire querem falar com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não, não... Por que eles não podem simplesmente ficar quietos e esperar como todos os outros? A filha tem mesmo a quem puxar. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire esteve inquieta por todo o dia. A toda hora um dos “policiais” passava por sua janela e fazia questão de cumprimentá-la. Ela nunca quis que a noite chegasse tão rápido. E assim que as primeiras sombras da noite surgiram, ela ficou alerta. Assim que as primeiras pessoas começaram a sair de casa, ela ficou esperançosa. Assim que as ruas ficaram desertas, ela partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Ninguém nas ruas. Absolutamente ninguém. Só o mesmo vento quente, aquela noite um pouco mais forte. Não teve dificuldades em chegar à caixa d`água, onde Tracy e Donnie a esperavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Cadê a Ruth? – perguntou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ainda não chegou. Vamos esperar uns...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ela está vindo – apontou Donnie – Ainda bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E então – falou Ruth – Podemos ir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claro – disse Tracy – Alguém sabe como sair daqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - De carro? – sugeriu Donnie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Legal, Donnie, mas nenhum de nós tem carro aqui ou consegue dirigir. Alguma idéia melhor? Claire?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Podemos ir, quem sabe, até a estrada que vai para Derry e andar até conseguirmos carona. É uma idéia. E pelo menos estaríamos longe daqui, desse lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vamos então. Logo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Os quatro então seguiram pelas ruas, em silêncio, estranhando a ausência dos homens de negro. Mas ninguém falou nada, apenas seguiram por horas pela cidade, passando por um sem número de casas e mais casas. Nenhum deles se sentia cansado. Então finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, saíram da cidade e chegaram a uma rodovia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A felicidade de ver carros e caminhões passando estava estampado no rosto de todos, porém, a tentativa de conseguir carona foi inútil. Nenhum veículo parou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vamos andar. Alguém vai parar mais cedo ou mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não sei, Tracy. Acho melhor voltarmos e conseguirmos um carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não seja tola, Ruth. Vamos seguir a rodovia até conseguirmos voltar pra casa. E isso não é uma sugestão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vejam – falou Claire – Uma parada de caminhões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Sorrindo ainda mais, todos correram até a parada de caminhões. Havia um posto de gasolina de aspecto abandonado e um restaurante chamado Nocturno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pessoal – falou Donnie – não sei se é uma boa idéia pedirmos carona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que sugere então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não sei, Tracy. Não quero ouvir nãos desses caras ou expor vocês, mulheres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Podemos ver o destino deles e entrar escondido nas caçambas deles, junto com as cargas – sugeriu Claire – Descemos quando eles pararem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu concordo – finalizou Tracy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E como ninguém mais disse nada, partiram para a escolha dos caminhões. Virem as placas. Vancouver, Minessota, Wyoming, Kansas... Foi naquele que eles esconderam Ruth e Donnie.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Boa sorte pra vocês dois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Você também, Claire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Tracy subiu em um que estava indo para Houston e apenas sorriu para Claire. Elas sabiam que não se veriam tão cedo. Claire não teve dificuldades em conseguir embarcar como candlestina. Entrou em um caminhão de roupas que ia para o Queens. O veículo demorou duas horas mais ou menos para partir, mas quando o fez, ela suspirou aliviada. Iria conseguir sua paz. Fim, foi o que pensou sorridente enquanto o caminhão deixava aquilo tudo pra trás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire então chegou em seu bairro. O sol já havia nascido e ela se sentia muito. As ruas estavam vazias, pois estava cedo demais para as pessoas saírem de casa em um... Afinal, em que dia da semana estava? Não importava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Assim que avistou sua casa, ela correu. A porta se abriu. Ela sorriu, chorando de excitação. Duas belas meninas saíram da casa, com mochilas, certamente indo para a escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Martha! Melanie! – gritou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      As meninas não ouviram. Mike saíra logo atrás e todos entraram no carro estacionado em frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mike, espere! – gritou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas Mike também não a ouviu. Ela correu ainda mais, mas quando alcançou seu jardim, o carro já estava na pista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - A escola...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire sempre conheceu bons atalhos em seu bairro, por isso não teve problemas em chegar ao lugar no mesmo momento em que sua família. As meninas já estavam descendo do carro, mas ela não ia deixar Mike partir sem falar com ela. Antes que o carro partisse novamente, ela abriu uma das portas traseiras e se enfiou no veículo, batendo a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que é isso?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mike, eu voltei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mike a encarou e sorriu. Por um momento ela pensou que havia acordado daquele pesadelo, mas Mike não estava sorrindo para ela. Estava sorrindo para si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Idiota – falou consigo mesmo – Tenho de parar de me assustar o tempo todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mike? Estou aqui. Quer parar com essa brincadeira idiota? Você não sabe o que eu tenho passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O carro partiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ok. Quer continuar com isso, tudo bem. Estou aqui quando quiser se desculpar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas Mike manteve seu silêncio. Parou rapidamente numa floricultura, comprou Lírios, as flores preferidas de Claire, e voltou para o carro. Claire pensou que ele se manifestaria, mas continuou em silêncio. Aquilo não era normal. De maneira alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Olhou para seus pés. Andara parte da noite e eles não tinham uma bolha sequer. Nada daquilo era normal. Será que estava morta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Alô – disse Mike ao celular – sou Mike Donahue. Tudo bem. Só estou ligando para avisar que vou visitar Claire antes do trabalho, se não for um incômodo. Não? Ótimo, estou a caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Então não estava morta. Era bom que aquela brincadeira tivesse uma boa razão, pois ela já estava começando a desconfiar da própria sanidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mike seguiu pelas ruas de Manhattan até que parou diante de um prédio antigo, mas ainda sim arrumado. Desceram. Mike cumprimentou o porteiro, as recepcionistas, tomou um elevador. Claire estava apavorada. Ninguém parecia vê-la. Ao chegarem ao seu destino, Mike abriu uma porta e entrou em um quarto. Claire estava reticente. Sabia o que veria antes mesmo de entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      No quarto, Mike conversava com um médico enquanto depositava suas flores ao lado de uma cama, onde ela viu a si mesma deitada, jazendo cheia de aparelhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Nenhum sinal de melhora, doutor? – perguntou Mike.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não sabemos se ela conseguirá sair do coma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas sabe que essa noite eu tive um bom pressentimento – ele sorriu, chorando algumas lágrimas – Sonhei que ela estava lutando para voltar pra mim e as meninas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Isso é bom. Não se pode perder as esperanças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire se aproximou de si mesma, chorando. Então era isso. O acidente a havia deixado em coma. Ela não estava nem morta, nem viva. Apenas presa entre um lado e o outro. O que ela poderia fazer? O que?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Ela então mergulhou em seu corpo, tentando voltar a si. Nada aconteceu. Gritou, mexeu e nada. Olhou para Mike, que estava se despedindo do médico. Ela precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa para chamar sua atenção. Ela precisava gritar seu nome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mike... MIKE!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E então eles a olharam. Olharam para seu corpo. O corpo gritara o nome de Mike.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ela acordou! Ela acordou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu acho que...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Então os aparelhos começaram a apitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Droga, não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O médico apertou um botão vermelho e logo alguns médicos entraram no quarto para ajudá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - O que aconteceu? – perguntou um deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ela pareceu acordar, gritou, mas algo deu errado. Estamos perdendo ela. Precisamos fazer algo! Tirem ele daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mike foi levado para fora do quarto. Claire observa a si mesma, sendo massageada, levando choques com o desfibrilador, mas nada parecia funcionar. Havia um clima de tensão, medo, mas ela se sentia calma. Já sabia o que iria acontecer. Atravessou o quarto quando o médico a anunciou, encontrou seu marido chorando do lado de fora e o abraçou demoradamente. Como se ele pudesse sentir sua presença, ficou mais calmo e sussurrou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Claire... Eu te amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu também te amo – ela sorriu – E vou esperar por você e pelas meninas. Mas não se preocupem. Podem demorar bastante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      O médico então saiu do quarto. Ela foi embora. Não queria ver Mike recebendo a notícia de sua morte. Iria fazer muito mal a ela. Sabia o que precisava fazer por sua família e só havia um lugar para onde ir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Quando voltou à Megiddo´s Hollow já era a manhã de um novo dia. A porta de sua casa estava aberta e Jamile a esperava para o chá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Eu já sabia que estava chegando. Sente-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Por que não me contou antes que eu estava morta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Porque você não estava. Pelo menos ainda não. Por isso eu disse que contaria quando você viesse para ficar. Não poderia contar nossos segredos à você, havendo a possibilidade de você acordar e contá-los. As pessoas têm a péssima mania de contar suas experiências pós-coma, o que nos causa alguns problemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Entendo. Mas agora eu vim para ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Isso é bom e mau. Vai ter de conviver com a saudade, como os outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E como vou fazer isso? – perguntou tristemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vai se reunir para rezar por eles, orar por suas vidas... Como todos nós fazemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Claire a olhou, com lágrimas nos olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E quanto a Tracy?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Estava em coma também. Acidente com rapel. Esporte perigoso, você sabe, mas acordou há algumas horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Fico feliz por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Todos ficamos. Quando eles chegam ou quando voltam. Sempre são momentos felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas diga, Jamile, o que é exatamente essa cidade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Aqui? Um lar de espera. Espera para o momento do julgamento final, onde todos responderão por seus atos em vida. Atos bons ou ruins. Você subiu na caixa d`água, lembra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Deve ter visto a zona escura. Rezamos mais pela aquela gente na igreja, pois são os que mais precisam. Cometeram crimes hediondos ou então tiraram a própria vida. Somos uma boa comunidade, Claire. Todos no mundo vêm pra cá e tem seus lugares para ficar. Pensamos nos vivos, mas cuidamos de nós mesmos. Afinal, nosso crescimento espiritual é muito importante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Então, todos os mortos estão aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sim – ela riu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Ok – Claire meio que chorou, meio que riu – então será que eu poderia ver meus pais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Jamile se levantou, sorrindo com entusiasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Mas é claro. Sua mãe não fala de outra coisa. Eles estão loucos para rever você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Apenas sorrindo, as duas fecharam a porta daquela casa e seguiram para uma outra na mesma Megiddo´s Hollow. A cidade dos mortos; a vizinhança daqueles que aguardam o derradeiro julgamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-6770769201291689150?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/6770769201291689150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=6770769201291689150' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/6770769201291689150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/6770769201291689150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/vizinhanca.html' title='A VIZINHANÇA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-4258838232037484778</id><published>2010-11-28T12:47:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T12:48:14.541-08:00</updated><title type='text'>O SILÊNCIO E A ESTRELA NA TREVA</title><content type='html'>O SILÊNCIO E A ESTRELA NA TREVA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Alessandro Reiffer &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Silêncio e a Estrela na Treva &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      E eu estava ali, sentado em uma cadeira, naquela insuportável madrugada de verão, quente, abafada, tomada pelos mosquitos. Tentava inutilmente concentrar-me na leitura de uma obra filosófica; o calor intenso impedia-me. Meu relógio indicava que as 3h se aproximavam... Dos arredores de minha casa, eu podia captar os sons igualmente insuportáveis (ou ainda piores) das repugnantes festas carnavalescas que empesteavam as cidades. Os ruídos supostamente musicais, os irritantes alaridos, unidos ao típico clima de verão, tornavam aquela madrugada uma verdadeira tortura.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas algo que ocorreu logo após as 3h, absolutamente inesperado, mudou inexplicável e tragicamente o destino da noite... Um temível e fantástico ribombo de trovão repercutiu em estranhas reverberâncias, e foi seguido de outro, de mais outro e ainda outro... E então, após alguns segundos, acabou a luz. E à interrupção de energia elétrica e do conseqüente breu completo, seguiu-se um silêncio absoluto, uma quietude bizarra e sepulcral. Em meio à escuridão total, cessaram-se todos os sons, realmente todos, de “músicas”, de vozes, de festas, de veículos, de gritos, de grilos, ou do que quer que fosse. Nada mais ressonava pelas atmosferas opressivas da madrugada de estio. Tudo foi calado, parecia que a morte havia brandido sua foice e ceifado de uma hora para outra todas as vidas de minha cidade.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Levantei-me e, às apalpadelas, cheguei até a porta e a abri. Lá fora, na íntegra escuridão, fitei o céu nebuloso e somente vi brilhar uma única estrela imensa e soberana. O local de minha casa era relativamente alto e pude verificar que em nenhuma residência, num raio de quilômetros, havia qualquer tipo de luminosidade; e o silêncio completo e inexplicável continuava de forma assustadora. Não saberia esclarecer o motivo, talvez fosse minha melancolia, que me impeliu a sair pelas ruas desertas e caminhar sem destino em meio ao escuro infernal. Lentamente, avançava pelo silêncio mortuário, tendo a terrível sensação de que eu era o único sobrevivente de uma catástrofe apocalíptica. Nenhum sinal de vida era identificável, a não ser o som dos meus passos e de minha respiração. Creio que também pude ouvir meus batimentos cardíacos... Mas o mais horrível e desolador era a deprimente e ameaçadora sensação de que algo implacavelmente trágico estava para acontecer...  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A cada passo que dava, tal impressão era intensificada, e um nervosismo inclassificável tomou conta de todo o meu ser. Foi nesse instante que principiei a ouvir as primeiras manifestações sonoras após, creio, quase uma hora de caminhada. Mas antes não houvesse escutado aqueles sons... Eram ruídos de alguma espécie de vôo, ruflares de asas estranhas, não de morcegos ou de pássaros comuns, que me pareciam cercar integralmente, porém, obviamente, nada eu podia divisar entre o negror dantesco. Apesar do medo inevitável, prossegui minha insólita andança, quando, minutos depois, avistei a alguns metros duas pequenas luzes brilhantes no chão. Com certo receio, aproximei-me da estranha e minúscula fonte de luz, ao que soou uma voz anormal, emitida em tom doentiamente melancólico: “Sou a alma de um sapo que morreu há algumas horas, quando um grupo de humanos festeiros passava por aqui...” Advirto que eu não podia ver nada, a não ser as duas luzes, que acreditei serem os olhos do suposto animal, ou de seu espírito. O ser prosseguiu: “Eles me mataram a pedradas no momento em que tentava atravessar a rua para obter alimentos no terreno baldio ali em frente. Morri aos poucos, sentindo cada choque das pedras sobre meu pequeno organismo indefeso. Senti minha pele ser brutalmente esfolada, rasgada, perfurada e meu sangue escorrer e inundar-me. A dor era insuportável, horrível, meu desespero, completo, eu lutava para escapar, eu esperneava, tentava sofregamente pular, mas já não possuía uma perna, eles já me haviam cegado com a violência monstruosa das pedradas, e minhas forças sucumbiam, eu ouvia meus ossos quebrarem, sentia meus órgãos serem extirpados e percebia os pedaços de minha carne ao redor. Finalmente, uma pedra enorme caindo em meu crânio e o quebrando, ceifou minha existência de caçador de insetos. E aqueles humanos festivos partiram felizes e vitoriosos, rindo e vociferando, orgulhosos e satisfeitos com minha morte. Porém, agora, onde eles estão? Não os ouço mais, não ouço nenhuma alegria, nenhum ruído das festas, tudo cessou de repente após aqueles arrasadores trovões...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Deixei o espírito do sapo, ou o que quer que aquilo fosse, e continuei meu funesto passeio noturno, sob um céu lutulento, onde somente brilhava uma gigantesca estrela, enquanto escutava os agourentos e incessantes bater de asas ao meu redor... De que seres eram tais asas? Eram seres animados ou inanimados? Além de nada ver, não sentia sopros, nenhuma forma de deslocamento do ar naquela atmosfera insanamente abafada, asfixiante. E o que foram aqueles trovões abomináveis? E por que agora eu parecia ser o único humano vivo em minha cidade? Onde estariam os outros? Fazendo o quê? Tais dúvidas agoniavam-me intensamente... Foi quando principiei a ouvir o som de batidas de algum relógio colossal, colossal pelo aspecto sonoro das batidas, um tic-tac angustioso e pressago. Era terrível, era de enlouquecer aquele monótono e fúnebre e esquisito martelar, e, de imediato, veio-me à mente a lembrança do impiedoso conto de Poe “A Máscara da Morte Rubra”, onde os participantes de uma festa, a cada hora completa, eram infernizados pelas sombrias badaladas de um enigmático relógio, que interrompia lugubremente seus festejos e, sem que eles soubessem, alertava sobre a morte que os aniquilaria em breve... E aquela impressão de algo negro que estaria para acontecer, se tornou ainda mais pungente e dilacerante. Fui assediado por inquietações repulsivamente nervosas e aflitas, de uma feral angústia sobrenatural. A escuridão pareceu se transfigurar agora em hórridas nuvens negras e opressivas, caindo de um espaço ignoto, em um ambiente pesado e hostil. E eu prosseguia caminhando lentamente, ouvindo o sinistro adejar das asas invisíveis. Não sei por quanto tempo já caminhara, mas a impressão que tinha era de tê-lo feito por uma relativa eternidade, e sem encontrar o mínimo vestígio de vida humana. Minhas emoções ultra-exacerbadas estavam atingindo um pânico sobre-humano, eu entrava em um quase estado de choque. E o inexplicável relógio batia seu tic-tac frenético, hipnótico, e as asas ruflavam dantescamente, e as nuvens hediondas caíam, e a estrela gigante brilhava... Curiosamente, parecia que de forma intencional as nebulosidades evitavam ocultar a estrela da minha visão. E eu, asfixiado naquele clima pesaroso, perguntava ao Desconhecido quando retornaria a luz, quando brilharia o sol... E após tais depressivos questionamentos, um cheiro horripilante e nauseabundo invadiu minhas narinas... Era o miasma da carniça da pura podridão... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Eu passara a pisar em corpos, em cadáveres humanos, já apodrecidos, quase liquefeitos, devorados por vermes que sentia movimentarem-se por meus pés e pernas asquerosamente. Devido à escuridão, não podia distinguir que tipos de gosmas, de secreções, de repulsivos líquidos corporais eram aqueles em que eu me afundava, ou que pessoas estavam ali, mas certamente eram os meus conterrâneos. Durante muito tempo mantive-me caminhando sobre os corpos, emergindo meus pés na carne decomposta, vomitando sob a influência daquelas evaporações pestilentas da carniça, enquanto trinava o relógio, adejavam as asas, caíam as nuvens e brilhava a estrela. Voltei-me para intentar ver algo em minha retaguarda e ali divisei uma névoa fosforescente, doentiamente amarelada e que nada iluminava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Aos poucos, fui deixando de caminhar sobre mortos, e o mau-cheiro foi desaparecendo. Exausto dos paroxismos da desolação e do desespero, continuava sendo impelido a caminhar por forças ignotas, e, e mais uma inexplicabilidade, não sentia nem sede, nem fome, nem sono, apenas cansaço, não físico, mas psíquico, espiritual. Senti, por conseguinte, na excitação febrenta de meus sentidos e emoções perturbados, que a compulsão para caminhar cessara instantaneamente... Estaquei como um insano no meio do que deveria ser uma rua, e voltara o silêncio sepulcral. Sim, porque o funerário relógio não mais latejava seu toque enlouquecedor, as asas, ou o que pensei serem asas, deixaram de executar sua odienta sinfonia, e as nuvens negras findaram sua queda do espaço imperceptível. Somente a estrela ainda cintilava... E soou uma voz...  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Soou uma voz, que não era humana, que era... não sei, não sei que voz era aquela! Só sei que de suas tenebrosas notas advinha uma arrepiante sensação de que algo catastrófico estava para ocorrer, negros pressentimentos, agouros e maus presságios, iminentes tragédias, sombras implacáveis, horror, horror e mais horror! E a voz disse, sem que eu pudesse distinguir quem ou o que a proferia: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Já faz uma semana que tu caminhas na escuridão. E a luz não voltou. Não, findou-se a energia elétrica para todo o sempre, e o sol tornou-se negro como a noite, negro como a treva. Viste teus conterrâneos? Ou melhor, sentiste sua podridão? Todos mortos. O que é o homem? O que é o homem sem a luz, sem a eletricidade, sem a energia solar? O que é a humanidade sem as forças da natureza? Nada. Carne podre é o que são agora. E de que valeu a “ciência magnífica” de que tanto se orgulhavam? De que adiantou confabularem em suas câmaras, em suas universidades, em seus laboratórios, em seu parlamentos, em seus templos e igrejas, em suas indústrias, em seus salões de festas, em seus escritórios, em suas empresas, em seus prédios monumentais, em seus quartéis, em toda essa “grandiosa civilização”? Um dia tudo acabaria, um dia tudo seria impotente frente à revolta natural e inexorável do Cosmos. E chegou esse dia. Nada é para sempre. Todos os sinais dos Últimos soaram como funesto alerta. Mas os homens preferiram discutir suas mediocridades inúteis, suas políticas mesquinhas, suas economias estúpidas; preferiram cultuar suas vaidades, auto-iludirem-se com religiões infrutíferas e ciências estéreis, atulhando-se de quinquilharias tecnológicas, planificando guerras e festas, comemorações e depredações ambientais, assassinatos e massacres de animais e homens, planejando como encher mais o bolso através da exploração mascarada do trabalho alheio, atulhando seus estômagos de degenerações alimentares, suas mentes de baboseiras da mídia, e o útero das mulheres de espermas corrompidos. Comer, beber, dormir e ter orgasmos. Eis todo o sentido que encontraram para a vida. Sim, tudo isso, enquanto alguns artistas e literatos “sérios e respeitáveis” discutiam qual a melhor arte para o mundo atual, intentando impor regras de uma boa escrita, o que é de bom ou de mau-gosto, estabelecendo padrões de uma “útil e profunda” literatura, o que teria ou não valor. Desperdiçaram desgraçadamente seu tempo... O resultado não poderia ser outro... Tudo acabou, tudo se perdeu... Adeus.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     E uma ciclópica revoada de asas troou devastadora, partindo para o desconhecido em meio à treva. E eu ali permaneci, na escuridão absurda, no silêncio tumular, na cósmica solidão. E, arrasado, volvi meus olhos para a titânica estrela no alto, isolada entre a trevosa nebulosidade. Algo ela me transmitia... alguma coisa queria me dizer... à minha intuição... eu... eu deveria morrer... sem morte não há renascimento... e um sopro violento e gélido derrubou-me desacordado sobre o solo de pegajosa umidade...  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                          &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-4258838232037484778?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/4258838232037484778/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=4258838232037484778' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4258838232037484778'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4258838232037484778'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/o-silencio-e-estrela-na-treva.html' title='O SILÊNCIO E A ESTRELA NA TREVA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-4124691989883309096</id><published>2010-11-28T12:46:00.000-08:00</published><updated>2010-11-28T12:47:13.082-08:00</updated><title type='text'>QUANDO O MAR CHAMOU ALAYDA</title><content type='html'>QUANDO O MAR CHAMOU ALAYDA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Rogério Silvério de Farias &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua casa, na praia ao sul de Maremontes, Alayda cantava, tocando seu piano de forma exuberante. Como cantora e pianista, era soberba, magistral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era poetisa, também. E pintora. E amante dos prazeres proibidos do sexo. Vivia para a arte e para a volúpia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No auge de sua loucura erótica, levou um pobre poeta do interior de Maremontes, Rúbio Perez, a ficar escravo de seus beijos ardentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a fome de prazeres pecaminosos levara Alayda a trair o ingênuo Rúbio com um rude e sensual pescador de nome Antero. Foi uma paixão efêmera como um temporal de verão. Não houvera amor, apenas desejos fortuitos de lascívia e lubricidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desgostoso ao saber da traição de Alayda, o tristonho Rúbio atirou-se dos rochedos, precipitando-se ao mar furioso e profundo de Maremontes. Morreu no mar, como convém aos poetas fracassados nas lides do amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alayda, ao saber do acontecido, ficou deprimida. Passou a beber. Lia os versos de Rúbio todas as noites, em voz alta, sob o olhar desconfiado da criadagem. Olhava para o mar bravio, cintilando com as luzes da grande lua cheia refletida em sua superfície rugosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco a pouco ela foi enlouquecendo, madrugadas inteiras musicando ao piano os sonetos de amor de Rúbio, com intervalos onde bebia vinho para esquecer seu remorso atroz e contumaz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O arrependimento por ter magoado e traído o pobre Rúbio era como um punhal de fogo em seu peito. Ela queria morrer, morrer e mais nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que, com as dores da alma, vieram os primeiros lampejos negros de loucura. A dor do pecado a consumia como uma chama selvagem, queimando-lhe a alma toda. E essa dor refletira-se em seu corpo; outrora ela fora bela e formosa, mas agora as olheiras, as rugas, a vida desregrada em loucuras de sexo pecaminoso com outros pescadores,  tudo a tornava feia e repulsiva como uma rameira de pior jaez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa madrugada fria e cinzenta como uma tumba negra do Inferno, ela ouviu aquele chamado distante, parecendo vindo do mar, parecendo ser o próprio mar ou uma entidade humana acrescentada ao mesmo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alayda!...Alayda!...Alayda, querida!...Meu amor!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foram noites e noites frias onde o mar parecia chamar Alayda, enlouquecida, bêbada, arrependida. Ela não mais dormia, a vida tornara-se um fardo insuportável, uma prisão irremediável, um veneno lento de efeitos pungentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite em que as brumas densas envolviam a praia como que fantasmas oriundos das fossas negras do Inferno, Alayda   buscou aquela voz gutural e profunda, proveniente do mar revoltoso da cidade costeira de Maremontes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixando marcas de seus pés na areia branca, Alayda, com seu longo e sensual vestido branco e seus cabelos dourados e desgrenhados balançando ao sabor da pequena brisa que também fazia rodopiar lentamente as névoas, foi caminhando, como que indo ao encontro da estranha voz que vinha do mar, a voz que, agora, ela percebia, tinha um timbre familiar, fúnebre; lembrava, vagamente, a doce voz de Rúbio, o poeta fracassado na vida e no amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alayda!...Alayda!... Alayda, meu amor!... Venha! Venha, Alaydaaaaa! Venha morrer comigo, Alaydaaaa!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Alayda, tremendo de frio, o juízo perdido para sempre, caminhou lentamente entre as sombras da noite, caminhou para o mar, adentrando-o e desaparecendo em suas águas gélidas e turbulentas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi assim que Alayda sumiu nas águas do mar de Maremontes, naquela noite sombria, onde as névoas bailavam ao luar. O mar chamara Alayda para a morte! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*          *          * &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela manhã, a criadagem da casa sentiu a falta de Alayda. Ela costumava tocar piano todas as manhãs. Num instante todos sabiam do desaparecimento de Alayda.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pescadores, entre eles o rude Antero, ex-amante de Alayda, viram as pegadas na areia. Antero sabia: aquelas marcas delicadas de um pequeno pé, só podiam ser de Alayda; além disso, ainda pairava no ar aquele perfume que só ela usava, um perfume de amor selvagem e libidinoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia dúvida para o povo de Maremontes, ela morrera no mar. Suicidara-se. Morrera. Como morrem todos aqueles que amam a poesia tristonha do amor e os poetas fracassados nesta vida estranha e ruim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-4124691989883309096?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/4124691989883309096/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=4124691989883309096' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4124691989883309096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/4124691989883309096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/quando-o-mar-chamou-alayda.html' title='QUANDO O MAR CHAMOU ALAYDA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-5958695001308672140</id><published>2010-11-28T12:45:00.002-08:00</published><updated>2010-11-28T12:46:31.053-08:00</updated><title type='text'>A ILHA</title><content type='html'>A ILHA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: Márcio Renato Bordin &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Diego acorda com o corpo todo suado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo, todo roto; olha para os lados, seu quarto?!? Não está mais em seu quarto, ele acordou dentro de uma choupana aparentemente abandonada; teias de aranha por todos os lados; vasos de argila quebrados, poeira e mais poeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Está fazendo um calor de rachar, Diego procura por água, sua cabeça gira confusa, tenta entender o que está acontecendo, como que ele foi parar ali, nada faz sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Olha em um canto da choupana, um vaso inteiro, talvez esse tenha água; sua garganta está em chamas; Diego pega-o e chacoalha, sim, tem algo líquido aqui, mas o cheiro está horrível; joga um pouco no chão de areia para conferir o que tem dentro, é um liquido grosso, vermelho escuro, fedorento... É sangue, junto com o sangue cai do interior do vaso algo meio redondo, de inicio não dá para ver direito o que é; Diego pega um galho e limpa o sangue e a areia que grudou na estranha bola ao cair...  Meu Deus! É um olho humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Apavorado, o rapaz deixa o vaso cair, derramando todo o sangue sujo de dentro e vários olhos humanos; lembra-se de sua mulher e seus filhos; os procura desesperadamente; corre pra fora da choupana; o céu parece em chamas, sente como se sua pele pegasse fogo, seus pés descalços pisam em uma areia fervente como lava, seus joelhos dobram, ele chora, precisa ficar em pé, rastejando Diego continua procurando por sua esposa e seus três filhos; ao longe ele avista algumas árvores, talvez eles estejam em baixo de suas sombras se escondendo desse sol escaldante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Mas Diego procura, grita pelos nomes e não ouve resposta; tudo levava a crer que ele estava só e pelo jeito estava no inferno. Diego se senta encostando-se ao pé de uma das enormes árvores, tentando se lembrar dos últimos acontecimentos que ocorreram no dia anterior, antes de se deitar para dormir em seu quarto ao lado de sua esposa; lembrou-se que estava em uma festa havaiana, bebeu muito, dançou com algumas dançarinas contratadas para animar a festa, elas até juravam de pés juntos serem mesmo havaianas, se fosse uma festa do dia das bruxas, elas jurariam ter 300 anos cada; lembrou também de ter discutido com sua esposa por causa dessas dançarinas, foi um pouco mais além de uma discussão, ela lhe deu um tapa e Diego lhe retribuiu o carinho; um garçom que também estava vestido de havaiano entrou na briga para acalmar as coisas, mas foi agredido por Diego com um soco no queixo; o agressor foi seguro pelos seguranças da festa, e o pobre garçom pegou sua bandeja do chão, olhou nos olhos de Diego e sussurrou algumas palavras desconhecidas por ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Libo gabi sa ang impiyerno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Só pode estar me ofendendo- Diego pensou no momento, mas agora, em sua lembrança, as palavras do garçom estão tendo sentido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     – “Mil noites no inferno”. Foi isso que aquele maldito disse; será que estou no inferno? Só pode ser isso; esse calor, o céu, essa sede e nenhuma água...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Diego, com todo seu tormento, não tinha antes prestado atenção no som que vinha de suas costas, é o som do mar, ele se levanta e corre, saindo de baixo da sombra das arvores e voltando ao sol em chamas, pisando nas areias que lhe queimavam a sola dos pés deixando em carne viva, mas ele corria quase que se rastejando em direção à aquele som...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Enfim, seus olhos vêem ao longe, é mesmo o mar, mas conforme ia se aproximando, esse mar se tornava vermelho, é só o reflexo desse céu estranho e castigador; como se carregasse o mundo nas costas, sentindo toda a força da natureza empurrando seu corpo ao solo, ele resiste e, chega à margem das águas do mar; não é o reflexo do céu que a deixou vermelha, é um mar de sangue... Diego cai de joelhos, lágrimas escorrem de seu olhos, de braços abertos, ele olha para o céu e aos berros repete a pergunta que não quer se calar em sua cabeça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Por quê??? Diz-me o por quê???&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Nada, nenhuma resposta; ele se levanta, tentando manter o corpo ereto, olha para todos os lados e onde seus olhos alcançavam só existia aquela areia cercada por sangue, de repente ele nota algo se movendo em baixo daquele liquido vermelho, parece que são pessoas lhe acenando, fixa a vista já cansada e distorcida pelo sol, as imagens começam a ganham uma forma...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Meu Deus o que é isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     São pessoas presas pelo pé ao fundo desse mórbido oceano, porém elas estão vivas, acenando com as mãos para Diego, mas não parecem pedir por ajuda e sim o estão chamando; Diego olha diretamente no rosto de algumas dessas pessoas, algumas parecem sofrer, outras estão rindo, felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Será que a dor deles é menor que a minha? - Ele se questiona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Dá alguns passos em direção ao mar de sangue, ele quer se juntar à elas, quer parar de sofrer, estão lhe chamando e suas pernas querem obedecer ao chamado, mas ele reluta, lembra-se que debaixo das árvores o sol não lhe castigava tanto, a sede ainda lhe ardia a garganta, porém nesse momento esse era o menor de seus males.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Longos minutos de caminhada que pareciam horas, Diego retorna a sombra das arvores, senta-se ao pé de uma delas novamente, chorando, seus olhos inchados se viram para o alto, nos galhos, quatro corpos dependurados, enforcados, corpos sem os olhos, os corpos de sua mulher e de seus três filhos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     -Nããããooo!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Ele grita em desespero, seu grito é ouvido pela enfermeira do manicômio, ela adentra ao quarto correndo acompanhada de outros dois enormes enfermeiros que o seguram enquanto ela lhe aplica uma injeção no braço. Diego sente seu corpo pesado, pouco à pouco o sono vai lhe tomando por completo, mas consegue ouvir a voz daquela enfermeira comentar com os outros dois rapazes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Ele assassinou a mulher e os filhos, foi algo brutal, arrancou os olhos de toda a sua família enquanto vivos e depois os enforcou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Diego acorda com o corpo todo suado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     - Que pesadelo terrível- ele pensa em voz alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Quando vai se levantar, percebe que estranhamente estava dormindo em uma rede velha, suas roupas estão um trapo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-5958695001308672140?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/5958695001308672140/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=5958695001308672140' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5958695001308672140'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/5958695001308672140'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/ilha.html' title='A ILHA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-2108251734866358914</id><published>2010-11-28T12:45:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T12:45:37.573-08:00</updated><title type='text'>A SUBSTÂNCIA</title><content type='html'>A SUBSTÂNCIA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: PAULO SORIANO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A SUBSTÂNCIA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paulo Soriano &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamo-me Victoria Birth Hatherly e meu pai acaba de ser enforcado, após três meses de reclusão e um julgamento tumultuoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Ontem à noite, os verdugos permitiram-me, finalmente,  visitar o   meu pai.  Ele estava bem mais sereno do que eu podia esperar.  Deu-me um beijo de despedida e depositou em minha mão uma longa carta.   Disse-me que não dispunha de tempo suficiente para fazer, pessoalmente, as incríveis revelações que, ao longo de dois dias,  freneticamente entornara na missiva.   Pediu-me, apenas, que  lesse a carta com a maior urgência possível, porque eu estava circunscrita por um  grande e iminente perigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Eu sabia, sim, que o perigo me rondava.  Desde muito pequena, recebo, diariamente, uma injeção que incide diretamente   no músculo cardíaco. A aplicação é demorada e dolorosa.  Parece-me que o êmbolo da seringa pressiona contra o meu peito não um líquido salvador, mas lavas incandescentes.   Nutro  uma dependência absoluta pela droga milagrosa.  A abstinência de apenas um dia significa uma viagem sem retorno ao Vale das Sombras.   Mas as ampolas  acabaram. Elma, minha doce dama de companhia,  ministrou-me, no limiar da madrugada, a última dose da substância que me mantém viva.   E, até ler a carta, eu não sabia como obtê-la novamente. Nunca soube a natureza de minha enfermidade, nem como o meu pai conseguia  o único remédio capaz de neutralizá-la.  Mas, agora que sei, ainda mais inexoráveis   e próximos se me anunciam  o grotesco  definhamento e o doloroso fim. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      As circunstâncias nas quais  o meu pai foi preso e condenado estão minuciosamente descritas na missiva.  Porém, como o tempo urge,  transcreverei, apenas, as passagens mais relevantes.  Espero que as omissões  não comprometam a cognição dos  acontecimentos que induziram  meu pai ao cadafalso. E  que, é bem provável, concorreram para determinar, ao que tudo indica,    o meu precoce perecimento. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; "Filhinha, querida – assim o meu pai inicia a sua carta. – É preciso que você leia esta missiva   com redobrada atenção, se pretende sobreviver.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Você está inteiramente  a par da série de crimes que, há quase duas dezenas de anos, vem, com incrível regularidade,   mergulhando o nosso país num clima de horror e expectativas. Crimes abjetos e recorrentes, que vitimam quase sempre indigentes,  bêbados e prostitutas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Sabe, também, que sou eu o  acusado de provocar, a cada seis meses,   as terríveis mutilações na face de cada uma dessas  pobres pessoas de baixa estirpe, embora as provas dos autos  apontem   justamente em sentido contrário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Com efeito, nenhuma das pessoas que teve  o olho esquerdo cirurgicamente removido   me reconheceu  como  o causador de seu infortúnio. Ao contrário, todos  os depoimentos convergem para a evidência de   que outra pessoa, com características físicas e morais absolutamente distintas  da minha – no caso, um simples e rude cocheiro - , acercava-se da    vítima com promessas encantadoras e a   conduzia   às tabernas de reputação mais duvidosa, onde lhe     eram ofertadas,  gratuitamente, bebidas a rodo e  ilimitadamente.  Ao generoso   pretexto de levá-la para casa - já que, a esta altura, a infeliz  presa   estava completamente embriagada -,     o cocheiro oferecia-lhe transporte de cortesia. E, tão logo subia a vítima ao coche, o verdugo, violentamente, administrava-lhe clorofórmio, de molde que o desfalecimento era imediato.   Quando retornava a si, o infeliz,  abandonado em  estrada de periferia, descobria, para o seu horror, que tivera um dos olhos arrancado da órbita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Você também está ciente de que o juiz Maastricth, que conduziu o processo, é meu inimigo capital, embora eu não possa prová-lo.   Ele não me perdoa o fato de não ter podido salvar  o seu pequeno e único  filho.  Como magistrado culto   e experiente que é,  sabe, plenamente, que a obrigação do médico é de meio e não de fim. Ou seja: o médico não garante a cura do paciente.   A sua missão consiste em  envidar todos os esforços a seu alcance com vistas ao restabelecimento do doente; ou, em sendo impossível a cura, minorar os efeitos nefandos da enfermidade. Juro que empreguei todos os meus conhecimentos e habilidades para resgatar a vida do pequeno Maastricht.   Mas, evidentemente, fracassei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Todavia,  uma única evidência  - um   indício  meramente circunstancial e, com toda certeza, "plantado"  pelos meus detratores   –   foi suficiente para que eu fosse condenado à forca: uma abotoadura, com as minhas iniciais,  resultou  encontrada no local onde a última das vítimas fora abandonada. De pouco adiantaram   os fortes e incontornáveis  argumentos de meu advogado.  O juiz estava convencido de que o cocheiro não passava de um comparsa, de um agente secundário na perpetração desses hediondos crimes. Intuiu o dr. Maastricht que o cocheiro trabalhava para mim, já que, conforme parecer unânime dos renomados peritos, a remoção dos olhos das vítimas   era obra de um cirurgião experiente.  Ao argumento de que existiam, somente  na cidade de K., pelo menos quinze médicos com as iniciais J. H., o juiz Maastricht redargüiu, como se me lançasse um irônico elogio,   que nenhum deles  era tão habilidoso e renomado quanto eu. E caso encerrado.  Isto mesmo: a minha habilidade e a minha fama me remeteram   ao patíbulo. Como o apelo não suspende a execução, e o tribunal não apreciará o recurso em tempo hábil, já sou um homem morto.  E nem a comoção popular, animada pela flagrante injustiça da condenação,  e insuflada   pela   violenta reação da imprensa, poderá  me servir de tábua de salvação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Mas,  como a morte  me prepara o bote fatal e inevitável, devo permitir, querida filha, que você participe da verdade.   Dói-me compartilhar com um anjo estes segredos outrora  inconfessáveis. Embora  a  minha condenação tenha sido determinada por injunções meramente pessoais, já que as provas dos autos clamavam por minha absolvição, confesso que as imputações a mim irrogadas eram de todo procedentes. Somente num ponto Maastricht    se equivocou: não havia comparsa algum. Havia simples disfarce.   Sou, sim, o único  responsável pela mutilação dos andrajosos. Mas não me é dado derramar uma lágrima, sequer, de arrependimento. Pois tudo de nefando que perpetrei encontra uma justificativa para além de   plausível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Fui, durante longos anos, adjunto do professor Thelonius Ruiter, certamente o maior fisiologista que a humanidade já conheceu. Com ele, desenvolvi estudos e pesquisas que, se postas em prática, representariam não apenas uma revolução na Medicina, senão um avanço considerável na regeneração de órgãos e tecidos mortos. O mestre Ruiter, laborando com cobaias, conseguiu  realmente  reverter o processo da morte, algo até então reputado   como uma absoluta impossibilidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Ruiter descobriu que uma substância produzida pela retina dos mamíferos possuía incríveis poderes regenerativos.   Mas a eficácia restauradora  da substância estava subordinada à retirada do olho de um animal ainda vivo, da mesma espécie que a do  ser regenerado. Verificou, ainda, que o efeito reanimador da substância era fugaz, de apenas poucas horas em animais pequenos e de célere metabolismo.   A partir de várias experiências e cálculos probabilísticos, o velho professor chegou à conclusão de que, no homem, o  efeito de cada aplicação   não ultrapassaria vinte e seis  horas, malgrado de um único olho extirpado fosse possível extrair substância suficiente para   garantir uma sobrevida de seis meses ao ressuscitado.  Ciente de tais restrições, o douto Ruiter, que conseguira trazer à vida seres definitivamente mortos, renunciou à aplicação do "tratamento" em   entes  humanos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Herdei de Ruiter o seu laboratório e suas anotações. Mas, em contrapartida,  fui incumbido de guardar o segredo de suas descobertas, visto como extremamente perigosas.   Quem, neste mundo,  não estaria disposto a sacrificar um olho de um semelhante para devolver a vida a  um ente querido? Filha, eu fui capaz. Sim, de Ruiter herdei não apenas a promessa do silêncio, mas também o perfeito domínio de sua arte,  desde a retirada do olho do animal até a elaboração do soro milagroso. Bem por isso, quando você morreu,   aos cinco anos de idade, vitimada por uma fratura no pescoço,  não pensei duas vezes: trouxe você de volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Longe estou de querer afligi-la. O que descreverei será apenas um alerta, para que você adote  as urgentes providências que o caso requer. A abstinência da droga provoca, imediatamente, dores lancinantes. A decomposição dos órgãos é rápida e extremamente dolorosa, porquanto, mantidos os terminais nervosos,   o cérebro é o último  a fenecer.  Ou seja: você apodrecerá em oito dolorosas horas, perfeitamente consciente de que se decompõe "lentamente".   Não haverá uma segunda morte.  Não, filha. Tecnicamente,  você não está viva. Você está morta, é carne dada aos vermes, não obstante   provisória  e continuamente  regenerada a cada volta  que a terra dá   em torno de si mesma.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Eu não duraria para sempre e você teria de sobreviver sem  mim. Não foi à toa, pois,   que eu, contrariando  a  sua vontade e as  suas  inclinações pessoais, fiz de você minha auxiliar na tarefa de dissecação  e vivissecção de animais. E que sempre fui enfático e exigente no cuidado com a   remoção dos olhos   e cauterização da cavidade ocular. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Todas as instruções necessárias para a produção da droga se encontram  descritas abaixo..."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Serão mesmo pestilenciais  as emanações que presumo exalar de meu corpo? Não sei, embora   tenha quase certeza de que tudo não passa de impressão minha. Afinal,  não sinto  dor alguma.  Mas sei que  não me foi difícil remover o olho esquerdo de Elma, minha querida companheira de tantos anos.  Ao mesmo tempo em que anseio pelo prolongamento de minha "vida", os   despojos do meu pai jazem aqui,  ao meu lado, aguardando a regeneração. Foram-me entregues há pouco. Reanimá-los foi uma deliberação minha.   E, enquanto escrevo, espero o resultado da injeção que apliquei, há pouco, no peito do cadáver  do meu pai.  E imploro a Deus – será mesmo a Deus? – que o olho de Elma não tenha sido o último a ser extirpado por estas trêmulas mãos de cadáver insepulto... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6200823121595446503-2108251734866358914?l=contosgrotescos.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/feeds/2108251734866358914/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=6200823121595446503&amp;postID=2108251734866358914' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2108251734866358914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6200823121595446503/posts/default/2108251734866358914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://contosgrotescos.blogspot.com/2010/11/substancia.html' title='A SUBSTÂNCIA'/><author><name>VÍDEOS GROTESCOS</name><uri>http://www.blogger.com/profile/07230213616109059208</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6200823121595446503.post-2718767161688728531</id><published>2010-11-28T12:44:00.001-08:00</published><updated>2010-11-28T12:44:35.968-08:00</updated><title type='text'>A.MALDIÇÃO DAS GÊMEAS</title><content type='html'>A.MALDIÇÃO DAS GÊMEAS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autor: A. S. VIEIRA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Lara jogou uma pá de terra sobre o caixão de sua irmã gêmea Mabel, logo após seus pais fazerem o mesmo. Ela fora assassinada com um tiro nas costas após ter sido brutalmente espancada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o fim que todos esperavam que ela tivesse, afinal, a bela Mabel, com apenas dezenove anos, se desviara a muito tempo dos bons caminhos. Cortejou a criminalidade, usou drogas, roubou e se prostituiu. Motivos de sobra para que a jovem fosse repudiada pelos vizinhos e até mesmo pela irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      A jovem noviça Lara era o completo oposto da irmã. A começar pela opção de vida, que decidira aos quinze anos, quando se mudou para um convento. Disse ter tido uma revelação enquanto observava a cidade de Nova York do alto do edifício Empire States.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, resolveu abandonar o convento para prestar apoio aos pais naquele momento tão triste de suas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Enquanto se afastava do túmulo, foi interceptada por um homem moreno, de sobretudo, que observava a cerimônia de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Boa tarde – disse amistosamente com sua voz alta e bem empostada – Tem um minuto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Pra que?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Sou o agente Stone, Peter Stone, da polícia de Nova York. Estou investigando o assassinato de sua irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      Lara o fitou desconcertada pela sua aparência máscula. Então, meio que voltando a si, respondeu o mais formal que pode, punindo-se internamente por tê-lo olhado com cobiça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - E em que posso ajudá-lo, agente Stone?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Desculpe interrogá-la em um momento tão difícil como esse, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Vá direto ao ponto, agente Stone. O Sr. tem um minuto, nada mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Gostaria de saber se você sabe algo sobre a morte da Srta. Hunter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Além de que ela procurou por isso? Não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Não sabe nada que possa ajudar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      - Nada mesmo. Estive até ontem em um convento em Ohio, revi meus pais hoje e ainda nem conversamos sobre Mabel. E na verdade, nem quero conversar 
